O OUTRO LADO DO AMOR
ROSAMUNDE PILCHER

O OUTRO LADO do AMOR

Traduo

de

Anabela Martins

flDIFEL
Ttulo original: Another View

> 1968, Rosamunde Pilcher

Todos os direitos de publicao desta obra em lngua portuguesa, excepto Brasil,

reservados por:

DIFEL

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Capa: Clementina Cabral sobre imagem de AEI Reviso tipogrfica: Frederico Sequeira Composio: Fotocompogrfica, Lda. Impresso e acabamento: Tipografia Guerra,
Viseu Depsito legal n." 201 836/2003 ISBN 972-29-0671-2/Janeiro de 2003

Proibida a reproduo total ou parcial sem a prvia autorizao do Editor
Digitalizao:

Ftima Toms

Correco:

Joana Belarmino


Em Paris, em Fevereiro, o Sol brilhava. No aeroporto L Bourget, o Sol resplandecia friamente num cu azul gelado e a sua luz encandeante era reflectida nas pistas,
ainda molhadas depois de uma noite de chuva. Visto de dentro, o dia parecia convidativo e eles sentiram-se tentados a ir at ao terrao, acabando por descobrir que
o Sol refulgente no exalava nenhum calor real e que a brisa alegre que empurrava os sacos de vento em ngulo recto trazia na ponta um cutelo afiado. Derrotados,
retiraram-se para o restaurante, para esperar que o voo de Emma fosse anunciado, e sentaram-se numa pequena mesa a beber caf e a fumar os Gauloises de Christopher.

Movendo-se com -vontade, absortos um no outro, atraam, no entanto, uma certa ateno. O que era inevitvel, j que faziam um casal vistoso. Emma era alta e muito
morena. O seu cabelo, penteado para trs e preso por uma bandelette de tartaruga, caa-lhe numa torrente negra at um pouco abaixo das omoplatas. No tinha uma cara
bonita as mas do rosto eram salientes de mais e de uma robustez exagerada para a beleza, com um nariz direito e queixo anguloso e determinado. Mas estas caractersticas
eram redimidas e tornadas encantadoras por uns olhos inesperadamente azul-acinzentados e por uma boca grande que, embora fosse muito bem capaz de murchar desconsolada
se no levasse

a sua avante, tambm podia sorrir de orelha a orelha, como a de um puto, quando ela estava feliz. E ela agora estava feliz. Trazia, nesse dia frio e soalheiro, um
fato de cala e casaco verde-forte e uma camisola de l de gola alta que lhe tornava o rosto ainda mais moreno. Mas a sua aparncia sofisticada era ofuscada pelo 
volume de bagagem de que estava rodeada e que parecia, ao cidado comum, ter sido salva de um qualquer acto desastroso de Deus.

Era, na verdade, a acumulao de seis anos de vida no estrangeiro, mas ningum tinha obrigao de o saber. Trs malas de viagem j tinham passado pelo check in, 
aps terem sido pagas as despesas de excesso de bagagem. Mas havia ainda uma mala de lona, um saco de papel com compridos cacetes franceses, um cesto a abarrotar 
de livros e discos, uma gabardina, um par de botas de esqui e um enorme chapu de palha.

Christopher observava, tecendo comentrios especulativos, com ar desprendido e indiferente quanto  forma como aquilo tudo ia ser levado para o avio.

Podias levar o chapu na cabea, calar as botas de esqui e vestir a gabardina. Eram menos trs coisas para carregar.

J tenho um par de sapatos calado e o chapu ia com o vento. Alm disso, a gabardina  horrorosa. Pareo um cabide vestido. Nem sei porque  que me dei ao trabalho 
de a trazer.

Eu digo-te porqu. Porque vai estar a chover em Londres.

Pode no estar.

Est sempre. Ele acendeu outro Gauloise na beata do primeiro. Mais uma boa razo para ficares em Paris comigo.

J discutimos isso dezenas de vezes. Eu vou voltar para Inglaterra.
 
Ele sorriu sem rancor. Tinha estado a atazan-la. Quando ele sorria, os seus olhos de mbar elevavam-se nos cantos e isto, combinado com o seu corpo alto, magro 
e indolente, dava-lhe uma aparncia curiosamente felina. As suas roupas eram coloridas, descuidadas e vagamente bomias. Calas de bombazina, botas de plo muito 
usadas, uma camisa azul de algodo por cima de uma camisola de l amarela e um bluso de camura muito velho e lustroso nos cotovelos e na gola. Christopher parecia 
ser francs, mas, na verdade, era to ingls quanto Emma e tinham at vagos laos de parentesco, j que, anos antes, quando Emma tinha seis anos e Christopher dez, 
o pai dela, Ben Litton, casara com Hester Ferris, me de Christopher. O compromisso durou, com um xito muito relativo, ano e meio, antes de se ter, por fim, dado 
a ruptura, e agora Emma recordava-o como o nico perodo da sua vida em que conhecera qualquer coisa vagamente aproximada de uma vida familiar normal.

Fora Hester quem insistira em comprar a casa em Porthkerris. Ben tivera a um estdio durante uma srie de anos, desde muito antes da guerra, mas este no tinha 
qualquer tipo de comodidades e, aps uma olhadela ao antro para onde deveria ir viver, Hester saiu imediatamente porta fora e comprou duas casas de pescadores que 
transformou com gosto. Ben no demonstrou o menor interesse por tal actividade, por isso aquela casa tornou-se muito a casa de Hester e era ela que insistia numa 
cozinha que funcionasse, numa caldeira que aquecesse a gua e numa grande lareira onde ardesse a lenha que o vento trazia para a costa, um corao para o seu lar, 
um foco em volta do qual as crianas se pudessem reunir.

As intenes dela eram esplndidas, os seus mtodos de as levar a cabo no to bem-sucedidos. Ela tentou fazer cedncias em relao ao Ben. Tinha casado com um gnio, 
conhecia a reputao dele e estava preparada para fazer vista grossa aos seus casos amorosos, ms companhias e  atitude dele em relao ao dinheiro. Mas, como  
frequente acontecer nos casamentos mais vulgares, acabou por ser vencida pelas pequenas coisas. Pelas refeies esquecidas e por comer. Por contas triviais, que 
no eram pagas durante meses. Pelo facto de Ben preferir beber no pub local em vez de o fazer de uma forma civilizada, em casa, com ela. Foi vencida pela recusa 
dele de ter telefone, de ter um carro; pelo corropio de vagabundos que ele convidava para dormir no sof dela; e, finalmente, pela total incapacidade de demonstrar, 
fosse em que altura fosse, qualquer tipo de afecto por ela.

Por fim, deixou-o levando Christopher com ela e pedindo quase de imediato o divrcio. Ben ficou encantado em dar-lho. Ficou tambm encantado por ver o rapazinho 
pelas costas. Os dois nunca se tinham dado bem. Ben tinha cimes da sua prioridade de macho, gostava de ser o nico homem importante em sua casa e Christopher, mesmo 
aos dez anos, era um indivduo que recusava ser ignorado. Apesar de todos os esforos de Hester, este antagonismo persistiu. At a beleza do rapaz, que Hester acreditava 
verdadeiramente que encantaria o olho de pintor de Ben, teve o efeito contrrio, e quando ela tentou persuadir Ben a pintar um retrato do filho, ele recusou-se a 
faz-lo.

Aps a partida deles, a vida em Porthkerris regressou com facilidade  antiga rotina grosseira. Cuidaram de Emma e Ben uma srie de fmeas em desalinho, modelos 
ou estudantes de pintura, que entravam, passavam e saam da vida de Ben Litton com a montona regularidade de uma fila de cinema bem ordenada. A nica coisa que 
tinham em comum era uma adulao por Ben e um menosprezo sobranceiro pelas tarefas domsticas. Reparavam em Emma o menos
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possvel, mas, na verdade, ela no sentira tanto a falta de Hester como se pensava que sentiria. Ficara cansada, tal como Ben, de ser organizada e de andar perpetuamente 
abotoada dentro de roupas limpas, mas a partida de Christopher deixou um grande vazio na vida dela, que se recusava a ser preenchido. Durante algum tempo sentiu 
uma grande tristeza pela partida dele, tentou escrever-lhe cartas, mas no se tinha atrevido a pedir a morada dele a Ben. Uma vez, no desespero da solido, fugiu 
para ir  procura de Christo. Isto consistiu em ir at  estao e tentar comprar um bilhete para Londres, que lhe parecia ser um stio to bom como outro qualquer 
para ir procur-lo. Mas ela s tinha um pni e o chefe da estao, que a conhecia, levara-a para o seu gabinete, que cheirava a candeeiros a petrleo e ao carvo 
dos caminhos-de-ferro a arder na lareira, servira-lhe uma chvena de ch, enchida por uma cafeteira de esmalte, e acompanhara-a a casa. Ben estava a trabalhar e 
no tinha dado pela ausncia dela. Ela nunca mais tentou procurar Christopher.

Quando Emma tinha treze anos ofereceram a Ben um lugar de professor na Universidade do Texas por dois anos, que, sem pensar em Emma, ele aceitou imediatamente. Houve 
um pequeno hiato, enquanto o futuro de Emma era discutido. Quando confrontado com a questo da filha, ele anunciou que simplesmente a levaria para o Texas consigo, 
mas algum, provavelmente Marcus Bernstein, persuadira-o de que ela estaria melhor longe dele, e foi assim que a mandaram para a escola na Sua. Ficou em Lausana 
durante trs anos, sem nunca voltar a Inglaterra, e depois foi para Florena mais um ano, para estudar arte italiana e renascentista. Ao fim desse tempo, Ben estava 
no Japo. Quando ela sugerira que era melhor ir ter com ele, Ben respondeu por telegrama: "nica cama livre ocupada pela encantadora gueixa. Porque no tentas viver 
em Paris?"

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Filosoficamente, pois tinha agora dezassete anos e a vida j no era uma coisa surpreendente, Emma fez o que ele lhe sugerira. Arranjou um emprego em casa de uma 
famlia de nome Duprs, que vivia numa grande vivenda em St. Germain. O pai era catedrtico numa Faculdade de Medicina e a me era professora. Emma cuidava dos seus 
trs filhos bem-comportados, ensinava-lhes ingls e italiano, levava-os em Agosto para a modesta villa de famlia em La Baule e durante todo esse tempo esperou pacientemente 
que Ben voltasse a viver em Inglaterra. Ele ficou no Japo ano e meio e quando voltou, de facto, foi via Estados Unidos, onde passou um ms em Nova Iorque. Marcus 
Bernstein foi ao encontro dele nos Estados Unidos e era caracterstico que Emma soubesse da razo desta reunio, no pelo prprio Ben, nem sequer por Leo, que era 
a sua fonte de informao habitual, mas por um longo artigo abundantemente ilustrado na revista francesa Ralits, que tratava de um Museu de Belas-Artes recentemente 
construdo em Queenstown, na Virgnia. Este museu era uma obra criada pela viva de Kenneth Ryan, um virginiano rico, em homenagem ao marido, e para a abertura da
galeria estava prevista uma exposio retrospectiva da pintura de Ben Litton, das suas paisagens pr-guerra aos abstraccionismos mais recentes.

Uma exposio daquelas era uma honra e um tributo, mas sugeria, inevitavelmente, que um pintor fosse reverenciado, um grande senhor das artes. Emma, ao estudar uma 
das fotografias de Ben em todos os seus ngulos e contrastes a sua pele muito morena, o queixo saliente e o cabelo grisalho, perguntava-se o que  que ele pensaria 
sobre essa venerao. Ele toda a vida se tinha rebelado contra as convenes e ela no conseguia imagin-lo a submeter-se mansamente ao papel de grande senhor do 
que quer que fosse.

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Que homem! exclamou Madame Duprs, quando Emma lhe mostrou a fotografia.  muito atraente.

Pois  concordou Emma, e suspirou, porque tinha sido sempre esse o problema.

Em Janeiro, Ben voltou com Marcus para Londres e regressou imediatamente a Porthkerris para pintar. Isto foi confirmado por uma carta de Marcus. No dia em que a 
carta chegou, Emma foi ter com Madame Duprs e despediu-se. Eles tentaram alici-la, persuadi-la e suborn-la para que mudasse de ideias, mas ela foi inflexvel. 
Mal tinha visto o pai durante seis anos. Estava na altura de se conhecerem outra vez. Ela ia voltar para Porthkerris para viver com ele.

Por fim, porque no tinham escolha, concordaram em deix-la partir. O seu voo foi reservado e ela comeou a fazer as malas, atirando fora algumas das coisas acumuladas 
durante seis anos e atafulhando o resto numa srie de malas pudas e muito viajadas. Mas mesmo estas eram tristemente inadequadas e Emma acabou por ser obrigada 
a sair para ir comprar um cesto, um grande cesto de feira francs que acomodaria a enorme quantidade de objectos de formas estranhas que se recusavam a entrar em 
qualquer outra coisa.

Era uma tarde cinzenta e fria, dois dias antes da prevista partida. Madame Duprs estava em casa, por isso Emma, explicando o motivo da sua sada, deixou os midos 
com a me e saiu sozinha. Para grande surpresa sua, descobriu que caa uma chuva miudinha e gelada. Os passeios empedrados da rua estreita brilhavam de molhados 
e as casas altas, descoloridas, salientavam-se silenciosas e fechadas contra o fundo nublado, como rostos que no denunciam nada. Do rio, um rebocador apitou e uma 
gaivota solitria pairava, l muito em cima, na nvoa, soltando um piar soturno. A iluso de Porthkerris era subitamente mais real do que a realidade de Paris. A 
resoluo de voltar, que durante tanto
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tempo estivera no mais recndito da sua mente, estava agora cristalizada na impresso de que ela j l estava.

Aquela rua conduziria, no  movimentada Rua St. Germain, mas  rua do porto; estaria mar alta, o porto cheio de mar cinzento, barcos baloiando e uma grande ondulao 
incharia, para alm do quebra-mar norte, o Atlntico com crinas de cavalos brancos. Haveria cheiros familiares peixe do mercado e bolos de aafro quentes da padaria. 
Todas as pequenas lojas de Vero estariam de persianas corridas e fechadas para a estao. E Ben estaria a trabalhar no estdio, mos de meias luvas contra o frio, 
o esplendor da sua paleta, um grito de cor contra a pincelada de cinzento-nuvem enquadrada pela janela virada a norte.

Ia para casa. Dentro de dois dias, estaria em casa. A chuva molhava-lhe o rosto e, de sbito, ela sentiu que no conseguia esperar, aquela sensao de urgncia feliz 
f-la correr, e correu, correu at chegar  pequena picerie na Rua St. Germain, onde sabia que poderia comprar o cesto.

Era uma loja minscula, fragrante de po fresco e de enchidos com sabor a alho, com cebolas penduradas no tecto, como colares de prolas, e garrafas de vinho, que 
os trabalhadores locais compravam ao litro. Os cestos estavam pendurados  porta, atados uns aos outros por uma nica corda. Emma no se atreveu a desat-la e a 
escolher um dos cestos com medo de que todo o molho se espalhasse pelo passeio, por isso entrou na loja  procura de algum que o fizesse por ela. L dentro havia 
apenas a mulher gorda, com uma mancha na cara, que estava ocupada a atender um cliente. Emma esperou. O cliente era um jovem de cabelo louro, com uma gabardina raiada 
de chuviscos. Estava a comprar um grande cacete e um pacote de manteiga. Emma mirou-o e decidiu que, pelo menos visto de trs, parecia atraente.

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Combien? perguntou ele.

A mulher gorda fez uma soma com uma amostra de lpis. Disse-lhe. Ele procurou no bolso, pagou, voltou-se, sorriu para Emma e andou para a porta.

E a parou. Com a mo na ombreira, virou-se devagar para olhar segunda vez. Ela viu os olhos de mbar, o sorriso lento e incrdulo.

O rosto era o mesmo, o rosto familiar de rapaz no corpo estranho de homem. Com a iluso de Porthkerris to perto e to forte, parecia que era simplesmente uma extenso 
dessa iluso, uma partida da sua prpria imaginao to estimulada. No era ele. No podia ser...

Ouviu-se a si prpria dizer "Christo" e foi a coisa mais natural do mundo cham-lo pelo nome que s ela alguma vez tinha usado. Ele disse, em voz sumida: "No posso 
acreditar." Ento deixou cair os embrulhos, estendeu os braos e Emma caiu neles, muito apertada contra a parte da frente luzidia e molhada da gabardina dele.

Tiveram dois dias para passarem juntos. Emma disse a Madame Duprs: "O meu irmo est em Paris", e Madame, que tinha bom corao e j se tinha de qualquer modo resignado 
a ficar sem Emma, deixou-a livre para os passar com Christopher. Aproveitaram esses dois dias para andar devagar pelas ruas da cidade; debruando-se nas pontes para 
ver as barcaas deslizarem por baixo deles, em direco ao sul e ao sol; sentando-se ao sol fraco, a tomar caf nas pequenas mesas redondas e, quando chovia, refugiando-se 
em Notre Dame ou no Louvre, empoleirados nas escadas por baixo da Winged Victory e sempre a conversar. Tinham tanto para perguntar e para dizer. Ela soube que Christopher, 
depois de uma srie de falsas partidas, decidira ser actor. O que ia bastante contra os desejos da me depois de ano e meio de Ben Litton ficara farta de temperamentos 
artsticos para o

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resto da vida. Mas ele mantivera-se firme e conseguira mesmo uma bolsa para a R.A.D.A.1

Tinha trabalhado durante dois anos num teatro de reportrio na Esccia e viera, sem xito, para Londres, onde fizera alguns trabalhos para a televiso e depois fora 
aliciado por um convite de um conhecido, cuja me tinha uma casa em St. Tropez.

St. Tropez no Inverno? Emma no pde deixar de perguntar.

Era agora ou nunca. Nunca nos tinha sido oferecida no Vero.

Mas no era frio?

Glido. Nunca parava de chover. E quando o vento soprava, todas as persianas batiam. Era como num filme de terror.

Em Janeiro voltara a Londres para falar com o seu agente Q tinha-lhe sido oferecido um contrato de um ano numa companhia de pequeno repertrio no Sul de Inglaterra. 
No era o tipo de trabalho que ele queria, mas era melhor do que nada, estava a ficar sem dinheiro e no era demasiado longe de Londres. O trabalho s comeava, 
contudo, no incio de Maro e, por isso, ele tinha voltado para Frana, acabara em Paris e, finalmente, encontrara Emma. Agora custava-lhe que ela fosse j voltar 
para Inglaterra e fizera tudo o que pudera para a fazer mudar de ideias, adiar o voo e ficar em Paris com ele. Mas Emma fora inflexvel.

No compreendes. Isto  uma coisa que eu tenho que fazer.

O velho nem sequer te pediu para ires. Vais apenas meter-te no caminho dele e interferir nas suas aventuras amorosas.

Ro^dl Academy of Diamatic Ait. (N da T)

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Nunca o fiz antes, quero dizer, nunca interferi. Ela riu-se perante a expresso teimosa dele. De qualquer modo, no faz sentido eu ficar se vais voltar para Inglaterra
para o ms que vem.

Ele fez uma careta.

Quem me dera que no fosse. Aquele teatrinho nojento em Brookford. Vou perder-me na selva do repertrio quinzenal. Alm do mais, s tenho de l estar daqui a duas 
semanas. Ora, se tu ficasses em Paris...

No, Christo.

Podamos alugar um sto minsculo. Pensa em como nos amos divertir. Po e queijo todas as noites para o jantar e litros de vinho de segunda.

No, Christo.

Paris na Primavera... cu azul, flores e disparates assim?

Ainda no estamos na Primavera. Ainda  Inverno.

Eras sempre assim to desmancha-prazeres?

Mas mesmo assim ela no concordara em ficar e ele acabou por admitir a derrota.

Muito bem, j que no consigo convencer-te a fazer-me companhia, vou pura e simplesmente ser muito educadinho e cheio de modos britnicos, e vou acompanhar-te ao 
aeroporto.

Perfeito.

E um grande sacrifcio para mim. Detesto despedidas.

Emma concordou. Por vezes, parecia-lhe que tinha passado toda a sua vida a despedir-se de pessoas e o som de um comboio a sair de uma estao ganhando velocidade 
era o suficiente para a reduzir a lgrimas.

Mas esta despedida  diferente.

Diferente em qu? quis ele saber.

No  realmente uma despedida.  um au revoir. Um intervalo entre dois ols.

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A minha me e o teu pai no vo aprovar.

No interessa se aprovam ou no retorquiu Emma. Encontrmo-nos outra vez. De momento  a nica coisa que interessa.

Por cima deles, os altifalantes deram um clique e comearam a falar com uma voz feminina.

Senhoras e senhores a Air France anuncia a partida do voo nmero quatrocentos e dois para Londres...

 para mim anunciou Emma.

Apagaram os cigarros, levantaram-se e comearam a juntar a bagagem. Christopher agarrou na mala de lona, no saco de papel e no enorme cesto a abarrotar. Emma ps 
a gabardina ao ombro e pegou na mala, nas botas de esqui e no chapu.

Christopher disse:

Devias pr o chapu. Ficava a matar no conjunto.

Voava com o vento. Para j no falar no ar patusco.

Desceram as escadas, atravessaram o cho resplandecente em direco  alfndega, onde uma pequena fila de passageiros j se estava a formar.

Emma, vais para Porthkerris j hoje?

Vou no primeiro comboio que conseguir.

Tens dinheiro? Quero dizer, libras, xelins e pence. Ela no tinha pensado nisso.

No. Mas no tem importncia. Troco um cheque num stio qualquer.

Juntaram-se  bicha, por trs de um homem de negcios britnico que levava apenas o seu passaporte e uma pasta muito elegante. Christopher inclinou-se para diante.

O senhor desculpe, era capaz de nos dar uma ajuda?

O homem virou-se e, para surpresa sua, encontrou o rosto de Christopher apenas a centmetros do seu. Christopher tinha posto a sua expresso sincera.

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Peo desculpa, mas estamos numa situao difcil. A minha irm vai voltar para Londres, esteve fora do pas durante seis anos, tem uma grande quantidade de bagagem 
para levar na mo e acaba de recuperar de uma operao grave...

Emma recordou-se de Ben dizer que Christopher nunca contava uma pequena mentira se se pudesse safar com uma maior. Observando-o enquanto ele se saa com aquela maquinao 
escandalosa, Emma concluiu que ele tinha escolhido acertadamente a sua carreira. Era um actor magnfico.

O homem de negcios, abordado daquela forma, no conseguiu arranjar desculpa.

Bem, sim, claro, suponho...

 mais do que amvel da sua parte...

A mala de lona e o saco de papel com o po iam debaixo de um dos braos e o cesto no outro, juntamente com a pasta muito elegante. Emma teve pena dele.

 s at chegarmos ao avio...  muito amvel da sua parte. Sabe,  que o meu irmo no vem comigo...

A bicha andou, tinham chegado  alfndega.

Adeus, Emma querida disse Christopher.

Adeus, Christo. Beijaram-se. Uma mo morena arrancou-lhe o passaporte, folheou-o apressadamente e carimbou-o.

Adeus.

Foram divididos pela alfndega, pelas formalidades do Governo francs e por outros passageiros que surgiam entre eles.

Adeus.

Emma gostaria que ele tivesse ficado  espera para v-la entrar no avio, mas j enquanto ela acenava, agitando o chapu, ele voltara-se e estava a afastar-se dela, 
a luz brilhando no seu cabelo, de mos enfiadas nos bolsos do bluso de camura.

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Em Londres, em Fevereiro, estava a chover. Comeara a chover s sete horas da manh e tinha chovido sem cessar desde ento. Pelas onze e meia, apenas meia dzia 
de pessoas haviam visitado a exposio e esses entusiastas, suspeitava-se, tinham entrado simplesmente para fugir  chuva. Largavam impermeveis molhados e guarda-chuvas 
a pingar e ficavam por ali, lamentando o tempo antes de comprarem sequer o catlogo.

s onze e meia, o homem entrou para comprar um quadro. Era um americano, que estava hospedado no Hilton, e pediu para falar com o senhor Bernstein. Peggy, a recepcionista, 
pegou no carto que ele lhe estendeu, perguntando-lhe delicadamente se ele se importaria de esperar um momento. Depois entrou no gabinete para falar com Robert.

Senhor Morrow, est l fora um americano que d pelo nome de... ela olhou para o carto Lowell Cheeke. Ele esteve aqui h uma semana, o senhor Bernstein mostrou-lhe 
o Ben Litton do veado e pensou que ele o ia comprar, mas ele foi-se embora sem se decidir. Disse que queria pensar melhor sobre o assunto.

Disse-lhe que o senhor Bernstein est em Edimburgo?

Disse, mas ele diz que no pode esperar. Volta para os Estados Unidos depois de amanh.

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 melhor eu receb-lo concluiu Robert.

Levantou-se, e enquanto Peggy foi abrir a porta e convidar o americano a entrar fez num instante uma limpeza de primavera  secretria, ordenando algumas cartas, 
despejando o cinzeiro para o cesto dos papis e empurrando o cesto para debaixo da secretria com a ponta do sapato.

O senhor Cheeke disse Peggy, anunciando o visitante como uma criada de sala bem ensinada. Robert saiu de trs da secretria para apertar a mo ao americano.

Como est, senhor Cheeke? Eu sou Robert Morrow, o scio do senhor Bernstein. Lamento muito, mas ele hoje est em Edimburgo, talvez eu possa ajud-lo?...

Lowell Cheeke era um indivduo baixo, com ar possante, de gabardina creme e com um chapu de aba estreita. Ambos estavam muito molhados, o que indicava que o senhor 
Cheeke no tinha vindo de txi. Comeou a despojar-se, com a ajuda de Robert, daquelas roupas ensopadas e revelou um fato de terylene azul-marinho, sem um nico 
vinco e uma camisa de nylon com riscas finas. Usava culos sem aros e por trs destes havia uns olhos frios e cinzentos que impossibilitavam vislumbrar qualquer 
tipo de potencial, fosse financeiro ou artstico.

Muito obrigado agradeceu o senhor Cheeke. Que manh horrvel.

E no parece nada que v melhorar... Um cigarro, senhor Cheeke?

No, obrigado, deixei de fumar. Tossiu propositadamente. A minha mulher obrigou-me.

Sorriram perante aquela idiossincrasia feminina. O sorriso no chegou aos olhos do senhor Cheeke, que alcanou uma cadeira e instalou-se, puxando um sapato preto 
lustroso para cima do juelho. J parecia muito em casa.

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Estive aqui h uma semana, senhor Morrow, e o senhor Bernstein mostrou-me um quadro de Ben Litton, a vossa recepcionista provavelmente disse-lhe.

Sim, disse-me, o quadro do veado.

Gostava de o ver outra vez, se fosse possvel. Vou voltar para os Estados Unidos depois de amanh e tenho de me decidir.

Mas com certeza!...

O quadro esperava pela deciso do senhor Cheeke, onde Marcus o tinha deixado, encostado  parede do gabinete. Robert puxou o cavalete almofadado para o meio da sala, 
voltou-o para a luz e colocou cuidadosamente o Ben Litton em posio. Era um quadro grande, um leo de trs veados numa floresta. A luz filtrava atravs dos ramos 
vagamente sugeridos e o artista tinha utilizado uma quantidade de branco que dava  obra uma qualidade etrea. Mas a sua caracterstica mais interessante era o facto 
de ter sido pintado, no em tela esticada, mas em juta, e a tecedura mais grosseira daquele txtil tinha borratado a pincelada do artista, como os contornos de uma 
fotografia de aco tirada a alta velocidade.

O americano colocou a cadeira em posio e virou o reflexo frio dos seus culos para o quadro. Discretamente Robert retirou-se para no interferir de forma alguma 
na avaliao do senhor Cheeke e a sua prpria viso do quadro foi obscurecida pela cabea redonda e de cabelo curto do seu potencial cliente. Pessoalmente, gostava 
do quadro. No era admirador de Ben Litton. Achava que a sua obra era afectada e nem sempre fcil de compreender um reflexo, talvez, da prpria personalidade do 
artista. Mas aquela instantnea impresso silvana era uma coisa a considerar, com que se tinha de viver e de que nunca nos poderamos cansar.

O senhor Cheeke levantou-se da cadeira, aproximou-se do quadro, examinou-o com mincia, deu mais um passo atrs e acabou por se encostar  secretria de Robert.

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Senhor Morrow, em que  que supe que Litton se inspirou para o pintar numa saca? pergunta ele, sem se voltar.

A palavra "saca" deu a Robert uma grande vontade de rir. Apeteceu-lhe dizer com irreverncia, "provavelmente tinha um saco velho por perto", mas no lhe pareceu 
que o senhor Cheeke apreciasse a irreverncia. O senhor Cheeke estava ali para gastar dinheiro sempre era um negcio srio. Robert concluiu ento que ele estava 
a comprar o Litton como um investimento que esperava viesse a ser compensatrio.

O negociante de arte retorquiu:

Lamento, mas no fao ideia, senhor Cheeke. Contudo, isso confere uma qualidade muito invulgar  obra.

O senhor Cheeke virou a cabea para lanar a Robert um sorriso frio por cima do ombro.

O senhor no est to bem informado sobre esses aspectos como o senhor Bernstein.

Pois no concordou Robert. Lamento, mas no estou.

O senhor Cheeke voltou a cair em contemplao. O silncio instalou-se e prolongou-se. A concentrao de Robert comeou a vaguear e a acusar a interferncia de pequenos 
sons. O tiquetaque do seu prprio relgio de pulso. Um murmrio de vozes do lado de l da porta. O rudo troante, como uma rebentao longnqua, que era o trnsito 
de Piccadilly.

O americano suspirou impaciente. Comeou a remexer nos bolsos, um a um,  procura de qualquer coisa. Um leno, talvez. Trocos para voltar de txi para o Hilton. 
A sua ateno tinha-se dispersado. Robert no o conseguira convencer de que o Litton valia a pena ser comprado. Ia arranjar uma desculpa qualquer e sair.

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Mas o senhor Cheeke estava simplesmente  procura de uma caneta. Quando ele se voltou, Robet viu que j tinha na outra mo o livro de cheques.

Depois de feito o negcio, o senhor Cheeke descontraiu-se. Tornou-se bastante humano e at tirou os culos, que guardou numa carteira de couro. Aceitou uma bebida, 
sentou-se durante algum tempo na companhia de Robert, frente a dois copos de xerez, e a conversar sobre Marcus Bernstein, Ben Litton e os dois ou trs quadros que 
o senhor Cheeke tinha comprado na sua ltima visita a Londres, que constituam, juntamente com a sua mais recente aquisio, o ncleo de uma pequena coleco particular. 
Robert falou-lhe da exposio retrospectiva de Ben Litton que ia ter lugar em Queenstown, na Virgnia, o senhor Cheeke anotou-a na sua agenda, depois levantaram-se, 
Robert ajudou o senhor Cheeke a vestir o impermevel, restituiu-lhe o chapu e despediram-se com um aperto de mo.

Tive muito gosto em conhec-lo e em negociar consigo, senhor Morrow.

Espero que nos venha visitar da prxima vez que vier a Londres.

Virei, com certeza.

Robert abriu a porta e saram para a galeria. A Galeria Bernstein tinha em exposio, durante apenas duas semanas, uma coleco de pinturas de pssaros e de animais 
de um sul-americano desconhecido com um nome impronuncivel. Um homem de origens humildes que, sem se saber bem como, nem quando, incrivelmente, tinha aprendido 
sozinho a pintar. Marcus conhecera-o no ano anterior em Nova Iorque, ficara de imediato impressionado com a sua obra e convidara-o no mesmo momento a fazer uma exposio 
em Londres. Agora, os seus quadros brilhantes ocupavam as paredes verde-seco da Bernstein e, naquela manha sombria,
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pareciam encher a sala com a verdura e o sol de um clima mais salubre. Os crticos tinham-no adorado. Desde que a exposio abrira, h dez dias, que a galeria no 
tinha estado vazia uma nica vez e dentro de vinte e quatro horas no haveria um quadro que no tivesse sido vendido.

Naquele momento, no entanto, s havia trs pessoas na galeria. Uma delas era Peggy, eficiente e discreta por trs da sua secretria em forma de rim, ocupada com 
as provas de um novo catlogo. Outra era um homem de chapu preto, atarracado como um corvo, que dava uma volta lenta de inspeco. A terceira era uma rapariga que 
estava sentada de frente para a porta do gabinete, no sof circular do meio da sala. Vestia um fato verde-vivo de cala e casaco, estava rodeada de bagagens e parecia 
ter entrado na Galeria Bernstein por lhe ter parecido tratar-se da sala de espera de uma estao de comboios.

Robert, com considervel serenidade, conseguiu comportar-se como se ela ali no estivesse. Ele e o senhor Cheeke atravessaram o tapete espesso na direco da porta 
principal, Robert de cabea inclinada para apanhar os restos de conversa banal do senhor Cheeke. As portas de vidro abriram-se e fecharam-se por trs deles e foram 
engolidos na escurido da manh sombria.

Emma Litton perguntou:

 aquele o senhor Morrow?

Peggy levantou os olhos.
Emma no estava habituada a ser ignorada. Aquele nico olhar rpido f-la sentir-se pouco  vontade. Desejou que Marcus no estivesse em Edimburgo. Cruzou as pernas 
e voltou a descruz-las. Do exterior veio o som do arrancar do

txi. Um momento depois, a porta de vidro abriu-se e mais

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uma vez Robert Morrow voltou a entrar na galeria. No fez qualquer comentrio, ps simplesmente as mos nos bolsos e observou com calma Emma e o caos que a rodeava.

Ela pensou que nunca tinha visto um homem que se parecesse menos com um negociante de arte. Tinha o tipo de rosto que, exausto e de barba por fazer,  ajudado a 
sair de um pequeno barco  vela no final de uma viagem solitria de volta ao Mundo; ou de culos escuros, olha para baixo do cimo de uma montanha nunca antes explorada. 
Mas ali, no ambiente sofisticado e rarefeito da Galeria Bernstein,  que ele no se enquadrava de maneira nenhuma. Era muito alto, de ombros largos e pernas compridas; 
tudo isto enfatizado, e, no entanto, tornado incongruente, pelo seu fato cinzento-escuro de corte impecvel. Na sua juventude devia ter sido ruivo, mas os anos tinham-lhe 
suavizado a cor do cabelo para um castanho-alourado e, em contraste, os seus olhos cinzentos pareciam plidos como ao. Tinha as mas do rosto altas e um maxilar 
comprido e teimoso, e ela achou graa  descoberta de como um tal conjunto de traos podia ser to atraente. Depois lembrou-se de que Ben costumava dizer que o carcter 
de um homem reside no nos olhos, onde as emoes so fugazes e podem sempre ser mascaradas, mas na forma fsica da sua boca, e a boca daquele homem era larga, com 
um lbio de baixo saliente, e parecia naquele momento estar a tentar muito no se rir.

O silncio tornou-se desconfortvel. Emma tentou um sorriso. Saudou.

Ol!

 procura de um esclarecimento, Robert Morrow voltou-se para Peggy. Peggy estava divertida.

Esta jovem quer falar com o senhor Bernstein. Ele informou.

Lamento muito, mas o senhor Bernstein est em Edimburgo.

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Pois, eu sei, j me disseram isso. Mas a questo  que eu s queria que ele me trocasse um cheque. Ele ficou mais perplexo do que nunca. Emma decidiu que estava 
na altura de se explicar. Eu sou Emma Litton. Filha de Ben Litton.

A perplexidade dele desfez-se.

Mas porque carga de gua no disse logo? Peo desculpa, no fazia a menor ideia. Avanou para ela. Como est...

Emma levantou-se. O chapu de palha, que estivera em cima do seu joelho, voou para o cho alcatifado e a ficou, contribuindo para a confuso que ela j tinha lanado 
na sala elegantemente decorada.

Apertaram as mos.

Eu... No havia nenhuma razo por que devesse saber quem eu era. E peo imensa desculpa por esta desarrumao toda, mas estou fora do pas h seis anos e  por isso 
que  tanta coisa.

Pois, estou a ver. Emma estava embaraada.

Se fizer o favor de me trocar um cheque volto a tirar tudo do caminho num instante. S quero o suficiente para voltar para Porthkerris. Sabe,  que me esqueci de 
trocar libras quando estava em Paris e acabaram-se-me os cheques de viagem.

Ele franziu o sobrolho.

Mas como  que conseguiu chegar at aqui? Quero dizer, do aeroporto?

Ah! Ela j se tinha esquecido. Oh, vinha um senhor simptico no avio que me ajudou a carregar as coisas em L Bourget e depois a descarreg-las em Londres e que 
me emprestou uma libra. Vou ter de a devolver. Tenho a morada dele aqui... algures. Procurou vagamente nos
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bolsos, mas no conseguia encontrar o carto do homem. Bom, de qualquer modo tenho-o num stio qualquer. Ela voltou a sorrir, na esperana de desarm-lo.

E quando  que vai para Porthkerris?

H um comboio ao meio-dia e meia, penso. Ele olhou para o relgio.

J perdeu esse. Quando  o prximo?

Emma pareceu ficar desorientada. Peggy entrou na conversa do seu modo habitualmente educado e prtico.

Penso que h um s duas e meia, senhor Morrow, mas posso confirmar.

Sim, faa isso, Peggy. O das duas e meia est bem para si?

Sim, claro. A hora a que vou chegar no tem importncia.

O seu pai est  sua espera?

Bom, eu escrevi-lhe uma carta a dizer que vinha. Mas isso no quer dizer que esteja  minha espera...

A ele sorriu.

Pois. Bem... ele voltou a olhar para o relgio. Era meio-dia e um quarto. Peggy j estava ao telefone a saber horrios de comboios. Os seus olhos voltaram  confuso 
das malas. Num fraco esforo para melhorar a situao, Emma baixou-se e apanhou o seu chapu de sol.

Ele sugeriu:

Penso que o melhor seria tirar isto do caminho... Vamos pr tudo no gabinete e depois... J comeu alguma coisa?

Tomei caf no L Bourget.

Se vai no das duas e meia, h tempo para lhe dar de almoo antes de ir.

Oh, no precisa de se incomodar.

No  incmodo nenhum. Eu, de qualquer modo, tenho de almoar e pode muito bem almoar comigo Vamos

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Ele agarrou em duas malas e foi  frente para o gabinete. Emma agarrou o que pde e seguiu-o. O quadro do veado ainda estava no cavalete. Ela viu-o imediatamente 
com prazer.

 um quadro do Ben.

. Acabo de o vender...

Ao homenzinho da gabardina?  bom, no ? Ela continuou a admir-lo, enquanto Robert amontoava o resto da bagagem dela. Porque  que ele o pintou em serapilheira?

 melhor perguntar-lhe quando o vir logo  noite. Ela voltou-se e sorriu-lhe por cima do ombro.

Pensa que  influncia da escola japonesa?

Gostava de me ter lembrado de responder isso ao senhor Cheeke retorquiu Robert. Bom, est pronta para almoar?

Ele tirou um enorme guarda-chuva preto de um bengaleiro, desviou-se para Emma sair na frente dele e deixaram Peggy de guarda ao forte, sentada numa galeria que regressara 
mais uma vez  sua calma ordeira habitual. Saram para a chuva e caminharam juntos debaixo do guarda-chuva, abrindo caminho com os ombros por entre a multido da 
hora do almoo de Kent Street, Londres, W. 1.

Levou-a ao restaurante do Marcello, onde normalmente almoava quando no tinha de acompanhar um cliente que tivesse feito uma compra importante. Marcello era um 
italiano que tinha um pequeno restaurante de primeiro andar a duas ruas da Galeria Bernstein, e havia uma mesa permanentemente reservada para Marcus ou Robert, ou 
para ambos, nas raras ocasies em que conseguiam almoar juntos. Era uma mesa modesta, num canto sossegado. Mas, nesse dia, quando Robert e Emma chegaram ao cimo 
das escadas, Marcello olhou para ela, com a sua longa juba de cabelo

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O OUTRO LADO DO AMOR

preto e o seu fato verde de cala e casaco e sugeriu que talvez preferissem sentar-se ao p da janela. Robert achou graa.

Gostava de se sentar ao p da janela? perguntou a Emma.

Onde  que se costuma sentar? Ele indicou a pequena mesa de canto. Bom, porque  que no nos sentamos simplesmente nessa?

Marcello ficou encantado com ela. Foi  frente at  mesa mais pequena, segurou na cadeira de Emma, deu a cada um uma enorme ementa escrita a vermelho duvidoso e 
foi buscar dois copos de Tio Pepe, enquanto eles decidiam o que iam comer.

Robert disse:

Devo ter subido muitos pontos na considerao de Marcello. Acho que nunca trouxe aqui uma rapariga para almoar.

Quem  que costuma trazer?

Costumo vir sozinho. Ou com o Marcus.

Como est o Marcus? A voz dela era quente.

Est bem. Vai ter pena de no a ter visto, j sei.

A culpa  minha. Devia ter escrito a dizer que vinha. Mas como provavelmente j percebeu, ns, os Litton, no somos peritos em dizer coisas s pessoas.

Mas sabia que o Ben tinha voltado para Porthkerris.

Pois sabia. O Marcus escreveu a dizer-me isso. E sei tudo sobre a exposio retrospectiva, porque li um artigo na Realties. Ela forou um sorriso. Ser filha de um 
pai famoso tem as suas compensaes. Mesmo que a nica coisa que ele faa seja mandar telegramas, pode sempre saber-se o que lhe est a acontecer num jornal ou noutro.

Quando  que o viu pela ltima vz?

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Oh! Ela encolheu os ombros. H dois anos. Eu estava em Florena e ele passou por l a caminho do Japo.

No sabia que se passava por Florena quando se ia para o Japo.

Passa-se, se por acaso se tem uma filha a viver l. Ela ps os cotovelos em cima da mesa e apoiou o queixo na mo. Suponho que nem sequer sabia que o Ben tinha uma 
filha.

Claro que sabia.

Bom, eu no sabia que voc existia. Quero dizer, no sabia que o Marcus tinha um scio. Ele ainda estava a trabalhar sozinho quando o Ben foi para o Texas e eu fui 
embalada para a Sua.

Foi mais ou menos por essa altura que eu comecei a trabalhar na Galeria Bernstein.

Eu... nunca conheci ningum que se parecesse menos com um negociante de arte. Quero dizer, menos do que voc.

Talvez isso seja simplesmente porque eu no sou um negociante de arte.

Mas... acaba de vender um quadro do Ben quele homem.

No corrigiu-a ele. Eu limitei-me a aceitar o cheque. O Marcus j lho tinha vendido h uma semana, mas nem o senhor Cheeke se apercebeu disso.

Mas deve saber alguma coisa sobre pintura.

Bom, sei. No seria possvel trabalhar com o Marcus estes anos todos sem se ser contagiado pelo seu conhecimento ilimitado. Mas eu sou basicamente um homem de negcios 
e foi por isso que o Marcus me convidou para trabalhar com ele.

Mas o Marcus  o homem de negcios mais bem-sucedido que eu conheo.

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Exactamente. To bem-sucedido que a galeria se tornou um empreendimento grande de mais para ele tratar sozinho.

Emma continuava a observ-lo com um ligeiro franzir de sobrolho entre as suas sobrancelhas espessas.

Mais perguntas?

Ela no ficou desconcertada.

Foi sempre um grande amigo do Marcus?

O que me quer realmente perguntar  porque  que ele me trouxe para a firma. E a resposta  que o Marcus  meu scio e meu cunhado.  casado com a minha irm mais 
velha.

Quer dizer que a Helen Bernstein  sua irm?

Lembra-se da Helen?

Claro que me lembro. E do pequeno David. Como  que eles esto?  capaz de lhes mandar saudades minhas? Sabe, eu costumava ficar em casa deles quando o Ben vinha 
a Londres e no havia ningum com quem me deixar em Porthkerris. E quando eu fui para a Sua foram o Marcus e a Helen que me levaram ao avio, porque o Ben j tinha 
ido para o Texas.  capaz de dizer  Helen que eu voltei e que me deu de almoar?

Sim, claro que digo.

Eles ainda tm aquele pequeno apartamento em Brompton Road?

No. Na verdade, quando o meu pai morreu eles foram viver comigo. Vivemos todos na nossa antiga casa de famlia, em Kensington.

Quer dizer que vivem todos juntos?

Juntos e separados. O Marcus, a Helen e o David vivem nos dois primeiros andares, a governanta do meu pai na cave e eu no sto.

No  casado?

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Momentaneamente ele pareceu incomodado.

Bem, no, no sou.

Eu tinha a certeza de que era casado. Tem ar de homem muito casado.

No sei bem o que hei-de pensar disso.

Oh, no tem qualquer inteno depreciativa. Pelo contrrio,  um elogio. S queria que o Ben tivesse esse aspecto. Tornava a vida muito mais fcil a todos os implicados. 
Especialmente a minha.

No quer voltar a viver com ele?

Quero, claro que quero. Mais do que tudo. Mas no quero que isso seja um fracasso. Eu nunca me dei muito bem com ele e suponho que no estou muito melhor.

Ento porque  que vai?

Bom... Sob o olhar frio e cinzento de Robert Morrow era difcil ser coerente. Ela pegou num garfo e comeou a fazer desenhos na toalha branca de damasco. No sei. 
S se tem uma famlia. Se as pessoas tm laos de parentesco, deviam, pelo menos, conseguir viver juntas. Eu quero ter alguma coisa para recordar. Quando for velha, 
quero ser capaz de recordar que uma vez, mesmo que tenha sido apenas por algumas semanas, eu e o meu pai tivemos um tipo qualquer de vida juntos. Parece-lhe uma 
coisa muito disparatada?

No, no me parece nada disparatado, mas penso que pode ficar desapontada.

Eu aprendi tudo sobre o que  ficar desapontado quando era mida.  um luxo sem o qual posso muito bem passar. Alm disso, planeio ficar apenas at se tornar dolorosamente 
bvio que no conseguimos suportar a companhia um do outro nem mais uma hora.

Ou disse Robert com brandura at ele preferir a companhia de outra pessoa qualquer.

Emma levantou a cabea, dos seus olhos saiu uma sbita chama furiosa de azul. Fria era, naquele instante, o pai na

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sua faceta mais sem escrpulos, quando no havia resposta suficientemente cruel ou cortante a dar. Mas a sua raiva no provocou nenhuma reaco e, depois de uma 
pausa fria, voltou a baixar os olhos e continuou a fazer desenhos na toalha, dizendo apenas:

Est bem. At essa altura.

A pequena tenso foi quebrada pelo retorno de Marcello, que trazia o xerez e vinha preparado para tomar nota do pedido. Emma escolheu ostras e frango frito; Robert, 
mais conservador, um caldo de carne e um bife. Depois, aproveitando a interrupo, mudou habilmente de assunto.

Fale-me de Paris. Como  que estava Paris?

Molhada, fria e soalheira ao mesmo tempo. Isso diz-lhe alguma coisa?

Diz-me tudo.

Conhece Paris?

Costumo l ir em negcios. Estive l o ms passado.

Em negcios?

No, quando voltava da ustria. Tive trs semanas esplndidas a fazer esqui.

Para onde foi?

Para Obergurgl.

Ento  por isso que est to bronzeado. Essa  uma das razes por que no parece um negociante de arte.

Talvez quando o bronzeado desaparecer eu parea mais autntico e consiga preos mais altos. Esteve em Paris durante quanto tempo?

Dois anos. Vou ter saudades.  to bonito, e agora, que todos os edifcios foram limpos, ainda mais. No sei bem porqu, mas nesta altura do ano h uma sensao 
especial em Paris. A sensao de que o Inverno est quase a acabar, de que o sol est apenas a um dia de distncia e de que vai ser Primavera outra vez...

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Os botes a abrir e o grito das gaivotas, pairando sobre as guas calmas e castanhas do Sena. E os barcos, em fila como colares, deslizando por baixo das pontes. 
E o cheiro do Metro, de alho e de Gauloises. E estar com Christopher.

Subitamente tornou-se importante falar sobre ele, dizer o nome dele, ter outra vez a certeza da existncia dele. Ela disse, casualmente:

No conheceu a Hester, pois no? A minha madrasta? Pelo menos durante ano e meio foi minha madrasta.

Ouvi falar dela.

E do Christopher? O filho dela? Ouviu falar do Christopher?  porque, por puro acaso, eu e o Christopher voltmos a encontrar-nos em Paris. S h dois dias. E ele 
veio trazer-me esta manh ao L Bourget.

Quer dizer... que se encontraram por acaso?...

Sim, foi isso mesmo... numa mercearia. S podia acontecer em Paris.

O que  que ele estava l a fazer?

Oh, a passar tempo. Tinha estado em St. Tropez, mas volta para Inglaterra em Maro para trabalhar num teatro de repertrio qualquer.

 actor?

. Eu no lhe disse? S h uma coisa... No vou dizer nada ao Ben. Sabe, o Ben nunca gostou do Christopher e tambm penso que o Christopher no morria de amores 
por ele. Para falar verdade, acho que tinham cimes um do outro. Mas tambm havia outras coisas e o Ben e a Hester no se separaram propriamente nos termos mais 
amigveis. No quero comear por ter uma discusso com o Ben sobre o Christopher, por isso no vou dizer nada. Pelo menos para j.

Estou a ver. Emma suspirou.

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Est com uma expresso de enfado. Pensa, obviamente, que estou a ser fingida.

No penso nada disso. E quando acabar de fazer desenhos na toalha, as ostras chegaram.

Quando acabaram de almoar, de beber o caf e de Robert pagar a conta, era uma e meia. Levantaram-se da mesa, despediram-se de Marcello, agarraram no grande guarda-chuva 
preto e desceram as escadas. Voltaram  Galeria Bernstein e pediram ao porteiro que chamasse um txi para Emma.

Eu ia lev-la ao comboio, mas a Peggy tem de ir almoar.

No se preocupe.

Ele levou-a ao gabinete e abriu o cofre.

Vinte libras chegam?

Ela j se tinha esquecido da razo que a levara  galeria.

O qu? Ah, sim, claro...

Ela comeou  procura do livro de cheques, mas Robert impediu-a.

No se incomode. O seu pai tem uma espcie de fundo para pequenas despesas connosco. Est sempre a ficar sem trocos quando est em Londres. Juntamos-lhe as suas 
vinte libras.

Bem, se tem a certeza...

Claro que tenho a certeza. Emma, h outra coisa. O homem que lhe emprestou a libra. Tem a morada dele algures? Se a encontrar e ma der agora, eu arranjo maneira 
de lha devolver.

Emma achou graa. Enquanto procurava o carto, encontrou-o, por fim, misturado com um bilhete de autocarro francs e uma caixa de fsforos. Ento comeou-se a rir, 
e quando Robert lhe perguntou qual era a piada, respondeu simplesmente:

- Conhece to bem o meu pai!

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Parou de chover  hora do ch. Houve um subtil levantar do tempo e havia uma frescura no ar. Um raio de sol errante chegou a entrar na galeria e pelas cinco e meia, 
quando Robert fechou o gabinete e saiu para se juntar  torrente de humanidade a caminho de casa na hora de ponta, descobriu que uma pequena brisa tinha surgido 
e afastado as nuvens, deixando a cidade a cintilar sob um limpo e plido cu azul.

Era de mais para ele enfiar-se no sufoco subterrneo do metro, por isso foi andando at Knightsbridge e a apanhou um autocarro para fazer o resto do caminho para 
casa.

A sua casa em Milton Gardens era separada da artria movimentada de Kensington High Street por um labirinto de pequenas ruas e largos, uma zona agradvel de casas 
do princpio da era vitoriana em miniatura, pintadas de creme, com portas da frente lustrosas e pequenos jardins que no Vero floresciam com lilases e magnolias. 
As ruas tinham passeios largos, onde amas empurravam carrinhos de beb, criancinhas bem vestidas caminhavam para as suas escolas caras e os ces eram rigorosamente 
exercitados. Depois disto, Milton Gardens aparecia como uma espcie de desiluso. Era uma correnteza de casas grandes e antigas, e o nmero vinte e trs, que era 
a de Robert, a casa do centro e coroada com o fronto principal da correnteza, parecia frequentemente a mais antiga, tinha uma porta da frente preta, dois

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loureiros secos em vasos e uma caixa do correio de lato que Helen tinha sempre inteno de polir, mas que com frequncia se esquecia. Os carros da famlia estavam 
estacionados  beira do passeio um grande Alvis coup verde-escuro de Robert e um Mini vermelho e empoeirado de Helen. Marcus no tinha carro, porque nunca tivera 
tempo de aprender a conduzir.

Robert subiu os degraus, procurando no bolso a chave. Entrou. O vestbulo era grande e espaoso, umas escadas surpreendentemente largas e de degraus baixos subiam 
em curva para o primeiro andar. Depois das escadas, o vestbulo continuava por um corredor estreito que conduzia a uma porta envidraada, a qual dava para o jardim. 
Aquela viso sedutora de erva distante e de nogueiras banhadas pelo sol dava a impresso imediata de se estar no campo e era um dos aspectos mais cativantes da casa.

A porta da frente fechou-se ruidosamente atrs dele. Da cozinha, a sua irm Helen chamou-o.

Robert.

Ol!

Ele atirou o chapu para cima da mesa do vestbulo e entrou pela porta do lado direito. Antigamente aquela sala, que tinha vista para a rua, fora a sala de jantar 
da famlia, mas quando o pai de Robert morrera e Marcus, Helen e David se tinham mudado para l, Helen transformara-a numa cozinha e sala de refeio, com uma mesa 
de madeira de carvalho, um guarda-loua de pinho a abarrotar de loua da China e um balco, como o de um bar, por trs do qual ela podia trabalhar. Havia tambm 
muitas plantas em vasos, gernios por todo o lado, ervas, marmitas de bolbos. Resmas de cebolas, cestos pendurados em ganchos, livros de receitas, suportes com colheres 
de madeira e o tom alegre de tapetes e almofadas de cores vivas.

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Helen estava atrs do seu balco, com um avental de carniceiro azul e branco a tirar a pele a cogumelos. O ar estava impregnado de cheiros fragrantes de assado, 
limes, manteiga aquecida e uma leve sugesto de alho. Era uma cozinheira excepcional.

Ela disse:

O Marcus telefonou de Edimburgo. Vem para casa esta noite. Sabias?

A que horas?

H um avio s cinco e um quarto. Ele ia tentar arranjar lugar nesse. Chega ao terminal s sete e meia.

Robert puxou um banco alto para o p do balco e sentou-se nele, como se estivesse num bar.

Ele quer que eu o v buscar ao aeroporto?

No, vem de autocarro. Eu pensei que um de ns podia ir busc-lo. Jantas em casa ou no esta noite?

Cheira to bem. Acho que janto em casa.

Ela sorriu. De frente um para o outro ao p do balco, a semelhana familiar entre eles era muito marcada. Helen era uma mulher grande, alta e forte de osso, mas 
quando sorria o seu rosto e os seus olhos acendiam-se como os de uma menina. O cabelo, como o de Robert, era arruivado, mas suavizado por madeixas de cinzento e 
usava-o penteado para trs e atado num carrapito, para revelar um pequeno e inesperadamente perfeito par de orelhas. Orgulhava-se das suas bonitas orelhas e usava 
sempre brincos. Tinha uma caixa cheia deles na gaveta do toucador e se no se soubesse o que lhe dar de presente, comprava-se-lhe simplesmente um par de brincos. 
Naquela tarde eram verdes, uma espcie de pedra semipreciosa qualquer, incrustrada num fino fio de ouro trabalhado e a sua cor fazia sobressair as luzes verdes dos 
seus olhos indeterminados e matizados.

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Ela tinha quarenta e dois anos, era seis anos mais velha do que Robert e estava casada com Marcus Bernstein havia dez. Antes disso tinha trabalhado para ele, como 
secretria, recepcionista, guarda-livros e, em alturas em que as finanas andavam tremidas, tambm como empregada de limpeza. E fora tanto devido aos seus esforos 
como  f em Marcus que a galeria no s tinha sobrevivido s dificuldades iniciais como progredira at atingir a sua presente reputao internacional.

Robert perguntou:

O Marcus disse-te alguma coisa... sobre como correram os negcios?...

No disse grande coisa, no houve tempo. Mas o velho lorde Glens, quem quer que seja, tem trs Raeburns, um Constable e um Turner. O que  coisa para vos dar a todos 
que pensar.

Ele quer vend-los?

Aparentemente. Ele diz que ao preo actual do usque no pode continuar a dar-se ao luxo de os ter pendurados na parede. De qualquer modo, vamos saber tudo sobre 
isso quando o Marcus voltar. E tu... o que  que fizeste hoje?...

Nada de mais. Foi l um americano chamado Cheeke que passou um cheque por um Ben Litton...

ptimo.

E... observou o rosto da irm. Emma Litton voltou.

Helen tinha comeado a cortar os cogumelos. Mas, de repente, olhou para cima e as suas mos pararam.

Emma? Queres dizer a Emma do Ben?

Chegou hoje de Paris. Veio  galeria buscar dinheiro suficiente para ir para Porthkerris.

O Marcus sabia que ela ia voltar?

No, acho que no. Acho que ela no escreveu a mais ningum a no ser ao pai

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 claro que o Ben no ia dizer uma palavra. Helen fez uma cara exasperada. s vezes apetecia-me estrangular aquele homem.

Robert estava a achar graa.

O que  que terias feito se soubesses que ela vinha?

Bom, ia esper-la ao aeroporto. Dava-lhe almoo. Fazia qualquer coisa.

Se te servir de consolao, dei-lhe almoo.

ptimo, fizeste bem. Ela cortou outro cogumelo, pensando nisso. Como  que ela  agora?

Atraente, de uma forma muito invulgar.

Invulgar repetiu Helen secamente. Dizeres-me que ela  invulgar no  nada que eu no saiba.

Robert pegou num pedao de cogumelo cru e mastigou-o, a experimentar.

Sabes alguma coisa sobre a me dela?

Claro que sei.

Helen apressou-se a salvar os seus cogumelos, levando-os para fora do alcance dele, para o fogo, onde havia uma frigideira ao lume com margarina derretida. Com 
outro movimento hbil, deitou os cogumelos na margarina, ouviu-se frigir e sentiu-se um cheiro delicioso. Ela ficou ao p do fogo, mexendo os cogumelos com uma 
esptula de madeira, o perfil salientando as suas feies vincadas.

Quem era?

Oh, uma estudantezinha de arte com metade da idade do Ben. Era muito bonita.

Ele era casado com ela?

Era. Penso que,  maneira dele, gostava muito dela. Mas ela no passava de uma criana.

Ela deixou-o?

No, morreu no parto de Emma.

E depois, mais tarde, ele casou com uma Hesier.

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Helen virou-se para olhar para ele, de olhos semicerrados.

Como  que sabes?

Disse-me Emma hoje ao almoo.

Bem, eu c no disse! Foi a Hester Ferris. Isso foi h muitos anos.

Mas havia um rapaz. Um filho. Chamado Christopher?

No me digas que ele apareceu outra vez.

Porque  que ficaste to alarmada?

Tambm tu ficavas se tivesses passado por aquele ano e meio em que o Ben Litton esteve casado com a Hester...

Conta-me.

Oh, foi uma coisa alucinante. Para o Marcus, para o Ben... Suponho que para a Hester e, de certeza, para mim. Quando o Marcus no estava a ser arrastado para arbitrar 
uma srdida briga domstica qualquer, estava a ser bombardeado com continhas ridculas que a Hester dizia que o Ben se recusava a pagar. E, depois, sabes daquela 
fobia do Ben em relao aos telefones; a Hester ps um l em casa e o Ben arrancou-o. A seguir o Ben entrou numa espcie de bloqueio mental qualquer e no conseguia 
trabalhar, passava o tempo todo no pub l do stio, a Hester no largava o Marcus e dizia que ele tinha de l ir porque era a nica pessoa que fazia alguma coisa 
do Ben, e etc. O Marcus envelheceu a olhos vistos. Acreditas?

Acredito. Mas no vejo o que  que isso tem a ver com o mido.

O mido era um dos pomos da discrdia. O Ben no conseguia suport-lo.

Emma disse que ele tinha cimes.

Ela disse isso? Ela sempre foi uma criana muito perceptiva. Eu suponho que, de certa forma, o Ben tinha cimes

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do Christopher, mas o Christopher era um demnio. Parecia um santo, mas a me estragava-o com mimos. Ela retirou a frigideira com os cogumelos do lume e voltou para 
junto dele, apoiando os cotovelos no balco. O que  que a Emma disse sobre o Christopher?

S que se tinham encontrado em Paris.

O que  que ele estava l a fazer?

No sei. Suponho que de frias.  actor. Sabias?

No, mas acredito perfeitamente. Ela falou dele de olho brilhante?

Eu diria que sim. A no ser que fosse de estar a pensar em voltar a ir viver com o pai.

Isso  a ltima coisa do mundo por que ela ficaria de olhos a brilhar.

Eu sei. Mas quando comecei a falar disso, ela ia-me fuzilando com os olhos.

Ah, pois. Eles so to leais um ao outro como os ladres. Ela deu-lhe uma palmadinha na mo. No te deixes envolver, Robert. Eu no suportaria a tenso.

Eu no estou envolvido, estou simplesmente intrigado.

Bom, para tua prpria paz de esprito, segue o meu conselho e mantm as coisas nesses termos. E j que estamos a falar de envolvimentos, a Jane Marshall ligou  
hora do almoo e quer que lhe telefones.

O que  que ela quer, sabes?

No disse. S disse que ia estar em casa a partir das seis. No te vais esquecer, pois no?

No, no me vou esquecer. Mas no te esqueas tu tambm de que a Jane no  um envolvimento.

No percebo do que  que ests  espera retorquiu Helen, que, pelo menos com o irmo, nunca tivera papas na lngua. Ela  encantadora, atraente e eficiente.

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Robert no fez comentrios e, exasperada pelo silncio dele, ela continuou, justificando-se:

Vocs tm tudo em comum: interesses, amigos, uma forma de estar na vida. Alm disso, um homem da tua idade j devia estar casado. No h nada mais pattico do que 
um solteiro entradote.

Ela calou-se. Houve uma pausa. Robert disse educadamente:

J acabaste?

Helen deu um profundo suspiro. Era intil. Ela sabia, sempre soubera, que no havia palavras que levassem Robert a fazer uma coisa que ele no escolhesse fazer. 
Ele nunca tinha sido convencido a fazer nada na vida. O seu desabafo fora uma perda de tempo e ela j estava arrependida.

Claro que acabei. E peo desculpa. No tenho nada com isso nem direito nenhum de me meter. Mas  que eu gosto da Jane e quero que tu sejas feliz. No sei, Robert. 
No consigo perceber do que  que andas  procura.

Eu tambm no sei afirmou Robert. Sorriu para a irm, passou a mo pela cabea e depois pela nuca, um gesto familiar de quando estava confuso ou cansado. Mas acho 
que tem a ver com o que existe entre ti e o Marcus.

Bem, s espero que encontres antes de morreres de velho.

Ele deixou-a com os seus cozinhados, foi buscar o chapu, agarrou no jornal da tarde e num monte de cartas e subiu para o seu apartamento. A sala, que dava para 
o grande jardim e para a nogueira, fora em tempos o quarto de brincar das crianas. Tinha tecto baixo, era alcatifada, estava cheia de livros e mobilada com a maior 
quantidade de coisas do pai que Robert tinha conseguido carregar escada acima. Ps o chapu, o jornal e as cartas em cima de uma cadeira, foi ao guarda-loua amigo, 
onde guardava as bebidas, e
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serviu-se de um usque com soda. Depois tirou um cigarro da caixa que estava em cima da mesa da sala, acendeu-o e, agitando o copo, foi sentar-se  secretria, levantou 
o auscultador e marcou o nmero de Jane Marshall.

Ela levou algum tempo a atender. Enquanto esperava, foi fazendo rabiscos no papel mata-borro com um lpis, olhou para o relgio, decidiu que tomaria um banho e 
mudaria de roupa antes de ir buscar Marcus ao terminal de Cromwell Road. E, como oferta de paz para Helen, levaria uma garrafa de vinho para baixo e beb-lo-iam 
ao jantar, os trs, em volta da mesa de carvalho na cozinha de Helen, e, inevitavelmente, falariam de trabalho. Descobriu que estava muito cansado e a perspectiva 
de uma noite assim era reconfortante.

O sinal de chamada parou. Uma voz fria atendeu.

Fala Jane Marshall.

Ela atendia sempre o telefone daquela maneira, que Robert continuava a achar glida, embora soubesse qual era a razo. Aos vinte e seis anos, Jane, depois da ruptura 
de um casamento e com um divrcio s costas, tinha-se visto obrigada a ganhar a vida e acabara por montar um modesto negcio de decorao de interiores, que dirigia 
da prpria casa. Deste modo, um nico nmero de telefone cumpria duas funes e ela decidira h muito que era prudente tratar cada telefonema como um negcio potencial 
at prova em contrrio. Tinha explicado isso a Robert, quando ele se queixara sobre a maneira frgida dela.

No compreendes. Pode ser um cliente. E o que  que um cliente vai pensar se eu atender o telefone com uma voz toda sexy e melada?

No precisas de atender com voz sexy. Podes faz-lo de uma forma agradvel e simptica. Porque no tentas? Estarias a derrubar paredes e a substituir cortinas e 
colchas mais depressa do que imaginas.

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Isso  o que pensas. Era mais provvel ter de expulsar clientes a toque de picadela de agulha.

Jane?...

Oh, Robert. A voz dela voltou de imediato ao seu tom normal, quente e obviamente contente por ouvi-lo. Desculpa, a Helen deu-te o meu recado?

Ela pediu-me para te ligar.

 que pensei que... Olha, deram-me dois bilhetes para o ballet na sexta-feira. E La Filie mal Garde e eu pensei que talvez gostasses de vir. A no ser que vs sair 
ou assim.

Ele olhou para a prpria mo, a desenhar caixas, uma perspectiva perfeita, no bloco de papel mata-borro. Ouviu a voz de Helen. "Vocs tm tudo em comum. Interesses, 
amigos, uma forma de estar na vida."

Robert?

Sim. Desculpa. No, no vou sair e gostava muito de ir.

Comemos aqui primeiro?

No, vamos comer fora. Eu reservo uma mesa.

Ainda bem que podes. Ele era capaz de jurar que ela estava a sorrir. O Marcus j voltou?

No, vou agora busc-lo.

Cumprimentos para ele e para a Helen.

Est bem.

At sexta-feira, ento. Adeus.

Adeus, Jane.

Depois de ter pousado o auscultador no se levantou da secretria, continuou sentado, o queixo apoiado na mo, dando os retoques finais  ltima caixa. Quando estava 
acabada, pousou o lpis, alcanou a sua bebida e sentou-se, a olhar para o que tinha desenhado, perguntando-se porque  que o desenho o fazia pensar numa longa fila 
de malas

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Marcus Bernstein saiu pelas portas de vidro do edifcio do terminal parecendo, como parecia sempre, um refugiado ou um msico de rua. O seu sobretudo bambo, o seu 
chapu preto fora de moda que, sem se saber bem como, tinha a aba virada para cima,  frente, o rosto longo e vincado estava lvido de cansao. Trazia a pasta a 
abarrotar, mas a mala tinha vindo do aeroporto no porta-bagagens do autocarro e, quando Robert o encontrou, estava pacientemente  espera dela ao p do tapete rolante 
circular.

Conseguia parecer ao mesmo tempo humilde e abatido e o cidado comum teria achado difcil acreditar que aquele homem modesto e simples era, na verdade, uma influncia 
poderosa no mundo da arte dos dois lados do Atlntico. Austraco, tinha deixado a sua Viena natal em 1937 e depois dos horrores de uma guerra repugnante irrompera 
no mundo da arte do ps-guerra como uma chama viva. O seu conhecimento e a sua percepo bvias chamaram rapidamente a ateno e o seu apoio a jovens artistas era 
um exemplo que outros negociantes se apressavam a seguir. Mas o seu verdadeiro impacte junto do pblico aconteceu em 1949, quando abriu a sua prpria galeria, em 
Kent Street, com uma exposio de abstractos de Ben Litton. Ben, que j era famoso pelas suas paisagens e retratos pr-guerra, havia algum tempo que se encaminhava 
para esta nova tcnica e a exposio de 1949 foi o incio de uma relao de trabalho e de uma amizade que amainava todas as tempestades pessoais e desentendimentos. 
Tambm marcou o fim das lutas iniciais de Marcus e o comeo de um longo e lento caminho para o xito.

Marcus!

Ele teve um pequeno estremecimento, voltou-se, viu Robert, que vinha na sua direco, e ficou surpreendido como se no esperasse que fossem ao seu encontro.

Ol, Robert. Foi muito amvel da tua parte tere; vindo.

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Aps trinta anos em Inglaterra, o seu sotaque ainda era fortemente pronunciado, mas Robert j no dava por ele.

Eu teria ido ao aeroporto, mas no tnhamos a certeza de apanhares o avio. Tiveste um bom voo?

Estava a nevar em Edimburgo.

Por c choveu o dia todo. Olha, l vem a tua mala. Ele puxou-a do tapete rolante. Anda, vamos embora...

No carro, enquanto estavam  espera que o sinal da Cromwell Road mudasse, ele contou a Marcus que o senhor Lowell Cheeke tinha voltado  galeria para comprar o Litton 
do veado. Marcus recebeu a informao com uma exclamao de assentimento, dando a impresso de que soubera desde logo que a venda era simplesmente uma questo de 
tempo. O sinal passou de vermelho a laranja, depois a verde, o carro avanou e Robert disse:

E Emma voltou de Paris. Chegou de avio esta manh. No tinha libras e por isso foi  galeria para te pedir que lhe trocasses um cheque. Dei-lhe almoo, vinte libras 
e ela seguiu o seu caminho.

O seu caminho para onde?

Porthkerris e Ben.

Suponho que ele est l.

Ela parecia pensar que ele l estaria. Pelo menos por enquanto.

Pobre criana comentou Marcus.

Robert no respondeu e fizeram o resto do caminho em silncio, cada um ocupado com os prprios pensamentos. De volta a Milton Gardens, Marcus saiu do carro e subiu 
os degraus,  procura da chave no bolso, mas antes que conseguisse encontr-la, Helen abriu a porta e a silhueta do marido, de sobretudo bambo e chapu de cmico, 
foi projectada contra a luz do vestbulo.

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Ela exclamou:

Olha que maravilha!

E porque ele era muito mais baixo do que ela, baixou-se para o abraar, enquanto Robert, que estava a tirar a mala de Marcus do porta-bagagens do Alvis, tentava 
perceber porque  que eles nunca pareciam ridculos.

Parecia j ter escurecido havia muito tempo. Mas quando o comboio de Londres chegou ao entroncamento onde Emma tinha de mudar para apanhar o de Porthkerris, e ela 
saiu, descobriu que no estava escuro coisa nenhuma. O cu estava brilhante de estrelas e a noite era fustigada por um vento irregular que cheirava a maresia. Depois 
de descarregar toda a sua bagagem, ficou  espera, na plataforma, que o expresso arrancasse, e, por cima dela, as folhas esfarrapadas de uma palmeira matraqueavam 
desafmadamente ao sabor da agitao do vento.

O comboio partiu e ela viu o nico carregador na plataforma oposta, ocupado, sem pressas, com um carregamento de embrulhos. Quando, por fim, deu por ela, largou 
o pegadouro do carro e gritou do outro lado das linhas:

Precisa de ajuda, no precisa?

Sim, por favor.

Ele saltou por cima dos carris para o lado de Emma e conseguiu juntar todas as coisas dela nos dois braos. Depois mma seguiu-o por cima dos carris e ele deu-lhe 
a mo para a ajudar a subir para a outra plataforma.

Para onde vai?

Para Porthkerris.

Vai apanhar o comboio?

Vou.

O comboio mais pequeno esperava na nica linha que percorria a costa para Porthkerris. Emma parecia ser o nico passageiro. Agradeceu ao carregador, deu-lhe uma 
gorjeta

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e sucumbiu num assento. A exausto consumia-a. Nunca um dia lhe parecera to longo. Pouco depois, juntou-se-lhe uma mulher do campo com um chapu castanho como uma 
tigela. Talvez tivesse ido s compras, pois trazia um saco de couro aos quadrados a abarrotar. Os minutos passavam e o nico som audvel era o barulho surdo do vento 
a bater nas janelas fechadas do comboio. Por fim, a mquina deu um nico apito e partiram.

Era impossvel no se sentir excitada  medida que placas de sinalizao familiares surgiam da escurido, eram reconhecidas e depois passavam. Havia apenas dois 
pequenos apeadeiros antes de Porthkerris; a seguir, por fim, o atalho ngreme que na Primavera se enfeitava de primulas, depois o tnel, escuro como breu, a mar 
vazia e as areias molhadas como cetim. Porthkerris era um ninho de luzes, a curva do porto parecia ornada por um colar e as luzes dos barcos de pesca eram reflectidas 
num labirinto de negro tremeluzente e gua dourada.

Tinham comeado a perder velocidade. A plataforma deslizava ao lado do comboio. O nome "Porthkerris" passou e ficou para trs. Por fim, pararam ao lado de um anncio 
de lato de pomada para sapatos que estava ali desde que Emma se conseguia lembrar. A sua companheira, que no tinha dito uma nica palavra durante toda a viagem, 
levantou-se, abriu a porta e saiu com calma, desaparecendo na noite. Emma ficou no meio da porta aberta,  procura de um carregador, mas o nico funcionrio  vista 
estava na outra ponta do comboio, a gritar desnecessariamente, "Porthkerris! Porthkerris!" Ela viu-o parar a falar com o condutor, puxar o bon para trs e pr as 
mos nas ancas.

Havia um carro vazio ao p do anncio de pomada para sapatos. Emma carregou a bagagem para cima dele e depois abandonou-o, levando apenas uma pequena mala. Comeou

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a percorrer a plataforma. No gabinete do chefe da estao as luzes estavam acesas, contagiavam o exterior de manchas amarelas e havia um homem sentado num banco 
a ler um jornal. Emma estava a chegar ao p dele, os seus passos ecoando nas lajes, mas quando ela ia a passar ele pousou o jornal e disse o nome dela.

Emma parou e voltou-se devagar. Ele dobrou o jornal, levantou-se e a luz pareceu transformar o seu cabelo branco num halo.

Pensei que nunca mais chegavas.

Ol, Ben cumprimentou Emma.

O comboio est atrasado ou eu percebi as horas todas mal?

Acho que no est atrasado. Talvez se tenha atrasado a partir do entroncamento. Parece-me que esteve a parado durante muito tempo. Como  que soubeste em que comboio 
 que eu vinha?

Recebi um telegrama da Galeria Bernstein. "Robert Morrow", pensou Emma. "Que simptico." Ben olhou para a mala dela. No tens muita bagagem.

Tenho um carro cheio na outra ponta da plataforma. Ele virou-se para espreitar vagamente na direco que

Emma indicou.

No importa. Vimos busc-la noutra altura qualquer. Anda, vamos.

Mas algum pode lev-la protestou Emma. Ou pode chover.  melhor dizermos ao carregador.

O carregador por aquela altura j tinha terminado a sua conversa com o condutor da mquina. Ben chamou a ateno dele e falou-lhe na bagagem de Emma.

Ponha-a num stio qualquer, est bem? Vimos busc-la amanh.

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Deu-lhe cinco xelins. O carregador respondeu:

Est bem, senhor Litton, no se preocupe, eu fao isso e continuou a percorrer a plataforma a apitar, guardando o dinheiro no bolso do colete.

Bem disse outra vez, do que  que estamos  espera? Vamos, toca a andar.

No houve qualquer sugesto de carro ou de txi, iam simplesmente a p para casa. Fizeram-no atravs de uma srie de atalhos estreitos, lanos de escadas empinadas 
e ruas inclinadas que conduziam sempre colina abaixo, at, por fim, chegarem  estrada do porto bem iluminada.

Emma, caminhando penosamente ao lado do pai, ainda carregando a mala que ele no pensara em carregar por ela, lanou um prolongado olhar de lado a Ben. Era a primeira 
vez que o via durante cerca de dois anos e pensou que nenhum homem mudava to pouco quanto ele. No estava nem mais gordo nem mais magro. O seu cabelo, que era branco 
como a neve desde que Emma se lembrava, no estava a ficar ralo nem a cair. O seu rosto, fustigado por anos de trabalho ao sol, no exterior, ao p do mar, estava 
muito bronzeado e sulcado por linhas finas que nunca poderiam ser descritas como nada to prosaico como rugas. Dele, Emma tinha herdado as suas mas do rosto salientes 
e o seu queixo anguloso, mas os seus olhos plidos deviam vir da me, pois os de Ben eram fundos, por baixo de sobrancelhas espessas e de um castanho to escuro 
que a certa luz pareciam pretos.

Nem mesmo as roupas dele pareciam ter mudado. O casaco bambo de bombazina, as calas justas, os sapatos de camura de uma elegncia e antiguidade imensas no poderiam 
ter pertencido a mais ningum. Naquela noite, a camisa era de um tecido de l laranja desbotado e um leno de algodo Paisley servia de gravata. Ele nunca tivera 
um colete.

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Chegaram ao pub dele, o Sliding Tackle, e Emma esperava, de certa forma, que ele sugerisse que entrassem para tomar uma bebida. Ela no queria uma bebida, mas estava 
esfomeada. Perguntou-se se haveria alguma comida em casa. Perguntava-se, na verdade, se iam de facto para casa. Era perfeitamente possvel que Ben estivesse a viver 
no estdio e esperasse que Emma se amanhsse por l com ele.

Disse a experimentar:

No sei sequer para onde vamos.

Para casa, claro. Para onde  que imaginavas que fssemos?

No sabia. Estavam a salvo, j tinham passado o pub. Pensei que talvez estivesses a viver no estdio.

No, tenho estado no Sliding Tackle.  a primeira vez que vou a casa.

Ah! exclamou Emma com ar sombrio.

Ele apreendeu a inflexo na voz dela e descansou-a.

No h problema. Quando souberam no Sliding Tackle que vinhas, formou-se uma autntica delegao de senhoras ansiosas por prepararem o stio para a tua chegada. 
A mulher do Daniel acabou por tratar disso. Daniel era o empregado do bar. Ela parecia pensar que depois destes anos todos estaria tudo coberto de bolor, como o 
queijo Gorgonzola.

E estava?

No, claro que no. Tinha umas quantas teias de aranha, talvez, mas perfeitamente habitvel.

Foi simptico da parte dela... Tenho de lhe agradecer.

Pois, acho que ela ia gostar.

A estrada empedrada subia ngreme do porto. As pernas cansadas de Emma doam-lhe. De sbito, e sem uma nica palavra de explicao, Ben tirou-lhe a mala da mo.

- Que diabo tens tu aqui dentro?

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Uma escova de dentes.

Pesa como chumbo. Quando partiste de Paris, Emma?

Esta manh.

Parecia h uma eternidade.

E como  que a galeria soube disso?

Tive de l ir buscar dinheiro. Libras. Deram-me vinte libras do teu fundo para pequenas despesas. Espero que no te importes.

Estou-me nas tintas.

Passaram o estdio dele, fechado e escuro.

J comeaste a pintar? perguntou Emma.

Claro que sim. Foi para isso que voltei.

E o trabalho que fizeste no Japo?

Deixei-o na Amrica para a exposio.

Agora o ar estava cheio do som da rebentao e do espraiar das vagas na areia. No enorme areal da praia. A praia deles. E depois o telhado desnivelado da casa surgiu, 
iluminado pelo candeeiro da rua ao p do porto azul.  medida que se aproximavam, Ben procurou a chave no bolso do casaco, foi  frente de Emma, entrou pelo porto, 
subiu os degraus, abriu a porta e entrou, acendendo as luzes  medida que passava, de forma que num instante todas as janelas ficaram iluminadas.

Emma entrou a seguir, mais devagar. Viu imediatamente o brilho tremeluzente do lume da lareira e a limpeza e ordem quase desumanas que a mulher de Daniel tinha criado 
a partir do abandono. Tudo brilhava, fora tudo esfregado, caiado e polido ao milmetro. As almofadas tinham sido enchidas e dispostas com preciso geomtrica. No 
havia flores, mas a casa estava inundada por um forte cheiro de cido carblico.

Ben fungou e fez uma careta.

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Como um maldito hospital disse. Tinha pousado a mala de Emma e desaparecia agora na direco da cozinha. Emma atravessou a sala e ficou ao p do lume, aquecendo 
as mos ao calor. Cautelosamente, estava a sentir-se mais esperanada. Tinha receado no haver boas-vindas. Mas Ben tinha ido esper-la ao comboio e havia lume na 
lareira. Nenhum ser humano podia pedir muito mais.

Por cima da lareira estava o nico quadro da sala, o retrato que Ben fizera de Emma quando ela tinha seis anos. Fora a primeira vez na vida dela e, segundo parecia, 
a ltima que tinha sido o centro das atenes dele, e apenas por essa razo suportara sem se queixar as longas horas sentada, o aborrecimento, as cibras e a fria 
incontrolvel dele se ela se mexia. Para o quadro ela tinha usado uma coroa de margaridas, cada dia lhe trouxera o prazer repetido de ver as mos de Ben fazerem 
uma nova coroa e depois o orgulho de ele a colocar na cabea dela, solenemente, como se estivesse a coroar uma rainha.

Ele voltou a entrar na sala.

 uma boa mulher, a mulher do Daniel. Hei-de dizer-lhe isso. Eu disse-lhe para deixar a casa fornecida com alguns mantimentos. Emma virou-se e viu que ele tinha 
encontrado uma garrafa de Haigs e um copo. Emma, vai-me buscar um jarro de gua, vais? Ocorreu-lhe uma ideia. E suponho que outro copo, se quiseres uma bebida.

No quero uma bebida, mas estou cheia de fome.

No sei se ela trouxe esse tipo de mantimentos.

Eu vou ver.

Tambm a cozinha tinha sido limpa, varrida e esfregada. Ela abriu o frigorfico e encontrou ovos, bacon e uma garrafa de leite; tambm havia po na caixa. Tirou 
um jarro de um gancho no armrio, encheu-o de gua fria e levou-o para a sala. Ben vagueava pela sala, mexia nos candeeiros, tentando encontrar alguma coisa de errado. 
Ele sempre tinha detestado aquela casa.

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Ela perguntou:

Queres que te faa uns ovos?

O qu? Ah, no, no quero nada. Sabes,  estranho estar aqui outra vez. No consigo parar de sentir que a Hester vai aparecer e dizer-nos para comearmos a fazer 
qualquer coisa que no queremos.

Emma pensou em Christopher. Retorquiu:

Oh, pobre Hester.

Pobre uma ova. Cabra metedia.

Ela voltou  cozinha, encontrou uma caarola, uma tigela e margarina. Vindos da sala, podia ouvir os sons da inquietao de Ben. Abria e fechava portas, afastava 
uma cortina, dava um pontap num tronco que voltava a atirar para a lareira. Passado pouco tempo, ele apareceu  porta da cozinha, com um cigarro numa das mos e 
agitando o copo na outra. Observava Emma, que mexia os ovos. Disse:

Cresceste, no cresceste?

Tenho dezanove anos. Se cresci ou no, francamente no sei.

 estranho no seres mais uma menina pequenina.

Hs-de habituar-te.

Sim, suponho que sim. Quanto tempo  que vais ficar?

Digamos que no fiz planos de me ir embora outra vez.

Queres dizer que queres viver aqui?

Por enquanto.

Comigo?

Emma olhou para ele por cima do ombro.

Isso seria assim to doloroso?

No sei respondeu Ben. Nunca experimentei.

Foi por isso que eu voltei. Pensei que talvez estivesse na altura de experimentares.

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Por acaso no ests a censurar-me?

Porque  que havia de estar a censurar-te?

Porque te abandonei e fui ensinar para o Texas. Porque nunca te fui ver  Sua. Porque no te deixei ir ao Japo.

Se eu me importasse realmente com essas coisas, no teria querido voltar.

E se eu decidir ir-me embora outra vez?

Vais?

No. Ele olhou para a sua bebida. De momento no. De momento estou cansado. Voltei  procura de um pouco de paz. Olhou para cima outra vez. Mas no vou ficar aqui 
para sempre.

Eu tambm no vou ficar aqui para sempre retorquiu Emma. Ela colocou uma tosta num prato, o ovo por cima da tosta, abriu uma gaveta  procura de uma faca e de um 
garfo.

Ben observava aquilo tudo com alguma agitao.

No te vais armar em domesticazinha eficiente, pois no? Outra Hester? Se for isso, ponho-te fora.

Eu no era capaz de ser eficiente, nem que tentasse. Se te servir de alguma coisa, sempre te digo que perco comboios, queimo comida, perco dinheiro e deixo cair 
coisas. Esta manh, em Paris, tinha um chapu de sol, mas quando cheguei a Porthkerris j desaparecera. Como  que se pode perder um chapu de sol neste pas, em 
Fevereiro?

Mas ele ainda no estava convencido.

No vais querer andar por aqui de carro o tempo todo?

Eu no sei conduzir.

E televiso e telefones e porcarias assim?

Nunca tiveram grande espao na minha vida. Nessa altura ele riu-se e Emma perguntou-se se haveria

alguma coisa de errado em achar o prprio pai to atraente

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Ele informou:

Sabes, eu no sabia bem como  que isto ia correr. Mas em circunstncias to favorveis s posso dizer que estou contente por teres voltado. Bem-vinda a casa.

Levantou o copo  sade de Emma, acabou a sua bebida e depois voltou para a sala para agarrar na garrafa e emborcar o resto.

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O bar Sliding Tackle era pequeno e confortvel, apainelado a preto, muito antigo. Tinha apenas uma janela minscula, que dava para o porto, de forma que a primeira 
impresso de um visitante, quando entrava, vindo da luz exterior ofuscante, era de escurido absoluta. Mais tarde, quando os seus olhos se acostumavam  obscuridade, 
outras peculiaridades tornavam-se evidentes, as mais bvias sendo que no havia duas linhas paralelas no lugar. Havia sculos que o pequeno pub se mantinha nos seus 
alicerces, como um habitante mergulhado num sono profundo numa cama confortvel, e vrias irregularidades, como iluses pticas, eram passveis de fazer os potenciais 
clientes sentirem-se embriagados antes sequer de terem engolido a primeira bebida. O cho de laje descia numa direco, apresentando uma fenda sinistra entre a pedra 
e os lambris. A viga preta, que constitua a estrutura do prprio balco, descia noutra direco. E o tecto caiado tinha uma inclinao to grande que o proprietrio 
tinha sido levado a colocar avisos a dizer "Cuidado com esta viga" e "Cuidado com a cabea".

Ao longo dos anos, o Sliding Tackle tinha-se mantido, teimosamente, o mesmo. Situado na parte velha e fora de moda de Porthkerris, ao p do porto, sem espao para 
terraos pretensiosos ou jardinzinhos de ch, conseguira resistir s enchentes do turismo de Vero que invadiam o resto da

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cidade. Tinha os seus clientes regulares que l iam beber, conversar amenamente sobre temas pouco exigentes e jogar s moedas. Tinha um alvo para o jogo das flechas 
e uma lareira, onde, de Vero e de Inverno, ardia sempre um lume. Tinha Daniel, o empregado do bar, e Fred, de cara bicuda e vesgo, que trabalhava na limpeza do 
lixo das praias, alugava cadeiras durante o Vero e passava o resto do ano a beber alegremente os seus ganhos. E tinha Ben Litton.

 uma questo de prioridades disse Marcus. Iam no Alvis, ele e Robert. A inteno era encontrar Ben Litton. Estava to bom tempo que Robert tinha posto a capota 
para trs e Marcus trazia, com o seu sobretudo preto habitual, um bon de tweed como um cogumelo, que parecia ter sido comprado para outra pessoa. De prioridades 
e de horas. A um domingo, ao meio-dia, o primeiro stio onde procurar  o Sliding Tackle. E se ele l no estiver, coisa que eu duvido, vamos ao estdio e depois 
a casa.

Ou talvez, numa manh to bonita, ande a passear por a.

No me parece. Est na hora de ele beber, e ele sempre foi uma criatura de hbitos.

Embora se estivesse s em Maro, estava, na verdade, um dia deslumbrante, de uma beleza inacreditvel. O cu sem nuvens. O mar, trazido obliquamente para a curva 
da baa por um forte vento de noroeste, estendia-se na frente deles raiado de todos os tons de azul, do anil ao turquesa mais plido. Do cimo da colina, a vista 
estendia-se at ao infinito, pennsulas distantes desapareciam numa ligeira nvoa que sugeria o calor do pino de Vero. E l em baixo, ao longo da estrada serpenteante, 
a cidade espalhava-se ngreme, um amontoado de ruelas estreitas e empedradas, casas caiadas, telhados torcidos e comidos do sol, agrupados em volta do porto.

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Todos os anos, durante os trs meses de Vero, Porthkerris tornava-se um pequeno inferno na terra. As suas ruas inadequadas ficavam engarrafadas de carros, os seus 
passeios apinhados de humanidade meia despida, as suas lojas a abarrotar de postais, chapus-de-sol, chinelos, camaroeiros, pranchas de surf e almofadas de plstico 
de encher. Na praia enorme, as tendas e os balnerios esgotavam a lotao e as esplanadas abriam os seus terraos, cheios de mesas redondas engalfinhadas, protegidas 
por chapus. Bandeiras cor de laranja agitadas pelo vento, anunciando gelados de framboesa, de chocolate e outros horrores, e, como se no bastasse, havia pipocas 
e pastis de carne cheios de pur de batata cinzento.

Por alturas da semana do Pentecostes, abria o parque de diverses, com a algazarra de mquinas de jogos e de msica, e talvez mais uma correnteza de casas velhas, 
mas pitorescas, fosse abaixo  frente dos bulldozers, para arranjar espao para mais um parque de estacionamento. E os seus habitantes, as pessoas que gostavam da 
cidade, e os artistas, seriam testemunhas horrorizadas desta violao e diriam: "Isto est pior do que nunca. Est a ficar arruinado. No podemos ficar mais tempo." 
Mas todos os Outonos, depois de o ltimo comboio ter levado o ltimo invasor de nariz pelado, Porthkerris regressava, milagrosamente, ao seu ritmo normal. As lojas 
abriam as persianas. As tendas iam abaixo e as praias eram lavadas pelas tempestades de Inverno. As nicas bandeiras agitadas pelo vento eram os estendais de roupa 
lavada que povoavam cada uma das casas, como enfeites desenhados a pastel, ou eram hasteadas l muito em cima, sobre os relvados onde os pescadores estendiam as 
suas redes a secar.

E era ento que a antiga magia se reafirmava e se tornava fcil compreender porque  que um homem como Ben

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Litton voltava sempre, como um pombo regressa sempre ao pombal, para recuperar energias,  procura da segurana das coisas familiares, para ser mais uma vez tomado 
pela obsesso do pintor pela cor e pela luz.

O Sliding Tackle ficava no extremo da estrada do porto. Robert aproximou-se do seu ptio coberto em arco e desligou o motor. Estava calor e ouvia-se o silncio. 
A mar estava vazia, a praia cheia de areia limpa e de algas e as gaivotas piavam. Algumas crianas, encorajadas pelo sol, brincavam com baldes e ps, vigiadas por 
avozinhas a fazer tric de bata e redes no cabelo, e um gato preto, que era s osso, estava sentado no empedrado da rua a lavar as orelhas.

Marcus saiu do carro.

Vou ver se ele est l dentro. Espera aqui. Robert tirou um cigarro do mao que estava no painel de

instrumentos, acendeu-o e observou o gato. Por cima da sua cabea, a tabuleta da estalagem rangia com o vento e uma gaivota veio pousar nela olhando Robert com malevolncia, 
numa provocao gritante. Dois homens desciam a rua, caminhando ao passo certo e lento de um domingo metodista de descanso. Vestiam camisolas de l azul e bons 
de fazenda brancos.

Bom-dia saudaram ao passar.

Um dia magnfico retorquiu Robert.

 verdade. Magnfico.

Pouco depois, Marcus voltou a aparecer.

Muito bem, encontrei-o.

E Emma?

Ele diz que ela est no estdio. A caiar.

Queres que v busc-la?

Se no te importas. So... ele olhou para o relgio meio-dia e um quarto.  uma j deves estar aqui. Eu disse que almovamos  uma e meia.

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Certo. Vou a p. No vale a pena levar o carro.

Ainda te lembras do caminho?

Claro.

Ele j tinha estado mais duas vezes em Porthkerris,  procura de Ben Litton, por uma razo ou por outra, em alturas em que Marcus no estava disponvel para o fazer 
ele prprio. A fobia de Ben em relao aos telefones, aos carros e a todos os meios de comunicao provocava de tempos a tempos complicaes desastrosas e Marcus 
j aceitara h muito o facto de ser mais rpido fazer a viagem de Londres a Cornwall e surpreender o leo na caverna do que esperar por uma resposta aos telegramas 
mais urgentes j com resposta paga.

Robert saiu do carro e fechou a porta.

Queres que lhe diga ou deixo a agradvel tarefa para ti?

Marcus sorriu.

Diz-lhe tu.

Robert tirou o seu bon de tweed e atirou-o para o banco do condutor. Disse amavelmente:

Filho-da-me.

Ele tinha recebido uma carta de Emma uma ou duas semanas depois de ela ter passado por Londres.

Caro Robert:

Se eu chamo Marcus a Marcus no posso de forma alguma chamar-te senhor Morrow, pois no? No, claro que no, de maneira nenhuma. Devia ter escrito imediatamente 
a agradecer-te o almoo e o dinheiro e por teres mandado dizer ao Ben em que comboio eu ia chegar. Ele foi, de facto, esperar-me  estao. Est tudo a correr lindamente, 
at agora no tivemos uma nica discusso Pornada, anda a trabalhar como um mouro em quatro telas ao mesmo tempo.

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No perdi nada da minha bagagem, a no ser o chapu de sol, que, tenho a certeza, algum me roubou. Saudades ao Marcus. E para ti.

Emma

Agora, ele abria caminho atravs do labirinto de ruas estreitas e casas muito juntas que conduzia  costa norte da cidade. A havia outra praia, uma baa batida 
pelo vento e desprotegida, apenas apreciada pelas grandes ondas que a rebentavam vindas directamente do Atlntico. O estdio de Ben Litton dava para essa praia. 
Em tempos, havia muito tempo, tinha sido um armazm de redes e o seu nico acesso era uma rampa empedrada que descia da estrada em direco a uma porta dupla revestida 
de alcatro. Havia uma tabuleta pintada com o nome dele e uma imensa aldraba de ferro. Robert agarrou-a, bateu e chamou:

Emma.

No obteve resposta. Abriu a porta e esta quase lhe foi imediatamente arrancada da mo por uma rajada de vento que entrou como uma torrente de gua, atravs da janela 
aberta do outro lado do estdio. Quando a porta se voltou a fechar com estrondo atrs dele, a corrente de ar abrandou. O estdio estava vazio e extremamente gelado. 
No havia sinais de Emma, mas um escadote, uma brocha e um balde testemunhavam a sua recente ocupao. Ela tinha caiado uma parede inteira, mas quando ele foi toc-la 
descobriu que ainda estava fria e hmida.

Do meio desta parede salientava-se um fogo feio e antigo, agora vazio e apagado, e ao lado uma botija de gs, uma cafeteira velha e uma caixa cor de laranja, virada 
ao contrrio, contendo canecas s riscas azuis e brancas e um frasco com nibos de acar. Do lado oposto do estdio ficava a mesa
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de trabalho de Ben, numa completa desordem de desenhos e papis, bisnagas de tinta e centenas de lpis e pincis, tudo dentro de folhas de carto canelado. A parede 
por cima da mesa estava escura, suja de velha e manchada das raspadelas dos inmeros golpes da paleta, que tinham formado, ao longo dos anos, uma crosta de cor. 
No topo da secretria havia uma estreita prateleira  altura desta, em cima da qual estava disposta, ordenadamente, uma seleco de objects trouvs que numa altura 
ou noutra tinham chamado a ateno de Ben. Uma pedra da praia, uma estrela-do-mar fossilizada. Um monte azul de flores silvestres secas. Uma reproduo, em postal, 
de um Picasso. Um bocado de madeira talhada pelo mar e pelo vento numa escultura abstracta. Havia fotografias, um leque de instantneos enrolados, ordenados num 
antigo suporte de prata de ementas. Um convite para uma pr-inaugurao, que tinha tido lugar h seis anos e, finalmente, um par de binculos pesados e velhos.

Ao nvel do cho, as paredes estavam cheias de telas deitadas e no meio da sala encontrava-se o trabalho do momento, em cima de um cavalete e coberto por um pano 
cor-de-rosa desbotado. Voltado para o fogo vazio estava um sof velho, enrolado no que pareciam ser os restos de um tapete rabe. Havia tambm uma velha mesa de 
cozinha, com as pernas cortadas, e em cima desta uma lata de cigarros, um cinzeiro a transbordar, uma pilha de Studios e uma tigela de vidro verde cheia de ovos 
de porcelana pintados.

A parede norte era toda de vidro, aos rectngulos, separados por pequenas divisrias de madeira e dispostos de forma que os rectngulos da parte mais baixa descaam 
para o lado. Ao longo da parte inferior deste efeito havia um banco comprido, cheio de almofadas e debaixo deste salientavam-se mais destroos em desordem. Pedaos 
de um barco, um

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monte de pranchas de surf, uma grade de garrafas vazias e, no meio, por baixo da janela aberta, dois ganchos de ferro tinham sido pregados ao cho, aos quais estavam 
atadas as pontas de uma escada de corda. Esta desaparecia para fora da janela e Robert, indo investigar, viu que caa directamente na areia, dois metros mais abaixo.

A praia parecia estar vazia. A mar baixa tinha deixado uma extenso de areia muito limpa, separada do cu por uma linha estreita de vagas de espuma branca. Um pouco 
mais adentro, na costa, havia um estrato de rocha, com uma crosta de conchas e algas, e por cima deste as gaivotas pairavam, ocasionalmente, atacando-se mutuamente 
ou piando por causa de uma presa qualquer. Robert sentou-se no parapeito da janela e acendeu um cigarro. Quando voltou a olhar para cima aparecera uma figura no 
horizonte, mesmo  beira do mar. Vestia uma longa tnica branca, como a de um rabe, e enquanto caminhava em direco ao estdio parecia debater-se com um enorme 
embrulho vermelho impossvel de identificar.

Lembrou-se dos binculos em cima da mesa de Ben e foi busc-los. Focada, a figura ficou mais ntida e revelou-se como sendo Emma Litton, cabelo comprido ao vento, 
de enorme roupo turco branco e arrastando, com alguma dificuldade, pois o vento batia-lhe de lado e arrancava-lha das mos, uma prancha de surf escarlate.

Com certeza que no tens estado a nadar? Emma, a lutar com a prancha de surf, no o tinha visto 

janela. Agora, com uma das mos na escada de corda, quase morreu de susto ao ouvir a voz dele. Olhou para cima, arrastando a prancha na areia, o seu cabelo preto 
molhado solto em farrapos pelo vento.

Estive, pois, e pregaste-me um susto de morte. H quanto tempo  queestais aqui?

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H uns dez minutos. Como  que vais subir a prancha pelas escadas?

Estava a pensar nisso, mas agora que tu apareceste todos os meus problemas esto resolvidos. H uma corda debaixo do banco. Se me atirares uma ponta, eu ato-a  
prancha e tu podes pux-la.

A tarefa foi realizada na perfeio. Robert iou a prancha atravs da janela aberta e logo a seguir surgiu a prpria Emma, a cara, as mos e os ps cheios de areia 
seca, as pestanas pretas de pontas espetadas como as de uma estrela-do-mar. Ela ajoelhou-se no parapeito da janela e riu-se para ele.

Ora, que grande sorte! Como  que eu ia fazer? Mal consegui carreg-la ao longo da praia, quanto mais escada acima.

Por baixo da areia tinha a cara roxa de frio. Ele ordenou:

V l, entra, e fecha a janela... esse vento  gelado. Como  que conseguiste ir nadar? Vais morrer de pneumonia.

No vou nada.

Ela saltou para o cho e observou-o, enquanto ele enrolava a escada para dentro e fechava a janela. Esta no fechava bem e continuava a haver uma corrente de ar 
cortante como a ponta de um cutelo.

Eu estou habituada. Em Abril costumvamos sempre nadar, quando ramos crianas.

No estamos em Abril. Estamos em Maro.  Inverno. O que  que o teu pai ia dizer?

Oh, no ia dizer nada. Est um dia to bonito e eu j estava farta de caiar... j viste a minha parede magnificamente branca? O problema  que faz o resto do estdio 
parecer uma pocilga. Alm disso, eu no estava a nadar, estava a fazer surf e as ondas mantiveram-me quente. E depois 
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sem nenhuma mudana de expresso significativa: Vieste visitar o Ben? Ele est no Sliding Tackle.

Sim, eu sei.

Como  que sabes?

Porque deixei l o Marcus com ele.

O Marcus. Ela ergueu as suas sobrancelhas bem marcadas considerando o facto. O Marcus tambm veio? Meu Deus, deve ser uma coisa mesmo importante!

Ela tremeu ligeiramente. Robert disse:

V se vestes qualquer coisa.

Ah, estou bem. Ela foi buscar um cigarro  mesa, acendeu-o e depois afundou-se no velho sof, de costas, com os ps apoiados no brao.

Recebeste a minha carta?

Recebi, pois. Com Emma a ocupar todo o sof no havia mais stio nenhum onde se sentar, a no ser a mesa, por isso ele colocou a pilha de revistas no cho e sentou-se. 
Tive pena de teres perdido o teu chapu de sol.

Emma riu-se.

Mas ficaste contente em relao ao Ben.

Claro.

 espantoso como est a resultar bem. Inacreditvel. E ele gosta mesmo de me ter por c.

No me passou uma nica vez pela cabea que ele no fosse gostar.

Ah, no me venhas com essa conversa. Sabes bem que foi isso que pensaste. Ao almoo, naquele dia, eras todo sobrolho franzido e cepticismo. Mas, sabes,  realmente 
o casal perfeito. O Ben no tem de me pagar para lhe manter a casa limpa e arranjada, nem de se incomodar com pormenores tediosos, com dias de folga e selos do seguro, 
nem tem de se envolver emocionalmente. Ele no sabia que a vida podia ser to simples.

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Tens notcias do Christopher?

Emma voltou a cabea para o lado para olhar para ele.

Como  que sabes do Christopher?

Foste tu que me disseste. No restaurante do Marcello. Recordas-te?

Pois foi. No, no tenho notcias. Mas deve estar em Brookford por esta altura, no auge dos ensaios. No deve ter tido tempo para escrever. De qualquer modo, tem 
havido muito que fazer por aqui, tratar da casa, cozinhar e coisas assim. No acredites quando ouvires dizer que os artistas nunca comem. O apetite do Ben  insacivel.

Disseste-lhe que voltaste a encontrar o Christopher?

Deus me livre! E estragar o calmo decorrer da nossa vida? Nem sequer mencionei o nome dele. Sabes, ficas muito melhor com essas roupas do que com as que te vi em 
Londres. Quando te vi pela primeira vez pensei logo que no eras do tipo de passar os dias abotoado em fatos cinzento-escuros. Quando  que chegaram?

Chegmos ontem  tarde. Ficmos no Castelo. Emma fez uma careta.

Com todas aquelas palmeiras em vasos e aqueles casacos de caxemira? Bah!

 muito confortvel.

O aquecimento central faz-me febre-dos-fenos. Nem consigo respirar.

Ela apagou o cigarro no meio do cinzeiro a transbordar, tirou os ps do sof, levantou-se, afastou-se dele, na direco da janela, desatando o cinto do roupo enquanto 
andava. Tirou uma pilha de roupas de debaixo de uma almofada e, de costas para ele, comeou a vestir-se. Perguntou:

Porque  que tu e o Marcus vieram juntos?

O Marcus no conduz.

H comboios. E no foi isso que eu quis dizer.

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Pois no, eu sei. Ele agarrou num dos ovos de porcelana pintados e comeou a mexer-lhe como um rabe trata um tero do rosrio de lamentaes. Viemos tentar persuadir 
o Ben a voltar aos Estados Unidos.

Houve um grande golpe de vento sbito que se abateu contra o vidro da janela do estdio, como uma onda rebentando e rugindo sobre o telhado por cima deles, como 
o troar de um comboio que passasse. Um bando de gaivotas elevou-se gritando das rochas, atiradas para o cu. E depois, to de repente como tinha comeado, parou.

Emma perguntou:

Porque  que ele tem de voltar?

Por causa da tal exposio retrospectiva.

Ela deixou cair o roupo turco branco e a sua silhueta foi projectada, de jeans, enfiando uma camisola de l azul-marinho pela cabea.

Mas eu pensei que ele e o Marcus tivessem resolvido tudo quando estiveram em Nova Iorque, em Janeiro.

Ns tambm pensvamos que sim. Mas, sabes, esta exposio est a ser financiada por um particular.

Eu sei disse Emma, virando-se e libertando o seu cabelo preto da gola da camisola. Li tudo sobre isso na Realties. A senhora Kenneth Ryan. A viva do homem rico 
em homenagem ao qual existe o Museu de Belas-Artes de Queenstown. Ests a ver como estou bem informada? Espero que estejas impressionado.

E a senhora Kenneth Ryan quer uma pr-inaugurao.

Ento porque  que no disse logo?

Porque ela no estava em Nova Iorque. Estava a apanhar sol em Nassau, ou nas Baamas, ou em Palm Beach, ou noutro stio qualquer. Eles nunca estiveram com ela. Estiveram 
apenas com o conservador do museu.

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E agora a senhora Ryan quer que Ben Litton l volte para que ele possa dar uma pequena festa com champanhe e exibi-lo, como um trofeu, a todos os seus amigos influentes. 
 de dar a volta ao estmago.

Ela fez mais do que decidir, Emma. Ela veio c persuadi-lo.

Queres dizer que ela veio a Inglaterra?

Quero dizer que veio a Inglaterra,  Galeria Bernstein, a Porthkerris. Ela veio comigo e com o Marcus, ontem, e est neste momento no bar do Hotel Castelo a beber 
martinis muito gelados e  espera que vamos todos almoar com ela.

Bem, eu c no vou de certeza.

Tens de vir. Temos de ir todos. Ele olhou para o relgio. E estamos atrasados. Despacha-te, por favor.

O Ben j sabe da pr-inaugurao?

Por esta altura, j sabe. O Marcus j lhe deve ter dito.

Ela apanhou uma capa de lona castanha do cho e vestiu-a por cima da camisola. Quando a cabea passou pela gola, disse:

Ele pode no querer ir.

Queres dizer que no queres que ele v?

Quero dizer que ele se instalou aqui outra vez. No anda de um lado para o outro, no anda inquieto, no anda sequer a beber muito. Anda a trabalhar como um jovem 
e o que anda a fazer  fresco, novo e melhor do que nunca. O Ben tem sessenta anos, sabias? Olhando para ele,  difcil de acreditar, mas tem quase sessenta anos. 
No ser possvel que todo esse vaguear constante pelo mundo possa j no o estimular, mas simplesmente esgot-lo? Ela voltou para o sof para se sentar, de frente 
para Robert, o seu rosto srio ao mesmo nvel do dele. Por favor, se ele no quiser ir, no tentem persuadi-lo.

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Robert continuava com o ovo de porcelana na mo. Olhou-o com inteno, como se as suas convolues de azul e verde fornecessem miraculosamente uma resposta para 
todos os problemas. Depois, com cuidado, voltou a coloc-lo na tigela de vidro ao p dos seus iguais.

Ele retorquiu:

Falas como se isto fosse alguma coisa importante, como se ele voltasse para os Estados Unidos outra vez para dar aulas, como se ele no fosse voltar durante anos. 
Mas no  assim.  simplesmente uma festa. Ele no precisa de estar longe mais do que alguns dias. Ela abriu a boca num novo protesto, mas ele antecipou-se-lhe. 
E no te deves esquecer de que esta exposio  uma grande homenagem ao Ben. Investiu-se muito dinheiro e muito trabalho de organizao, e talvez o mnimo que ele 
pode fazer...

Furiosa, Emma interrompeu-o.

O mnimo que ele pode fazer  ir exibir-se como um macaquinho de estimao na frente de uma americana gorda. E o que ainda torna isso mais horrvel,  que ele gosta 
desse tipo de coisas.  isso que eu detesto, que ele goste.

Se gosta, qual  o problema? J que gosta, se quiser ir, vai.

Ela calou-se. Sentou-se, de olhos no cho e boca franzida, como a de uma criana. Robert terminou o seu cigarro, apagou-o, levantou-se e disse, com mais brandura:

V l, despacha-te, seno vamos chegar atrasados. Tens um casaco?

No.

Ento uns sapatos, deves ter uns sapatos.

Ela apalpou debaixo do sof, tirou um par de sandlias de couro e levantou-se metendo-lhes dentro os ps descalos. Ainda tinha os ps cheios de areia e a capa de 
lona tinha pingos de cal.

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Ela concluiu:

No posso ir almoar ao Castelo com este aspecto.

Que disparate! Ele tentou um tom animador. Vais dar que falar aos habitantes. Dar um pouco de cor s suas vidas interminavelmente montonas.

No h tempo para voltar a casa? Nem sequer tenho pente.

H-de haver um pente no hotel.

Mas...

No h mesmo tempo. J estamos atrasados. V l, anda da...

Saram juntos do estdio, subiram a rampa e comearam a andar na direco do porto pela estrada cheia de sol. Depois do gelo do estdio, o ar sabia a quente, a luz 
do mar era reflectida nas paredes caiadas das casas e encandeava como o brilho da neve.

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Emma no quis entrar no Sliding Tackle.

Eu espero aqui. Vai l tu busc-los.

Est bem.

Ele atravessou o empedrado e ela reparou como ele tinha de baixar a cabea para passar por baixo do ptio coberto. A porta do pub fechou-se atrs dele. Ela foi-se 
aproximando do carro dele e inspeccionou-o com interesse, porque era dele e deveria, por conseguinte, fornecer mais pistas sobre o seu carcter, como uma prateleira 
de livros, ou as gravuras que um homem pendura nas paredes da sua casa. Mas, para alm de ser verde-escuro, de ter faris de nevoeiro, jantes metalizadas e uns quantos 
autocolantes do Automvel Clube, o Alvis revelava pouco. No banco do condutor havia um bon de iweed, cigarros no painel de instrumentos, um livro de mapas. No banco 
de trs, cuidadosamente dobrado, um tapete de tart, espesso e de aspecto caro. Ela decidiu que ou ele era confiante ou descuidado, mas tambm tinha sorte, pois 
o tapete no tinha sido roubado.

Uma rajada de vento soprou vinda do mar e Emma tremeu. Depois do mergulho e das correntes de ar do estdio, ainda estava com muito frio. Tinha as mos tolhidas pelo 
frio, completamente sem cor, as unhas roxas. Mas o metal do carro estava quente e, procurando conforto, encostou-se

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l

a ele, de pernas e braos abertos sobre a capota, com as mos espalmadas como uma estrela-do-mar.

A porta do pub abriu-se e Robert Morrow emergiu mais uma vez, curvando-se cautelosamente. Vinha sozinho.

No esto?

No. Estamos atrasados, eles fartaram-se de esperar e apanharam uma boleia de volta para o hotel. Ele abriu a porta do lado do condutor, agarrou no seu bon e p-lo 
na cabea, puxado para cima do nariz, acrescentando mais um ngulo pronunciado ao seu perfil formidvel. Anda... Debruou-se, abriu a outra porta e Emma despegou-se 
da capota e entrou para o lado dele.

Deixaram o porto para trs, l em baixo, arrancaram estrada acima, atravs da cidade, subiram as estreitas ruas ngremes, passaram por entre correntezas de casas 
chiques, por tabuletas que diziam "Quartos e pequeno-almoo" e por jardins fronteiros onde palmeiras tristes curvavam as cabeas ao sabor do vento. Entraram na rua 
principal, ainda a subir, e voltaram em direco ao Hotel Castelo; sempre a subir, penetraram no caminho da entrada do hotel; a subida continuou por entre curvas 
de hidrngeas, de ulmeiros reclinados para a terra, e, por fim, chegaram ao topo da colina, penetrando num espao aberto de campos de tnis, relvados e um minicampo 
de golfe. O hotel tinha sido em tempos uma casa de campo e nadava no seu ambiente genuno. Um poste branco e uma corrente mantinham os carros afastados da rea de 
gravilha, em frente do hotel, onde estava sentado, em cadeiras de repouso, um grupo de hspedes destemidos, com cachecis, luvas e embrulhados em mantas, como passageiros 
de um transatlntico. Estavam a ler livros ou jornais, mas quando o Alvis retumbou estrada acima e estacionou com um triturar macio de gravilha estes foram baixados 
e, em alguns casos, foram tirados culos, e a
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chegada de Emma e Robert observada e registada como se fossem visitantes de outro planeta. Robert observou:

Somos, provavelmente, a primeira coisa emocionante que acontece desde que o gerente caiu na piscina.

Uma vez dentro das portas giratrias, o calor atingiu-os como um forno acabado de abrir. Emma dissera desprezar aquele conforto, mas naquele momento era bem-vindo.

Ela observou:

Espero que estejam no bar. Vai tu  frente, eu j l vou ter. Tenho de tentar livrar-me de alguma desta areia.

Na casa de banho das senhoras lavou as mos e a cara e limpou a areia dos ps com a parte de trs dos jeans, como um adolescente a tentar dar brilho aos sapatos. 
Havia um estojo pretensioso de escovas e pentes num toucador que pretendia dar um ar de arrumado, e ela usou o pente partindo-lhe metade dos dentes, mas reduzindo 
a massa emaranhada a uma espcie de ordem. Quando se voltava na direco da porta, viu-se no grande espelho. Sem maquilhagem, jeans coados, pingos de cal. Despiu 
a capa ofensiva, mas depois enfureceu-se consigo mesma por se estar a importar com uma coisa to trivial como a sua aparncia e voltou a vesti-la. Eles iriam pensar 
que ela era uma estudante de arte extravagante. Um modelo. A amante de Ben Litton. Que pensassem. Como Robert Morrow tinha dito, dar-lhes-ia algo de que falar.

Mas quando saiu da casa de banho e atravessou o longo vestbulo atapetado, ficou agradecida por Robert Morrow no a ter abandonado e ido ter com os outros, como 
ela lhe sugerira. Estava, em vez disso,  espera dela ao p da secretria do porteiro, a ler um jornal de domingo que tinha sido deixado em cima da cadeira. Quando 
a viu, dobrou o jornal, voltou a deix-lo onde estava antes e mostrou-lhe um sorriso de encorajamento.

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Fizeste um trabalho magnfico opinou.

Destru o pente do hotel. Que, por sinal, era bem bonito e at pertencia a um conjunto. No precisavas de esperar. J aqui estive antes e sei o caminho.

Ento vamos.

Faltava um quarto para as duas e a movimentada hora do almoo de domingo tinha terminado. Apenas alguns alcolicos convictos ainda estavam sentados no bar, agitando 
os seus gins com gua tnica e a comearem a ficar um pouco corados. Ben Litton, Marcus Bernstein e a senhora Kenneth Ryan estavam do outro lado, reunidos no espao 
acrescentado  sala por uma enorme janela panormica. A senhora Ryan estava sentada no lugar do lado da janela, contra um fundo que mais parecia um cartaz de uma 
agncia de viagens uma extenso de mar azul, uma pitada de cu e as verdes ondulaes do minicampo de golfe. Os dois homens, Ben no seu bleus de operrio francs 
e Marcus no seu fato escuro, estavam a conversar, ligeiramente virados para ela, de forma que foi a senhora Ryan quem primeiro viu Emma e Robert.

Olhem quem chegou... anunciou ela.

Eles voltaram-se. Ben continuou sentado, mas Marcus levantou-se e foi cumprimentar Emma, de braos abertos, o seu prazer em v-la genuno, demonstrativo e muito 
pouco britnico. s vezes conseguia ser quase embaraosamente austraco.

Emma, minha querida. At que enfim que chegaste.

Ele ps-lhe as mos nos ombros e beijou-a, formalmente, em ambas as faces. Que prazer em ver-te outra vez, depois deste tempo todo. H quanto tempo? Cinco anos? 
Seis? Temos muito que conversar. Anda conhecer a senhora Ryan.

Agarrou-lhe na mo para a conduzir. Mas a tua mo  uma pedra de gelo. O que  que tens estado a fazer?

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Nada disse Emma, trocando um olhar com Robert, desafiando-o a dizer mais coisas.

E de sandlias... Como  que aguentas? Senhora Ryan, esta  a filha do Ben, Emma, mas no lhe aperte a mo, seno morre com o choque.

H outras maneiras piores de morrer observou a senhora Ryan apertando-lhe a mo. Como est?

Apertaram as mos.

Devo dizer que est muito fria. Num impulso insensato, Emma disse:

Estive a nadar. Foi por isso que chegmos atrasados. E  por isso que estou to mal vestida. No houve tempo de voltar a casa para mudar de roupa.

Ah, mas no est nada mal vestida. Sente-se... temos tempo para mais uma bebida, no temos? A sala de jantar no nos vai fechar as portas nem nada que se parea, 
pois no? Robert, era muito simptico da sua parte se nos pedisse mais uma rodada. O que  que quer beber, Emma?

Eu... no quero nada. Ben deu uma tossidela. Bom... um xerez.

Ns estamos todos a beber martinis, Robert. Se tambm quiser... Emma sentou-se cuidadosamente na cadeira que Marcus tinha deixado vaga, consciente de que o pai estava 
a observ-la do outro lado da mesa.

Eu no acredito que esteve realmente a nadar afirmou a senhora Ryan.

No foi bem. S entrei e sa. Havia ondas enormes.

Mas no vai apanhar uma constipao horrvel? Isso no pode fazer-lhe bem. Voltou-se para Ben. Com certeza que o senhor no aprova que se nade com um frio destes. 
No tem influncia nenhuma sobre a sua filha?

O tom dela era alegre e brincalho. Ben deu uma resposta qualquer e ela continuou, dizendo-lhe que ele devia ter

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vergonha... que ela estava mesmo a ver que ele era um pai desnaturado...

Emma deixou de ouvir. Estava demasiado ocupada a olhar. Porque a senhora Ryan no era velha, nem gorda, mas jovem, bonita e muito atraente, e de cabelo de um louro-dourado 
e muito bem penteada, nos seus brilhantes sapatos de pele de crocodilo no havia um nico pormenor que no emanasse verdadeiro prazer. Os seus olhos eram enormes 
e azuis como violetas, a boca carnuda e afvel, e, quando sorria, como agora, revelava duas filas perfeitas de dentes americanos, brancos e certos. Vestia um fato 
de fazenda cor-de-rosa elegantssimo, a gola e os punhos debruados a pique branco engomado. Diamantes brilhavam-lhe nas orelhas, a lapela, as mos cuidadas. No 
havia nada de vulgar nela, nada rude. At o perfume era como o das flores.

O facto de ela ter estado longe de si seis anos  mais uma razo para tomar conta dela agora.

Eu no tomo conta dela... ela  que toma conta de mim...

Ora a est um verdadeiro homem a falar...

A sua voz suave e do Sul fazia as palavras parecerem uma carcia.

Os olhos de Emma desviaram-se para o pai. A atitude dele era caracterstica: pernas cruzadas, cotovelo direito em cima do joelho, o queixo apoiado no polegar, um 
cigarro entre os dedos, o fumo subindo na frente dos olhos. Os seus olhos estavam pretos como caf, profundamente sombreados, e observavam a senhora Ryan como se 
ela fosse um novo espcime fascinante, apanhado entre as lminas de vidro de uma amostra de laboratrio.

Emma, a tua bebida.

Era Marcus. Ela arrastou os olhos de Ben e da senhora Ryan e voltou-se para ele aliviada.

TI a


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Ah, obrigada...

Ele sentou-se ao lado dela.

O Robert falou-te da pr-inaugurao?

Sim, falou.

Ests zangada connosco?

No.

E era verdade que no estava. No se podia estar zangada com um homem to sincero que ia to directo aos assuntos.

Mas no queres que ele v?

O Robert disse isso?

No, no disse. Mas eu conheo-te muito bem. E sei o quanto esperaste para estar com o Ben. Mas  por pouco tempo.

Claro. Ela olhou para a bebida. Ele vai mesmo, ento?

Vai, vai mesmo. Mas no antes do fim do ms.

Estou a ver.

Marcus disse com brandura:

Se quisesses ir com ele...

No. No, no quero ir  Amrica.

Importas-te de ficar sozinha?

No. No me incomoda. E, como tu dizes, no ser por muito tempo.

. Podias vir para Londres e ficar comigo e com a Helen. Podias ficar no quarto do David.

E onde  que o David dormia?

 muito triste, ele est num colgio interno. Partiu-me o corao, mas eu agora sou um ingls e o meu filho foi-me arrancado aos oito anos. Fica connosco, Emma. 
Em Londres h muitas coisas para ver. A Galeria Tate foi remodelada e est uma obra de arte...

Sem querer, Emma comeou a sorrir.

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De que te ests a rir, criana horrvel?

Estou-me a rir de seres to desavergonhado. Com uma mo levas o meu pai e com a outra ofereces-me a Galeria Tate. E acrescentou ela ningum se deu ao trabalho de 
me dizer que a senhora Ryan era a Rainha de Beleza do Sul da Virgnia.

Ns no sabamos respondeu Marcus. Nunca a tnhamos visto. Ela veio a Londres num impulso, entrou nas Galerias Bernstein anteontem, disse que queria falar com Ben 
Litton e foi a primeira vez que lhe pus a vista em cima.

Bem, vale, de facto, a pena pr-lhe a vista em cima.

Pois vale concordou ele. Observou a senhora Ryan com os seus olhos de cachorro triste. Olhou para Ben. Voltou a olhar para o seu martini e tocou na casca do limo 
com o indicador. Pois vale disse outra vez.

A chegada deles, tarde,  sala de jantar causou uma certa excitao. A melhor mesa tinha sido reservada para eles, a mesa redonda ao p da janela, e era necessrio 
atravessar a sala a todo o comprimento para l chegar. A senhora Ryan foi  frente, ciente da adulao de todos os olhos na sala e aparentemente despreocupada. Estava 
bastante habituada a isso. Atrs dela seguiu Marcus, com um aspecto coado, mas estranhamente distinto e obviamente interessante. Depois Robert e Emma e, por fim, 
Ben. Ben ficou para trs para apagar o cigarro e fez o que se chama a entrada de uma estrela, parando por momentos, na entrada, para falar com o chefe do servio, 
de forma que quando avanou para dentro da sala foi o nico centro das atenes.

"Ben Litton...  o Ben Litton", dizia-se em sussurro, enquanto ele passava por entre as mesas, magnfico no seu macaco azul francs, com o leno vermelho e branco 
atado ao pescoo, o cabelo branco espesso como o de um jovem, um caracol como uma vrgula caindo-lhe para a testa.

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"Ben Litton... sabes, o pintor."

Foi excitante. Toda a gente sabia que Ben Litton tinha um estdio em Porthkerris, mas se se estava determinado a v-lo de facto, tinha de se descer  cidade, encontrar 
um pub de pescadores chamado Sliding Tackle e a sentar-se, na escurido abafada, fazendo com que um copo de cerveja quente durasse o mais possvel, e esperar que 
ele entrasse. Assemelhava-se bastante a uma forma estranha de observar pssaros.

Mas naquele dia Ben Litton abandonara os seus lugares habituais e estava ali, no Hotel Castelo, prestes a comer um almoo de domingo, como qualquer outro ser humano 
normal. A montanha tinha ido a Maom. Uma senhora de uma certa idade observava-o descaradamente atravs do seu lorinho e ouviu-se mesmo um visitante texano lamentar 
o facto de ter deixado a mquina fotogrfica no quarto.

Emma trocou um olhar com Robert Morrow e conseguiu a tempo reprimir uma gargalhada.

Ben chegou, por fim,  mesa, instalou-se no lugar de honra,  direita da senhora Ryan, agarrou numa ementa e sugeriu, apenas levantando um dedo, que o empregado 
dos vinhos deveria ser chamado. Gradualmente, a excitao na sala de jantar esmoreceu, mas era bvio que seriam o objecto de todas as atenes durante o resto da 
refeio.

Emma disse para Robert:

Eu sei que no devia aprovar... que me devia envergonhar de um exibicionismo to evidente, mas ele sai-se sempre bem.

Bem, pelo menos fez-te rir e deixaste de parecer toda aflita e nervosa.

Podias ter-me dito que a senhora Ryan era jovem e bonita.

 de facto bonita. Mas no penso que seja to jovem como parece. Bem conservada  mais o termo.

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Isso  o tipo de observao de mau gosto que uma mulher faria.

Peo desculpa. Foi dito com a melhor boa vontade do mundo.

Mesmo assim devias ter-me dito.

No perguntaste.

No, mas eu fiz um comentrio qualquer sobre velhos americanos gordos e nem mesmo nessa altura me corrigiste.

Talvez no me tenha apercebido de que era to importante para ti.

Uma mulher bonita e Ben Litton, e no te apercebeste de que era importante?  muito mais do que isso:  letal. Pelo menos tu e o Marcus no precisam de fazer nenhum 
tipo de persuaso. O Ben vai para a Amrica. Um piscar daquelas pestanas e j estava a meio do Atlntico.

Acho que no ests a ser inteiramente justa. As pestanas mais compridas do mundo no o levariam a fazer nada que ele no quisesse fazer.

Pois no, mas ele nunca conseguiria resistir a um desafio.

A voz dela era fria. Robert disse:

Emma.

Ela virou-se para olhar para ele. O que ?

O teu despeito est a comear a notar-se. Ele tirou a medida ao dito entre o polegar e o indicador. S um bocadinho.

Pois... bem... Ela decidiu mudar de assunto. Quando  que voltas para Londres?

Esta tarde. Ele olhou para o relgio. Pelos vistos com algum atraso. Precisamos de nos ir embora assim que eu conseguir convencer a madame seis milhes.
 
Mas a senhora Ryan no estava nada preocupada. O almoo arrastou-se por quatro etapas, passando pelo vinho, pelo brande e pelo caf, servidos agora na vazia sala 
de jantar, porque ela no queria sair da mesa. Por fim, aproveitando uma pausa na conversa, Robert limpou a garganta e observou:

Marcus, desculpem interromper, mas acho que devamos pensar em irmos embora, temos uma viagem de quinhentos quilmetros pela frente.

A senhora Ryan parecia espantada.

Mas que horas so?

Quase quatro. Ela riu-se.

J!  como em Espanha. Uma vez fui a um almoo em Espanha e s nos levantmos da mesa s sete e meia da tarde. Porque  que o tempo passa to depressa quando estamos 
realmente a divertir-nos?

Causa e efeito disse Ben.

Do outro lado da mesa ela sorriu para Robert.

No quer partir j, pois no?

Bem... assim que for possvel.

Mas eu queria ver o estdio. No posso vir do outro lado do Atlntico at Porthkerris e no ver o estdio do Ben. No podamos s passar por l de caminho para Londres?

A sugesto, feita de nimo leve, foi recebida em silncio. Robert e Marcus pareceram ambos momentaneamente confusos: Robert porque no se queria demorar mais tempo 
e Marcus porque sabia que a coisa que Ben mais detestava era que lhe inspeccionassem o estdio. Emma tambm sentiu um aperto no corao. O estdio estava um caos: 
no o caos do Ben, que no tinha qualquer importncia, mas o seu prprio caos. Pensou no escadote, no balde de cal, no roupo turco e no fato-de-banho que ela tinha 
deixado
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abandonados no cho, nos cinzeiros a transbordar, no sof velho e na areia por todo o lado. Olhou para Ben, rezando para que ele recusasse. Olharam todos para Ben, 
como marionetas  espera para ver de que forma  que ele ia mexer os fios. Mas por uma vez ele no os deixou ficar mal.

Minha cara senhora Ryan, apesar do prazer que me daria mostrar-lhe o meu estdio, penso que devo fazer-lhe notar que este no fica no caminho para Londres.

Olharam todos para ela, para ver como  que iria encaixar aquilo, mas ela limitou-se a fazer uma cara feia. Eles riram-se de alvio e a senhora Ryan tambm acabou 
por se rir de boa vontade.

Est bem, eu sei quando sou vencida. Comeou a agarrar na mala e nas luvas. Mas h mais uma coisa. Vocs foram todos to simpticos comigo que eu no quero continuar 
a ser uma estranha. O meu nome  Melissa. Acham que so capazes de me chamar assim?

E mais tarde, enquanto os homens estavam a carregar o carro, pde conversar a ss com Emma.

Voc foi especialmente simptica observou. O Marcus disse-me que tinha voltado de Paris para estar com o seu pai, e aqui estou eu a afast-lo de si outra vez.

Emma, que sabia que no tinha sido especialmente simptica, sentiu-se culpada.

A exposio tem de estar primeiro.

Eu tomo bem conta dele prometeu Melissa Ryan. "Pois", pensou Emma, "tenho a certeza de que sim."

E, no entanto, sem querer, gostara da americana. Havia qualquer coisa no porte do queixo dela e na claridade dos seus olhos azul-violeta que fazia Emma perguntar-se
se, dessa vez, o Ben no teria prazer na sua habitual vitria fcil. E se as coisas no corressem a sua maneira logo desde o incio,

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era muito provvel que ele desencorajasse. Ela sorriu para a senhora Ryan. Retorquiu:

Suponho que em breve ele estar outra vez em casa. Agarrou na pele de marta cor de mel que se encontrava

nas costas de uma cadeira e ajudou a senhora Ryan a vesti-la. Saram do hotel juntas. Estava mais frio agora. O calor do Sol tinha desaparecido e um frio glacial,
como geada, elevava-se do mar. Robert pusera a capota do Alvis e Melissa, embrulhada na pele de marta, foi despedir-se de Ben.

Mas no  um adeus respondeu-lhe, segurando-lhe na mo e olhando-a nos olhos.  um au revoir.

Claro. E se me mandar dizer quando  que o seu avio chega ao aeroporto Kennedy, arranjo maneira de algum o ir esperar.

Marcus disse:

Eu fao isso. O Ben nunca na vida mandou dizer nada a ningum, muito menos horas de chegada. Adeus, Emma, minha querida, e no te esqueas de que te convidei para 
ficares connosco o tempo que quiseres quando o Ben estiver na Amrica.

s um amor, Marcus. Nunca se sabe. Sou muito capaz de ir.

Beijaram-se. Ele entrou para o banco de trs e Melissa Ryan para o da frente, as suas pernas elegantes enroladas na manta do carro de Robert. Ben fechou a porta, 
depois baixou-se para continuar a sua conversa com ela atravs da janela aberta.

Emma. Era Robert. Ela voltou-se.

Oh, adeus, Robert.

Para surpresa dela, ele tirou o seu bon e inclinou-se para a beijar.

Ficas bem?

Ela ficou sensibilizada.

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Fico, claro.

Se quiseres alguma coisa, d-me uma apitadela para a galeria.

O que  que eu poderia querer?

No sei.  s uma ideia. Adeus, Emma. Ficaram, ela e Ben, a olhar at o carro desaparecer ao

longo do tnel de rvores. Depois da partida, nenhum deles falou, at que Ben limpou a garganta e observou, com ar srio, como se estivesse a dar uma aula:

Que cabea to interessante que aquele jovem tem. O crnio estreito e os maxilares fortes. Gostava de o ver de barba. Dava um bom santo, ou talvez um pecador. Gostas 
dele, Emma?

Ela encolheu os ombros.

Suponho que sim. Mal o conheo.

Ele voltou-se para se irem embora e viu o pequeno grupo de hspedes do hotel que, de partida para passeios, vindos do golfe, ou sem nada que fazer, se agarravam 
ao menor sinal de distraco, tinham ficado para testemunhar a partida de Melissa. Quando Ben os fixou com os seus olhos negros, ficaram desconcertados, viraram 
as costas e comearam a andar como se tivessem sido apanhados a fazer qualquer coisa vergonhosa.

Ele abanou a cabea estupefacto e disse:

Acho que j me chega de ser olhado como se fosse um chimpanz com duas cabeas. Anda, vamos para casa.
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III

Ben Litton partiu para a Amrica no fim de Maro, viajando de Porthkerris para Londres via British Railways e de Londres para Nova Iorque num Boeing da BOAC. No
ltimo momento, Marcus Bernstein decidiu ir com ele e os jornais da tarde traziam fotografias da partida de ambos Ben com o seu cabelo branco como uma crista ao 
sabor da brisa e Marcus quase obliterado pelo seu chapu preto. Ambos pareciam ligeiramente constrangidos.

Foi de Marcus que Emma recebeu o molho de jornais americanos que traziam nas suas colunas os comentrios de todos os crticos conceituados do pas. Eram unnimes 
nos elogios que faziam do projecto do Museu de Belas-Artes de Queenstown. As artes aclamavam-no como um exemplo perfeito de arquitectura, luminosidade e exposio 
imaculada. E a exposio de Ben Litton era coisa a no perder, de forma alguma. A obra do artista nunca mais voltaria a estar na sua totalidade patente ao pblico 
e os dois ou trs retratos pr-guerra, emprestados por particulares, s por si valiam uma visita, quanto mais no fosse para ver como um nico homem podia ser pintor, 
psiquiatra e confessor ao mesmo tempo.

"Ben Litton usa o seu pincel como um bisturi de cirurgio, primeiro pondo a descoberto a doena, escondida, depois tratando-a com extrema compaixo."

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A palavra "compaixo" tambm era utilizada em relao aos seus desenhos do tempo da guerra os grupos dos abrigos clandestinos, os combatentes isolados e uma srie 
de esboos salvos do tempo da ofensiva aliada em Itlia. Da sua obra do ps-guerra, diziam: "H pintores que partem para a abstraco a partir da Natureza. Ben Litton 
parte para a abstraco a partir da imaginao, e uma imaginao to viva que  difcil acreditar que estas pinturas vitais no tenham sido produzidas por um homem 
de metade da sua idade."

Emma leu as crticas e deixou-se invadir pelo orgulho. A pr-inaugurao teve lugar a 3 de Abril e a 10 ainda no havia notcia do regresso de Ben, mas ela ocupou 
os dias com tarefas domsticas de passar o tempo e acabou por se mudar para o estdio para acabar de o caiar. Isto exigia-lhe pouca concentrao mental e a sua mente 
vagueava pelo futuro, entregando-se ao tipo de sonhar acordada, a que, um ms antes, nunca se teria dado ao luxo. Mas agora sentia que as coisas tinham mudado. Quando 
fora  estao levar Ben ao comboio para Londres, ele tinha-lhe dado um beijo de despedida com ar distrado,  certo, como se se tivesse esquecido, por momentos, 
de quem ela era, mas ainda assim tinha-a beijado, o que era, seguramente, um marco. E quando, eventualmente, ele se fartasse da adulao do pblico americano e regressasse 
a Porthkerris, ela via-se a ir esper-lo ao comboio, prtica e eficiente, a secretria perfeita. Talvez da prxima vez que ele partisse para um canto distante, mas 
obviamente colorido, do Globo, levasse Emma, e ela reservaria os bilhetes, trataria das ligaes e manteria Marcus informado dos movimentos dele.

Depois, um dia ou dois mais tarde, chegou uma carta de Marcus, com o carimbo de Londres. Ela abriu-a esperanosa, pensando que lhe diria que Ben vinha a, mas, na 
verdade,

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era simplesmente para dizer que Marcus voltara para Londres sozinho e que Ben tinha ficado em Queenstown.

O Museu de Belas-Artes  fascinante e se eu pudesse tambm tinha ficado. Abarca todas as formas de arte, tem um pequeno teatro e sala de concertos e uma coleco 
de joalharia russa que tem de ser vista para se acreditar. A cidade de Queenstown em si  encantadora, cheia de casas georgianas de tijolo vermelho, plantadas em 
relvados verdes e veladas por cornizos em flor... parece que esto l todas desde o tempo de Guilherme e Maria, mas, na verdade, vi uma em processo de construo 
o relvado a ser moldado em formas arredondadas e os cornizos em pleno desenvolvimento. , de certeza, o que d viver num clima quente e temperado.

Redlands (a propriedade dos Ryan)  uma enorme casa branca com um "trio coberto" assente em colunas, onde o Ben se instala numa cadeira de repouso e manda vir refrescos 
de menta por um mordomo chamado Henry. O Henry vai trabalhar todos os dias num Chevrolet lils e espera, num futuro no muito longnquo, vir a ser advogado.  um 
jovem brilhante e merece realizar a sua ambio. Tambm h uma srie de campos de tnis, uma cerca vedando um campo com cavalos fogosos e a inevitvel piscina. O 
Ben, como podes imaginar, no monta nem joga tnis, mas, quando no est a acrescentar alguma cor local  exposio retrospectiva, passa longas horas a flutuar na 
piscina num colcho de borracha. Lamento que ele tenha ficado longe de ti durante tanto tempo, mas acredito, sinceramente, que precisa deste descanso. Trabalhou 
duramente ao longo dos ltimos anos e um pouco de descontraco

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inofensiva no lhe far mal nenhum. Se te sentires sozinha, o nosso convite continua de p. Anda ficar connosco. Gostvamos tanto que viesses. Saudades.

Marcus.

A caiao estava acabada e o cho do estdio esfregado. Os desenhos do Ben tinham sido empilhados e guardados em pastas numeradas. As suas canetas e pincis postos 
por ordem e diversas bisnagas de tinta de leo solidificada, em tempos utilizadas e depois abandonadas, tinham sido discretamente atiradas para o caixote do lixo.

No havia mais nada para fazer.

Ele tinha partido havia duas semanas quando chegou o postal de Christopher. Emma estava em casa, na cozinha, a fazer caf e sumo de laranja, ainda embrulhada no 
roupo e com o cabelo atado atrs num rabo-de-cavalo, quando o carteiro, que era um jovem atrevido de camisa aberta no peito, enfiou a cabea pela porta e disse:

Como ests esta manh, beleza?

ptima, obrigada respondeu Emma, que andava a contas com o atrevimento dele, desde que tinha voltado de Paris.

Ele acenou-lhe com um molho de cartas.

Todas para o teu velho. Mas., aqui... est um postal para ti. Observou a gravura antes de Emma lho arrancar da mo. Essas coisas so to vulgares que no sei como 
 que tipos decentes as compram.

Pois claro que no sabes disse Emma rudemente, mal vendo a senhora gorda de biquini antes de voltar o postal para ver de quem era. O carimbo era de Brookford.

Querida Emma, quando  que vens visitar-me? No posso ir ver-te porque andamos atarefadssimos com os

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ensaios de Dead on Time. O telefone de Brookford  o
678 e a melhor hora  por volta das dez da manh, antes de comearmos a trabalhar. O encenador  um tipo simptico, o contra-regra um pavor, todas as raparigas tm 
sardas e no so to bonitas como tu. Saudades saudades saudades.

Christo.

A cabina telefnica mais prxima ficava quase a dois quilmetros, por isso Emma desceu a rua at  mercearia a cair de velha, onde comprou cigarros, enlatados e 
sabonetes, e telefonou da.

Era um telefone antigo, com o auscultador em partes separadas e um gancho onde se carregava para chamar a telefonista. Emma sentou-se em cima de uma grade de cerveja 
e esperou que a ligao fosse feita, enquanto uma gata cinzenta e branca, gorda como uma almofada, se veio deitar em cima dos joelhos dela.

O telefone foi por fim atendido por uma mulher de ar zangado.

Teatro Brookfield.

Posso falar ao Christopher Ferris?

No sei se ele j chegou.

Importava-se de ver?

Eu vou ver. Quem  que lhe digo que ?

Diga-lhe que  Emma.

A mulher zangada afastou-se. Podia ouvir-se vrias vozes, tagarelando. Um homem l longe gritava: "Eu disse aqui e no ali, sua estpida." Depois ouviram-se passos 
e uma voz. Era Christo.

Emma.

Ests a No sabiam se estavas.

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Claro que estou... vamos comear a ensaiar dentro de cinco minutos... Recebeste o meu postal?

Esta manh.

O Ben leu-o?

Ele esperava, obviamente, que ele o tivesse lido.

O Ben no est c. Est na Amrica. Pensei que soubesses.

Como  que havia de saber?

Tem vindo em todos os jornais.

Os actores no lem jornais e se o fazem  sempre para lerem sobre teatro. Mas se o velho est na Amrica, porque  que no me disseste e no vieste fcar comigo?

Por mil razes.

Diz duas.

Bem, ele s tencionava ficar uma semana, no mximo. E eu no sabia onde  que tu estavas.

Eu disse-te. Em Brookford.

Eu nem sequer sei onde  que fica Brookford.

A trinta e cinco minutos de Londres e h comboios de meia em meia hora. Vem, anda, por favor. Vem e fica comigo. Estou a morar numa cave sinistra. Cheira a caruncho 
e a gatos velhos, mas  muito acolhedora.

Christo, no posso. Tenho de ficar aqui. O Ben vai voltar a qualquer momento, e...

Contaste-lhe que me voltaste a encontrar?

No, no contei.

Porqu?

O assunto no veio  baila.

Queres dizer que tiveste medo?

No foi nada disso. Era simplesmente... irrelevante.

Nunca ningum me chamou irrelevante e se ficou a rir. Oh, gatinha, vem l. O meu pequeno ninho de cave precisa do toque de uma mulher. De ser esfregado e assim, 
ests a ver?

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No posso ir antes de o Ben voltar para casa. Depois vou tentar.

Nessa altura vai ser demasiado tarde. J terei mandado limpar tudo. Por favor. Arranjo-te um bilhete de graa para o espectculo. Ou dois bilhetes e podes trazer 
uma amiga. Ou trs bilhetes e podes traz-las todas.

A voz dele dissolveu-se num tom de riso. Ele sempre se tinha rido das prprias piadas.

Sim, muito engraadinho retorquiu Emma, mas tambm se estava a rir.

Ests s a fazer-te cara. No ficaste comigo em Paris nem vens cuidar da lida da casa nas regies selvagens de Surrey. O que  que eu tenho de fazer para conquistar 
o teu corao?

Conquistaste-o h anos e  teu desde ento. A srio, estou desejosa de te ver. Mas no posso ir. No posso ir antes de o Ben voltar.

Christo disse um palavro.

O telefone comeou a fazer pip-pi-pip.

Ento ficamos assim disse Christo. Avisa-me quando mudares de ideias. Adeus.

Adeus, Christo.

Mas ele j tinha desligado. Sorrindo com ar tolo e recordando cada palavra que ele dissera, ela voltou a pousar o auscultador. A gata nos seus joelhos ronronou e 
Emma percebeu que ela estava prestes a produzir uma famlia a qualquer momento. Um velhote entrou na loja para comprar duas onas de tabaco e, quando ele saiu, Emma 
agarrou na gata, p-la com jeito no cho e procurou no bolso moedas para pagar a chamada.

Quando  que os gatinhes nascem? perguntou. A velhota por trs do balco chamava-se Gertie e usava

dentro e fora de casa uma enorme boina que lhe caa para cima das sobrancelhas.

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S o tempo o pode dizer, minha querida. Ela ps o dinheiro de Emma dentro da sua gaveta, que era uma lata velha, e deu-lhe o troco. S o tempo o pode dizer.

Obrigada por me ter deixado usar o seu telefone.

Foi um prazer respondeu Gertie, que estava sempre de ouvido desavergonhadamente  escuta e voltava a transmitir cada palavra do que ouvira.

Em Maro parecia estar-se em pleno Vero. Agora, em Maio, fazia um frio de Novembro e chovia a cntaros. Ele nunca tinha concebido Porthkerris com chuva: sempre 
a imaginara com os azul-brilhantes do Vero, alegre com as asas brancas das gaivotas e dos iates, tudo deslumbrante  luz de um sol resplandecente. Mas agora as 
vagas de chuva, levadas por um vento cortante de oeste, eram atiradas contra as janelas do hotel como punhados de seixos. As rajadas de vento faziam bater as janelas, 
depois assobiavam por baixo das portas, entravam pelas chamins e faziam voar cortinados, um vento glido e inelutvel.

Era sbado e Robert, deitado na cama, tinha estado a dormir. Olhou para o relgio e viu que faltavam cinco para as trs, por isso pegou num cigarro, acendeu-o e 
continuou deitado a olhar o cu plmbeo que ultrapassava a janela a grande velocidade e  espera que o telefone tocasse.

O telefone tocou precisamente s trs. Ele levantou o auscultador.

So trs horas disse o porteiro.

Muito obrigado.

Tem a certeza de que est acordado?

Tenho. Estou acordado.

Terminou o cigarro, apagou-o, vestiu o roupo turco branco e dirigiu-se  casa de banho para tomar um duche quente. No gostava de dormir  tarde, detestava acordar

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com a boca pastosa e a sentir que estava  beira de uma violenta dor de cabea, mas depois de ter conduzido desde Londres, durante toda a noite, fora impossvel 
ficar acordado. Tinha almoado cedo e deixado recado ao porteiro para o chamar. Mas o vento, assobiando enquanto ele dormia, acordara-o primeiro.

Vestiu-se, ps uma camisa lavada, deu o n na gravata, agarrou no casaco do fato e depois mudou de ideias e vestiu antes uma camisola de l de gola alta. Penteou-se, 
meteu as coisas que tinha em cima do toucador nos bolsos das calas, tirou uma gabardina de trs da porta e desceu.

No salo ouvia-se o silncio do meio da tarde. Residentes mais idosos dormitavam, ressonando levemente no ar seco aquecido. Praticantes de golfe frustrados observavam 
a chuva, chocalhando moedas nos bolsos das calas de golfe, perguntando-se se o tempo iria levantar, se haveria tempo para nove buracos antes de escurecer.

O porteiro aceitou a chave de Robert e pendurou-a.

Vai sair?

Vou, e talvez o senhor me possa ajudar. Eu queria ir  Galeria da Sociedade dos Artistas. Creio que  uma antiga capela transformada. Faz alguma ideia de onde fica?

 l em baixo na parte velha da cidade. Conhece o caminho?

Conheo o Sliding Tackle disse Robert, e o porteiro sorriu. Gostava de homens que tinham pubs como referncia.

Bem... vai como se fosse para o Sliding Tackle, mas volta para cima na rua antes de l chegar. Sobe na direco oposta ao porto.  uma rua estreita muito ngreme, 
que vai dar a um largo. A galeria fica do outro lado do largo. V-se logo. Tem grandes cartazes c fora... apesar de ningum conseguir perceber o que  que querem 
dizer...

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Bem, vamos l a ver. Muito obrigado.

No tem de qu. O porteiro rodou a porta giratria e Robert foi atirado para o frio cortante. A chuva batia-lhe na cabea desprotegida, ele recolheu-se mais para 
dentro da gabardina e atravessou cautelosamente a gravilha, tentando evitar as poas maiores. J dentro do carro este cheirava a hmido e a mofo, cheiros estranhos 
que se sobrepunham aos habituais de couro e de cigarros. Ligou o motor e o aquecimento comeou a zumbir. Havia uma folha presa no limpa-vidros, mas quando ele o 
ligou a folha foi desalojada e arrancada do vidro molhado pelo vento.

Desceu para a cidade completamente deserta, abandonada, os seus habitantes em estado de stio devido ao tempo. Apenas um polcia ensopado estava de servio no sop 
da colina e uma velhinha debatia-se com um guarda-chuva. As ruas estreitas funcionavam como chamins para o vento, que afunilava por elas acima, frio e feroz como 
uma torrente, e quando entrou na estrada do porto viu que a mar estava cheia e o prprio porto cinzento e agitado por ondas de crista branca.

Encontrou a rua que o porteiro lhe descrevera. Subia na direco oposta do porto, entre casas amontoadas, as pedras da rua molhadas e brilhantes como as escamas 
de um peixe acabado de pescar. Subia at ao cimo da colina e dava para um largo pitoresco. Robert viu a antiga capela, um edifcio sombrio e slido que contrastava 
em absoluto com o cartaz que tinha  porta.

SOCIEDADE DE ARTISTAS DE PORTHKERRIS

EXPOSIO DE PRIMAVERA

Entrada 5 xelins

Por baixo deste havia um estranho motivo em prpura

- a sugesto de um olho aberto, uma mo de seis dedos.

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Robert pensou que era capaz de compreender o ponto de vista do porteiro.

Estacionou o carro, subiu os degraus molhados, entrou e foi imediatamente assaltado pelo cheiro de um aquecedor a petrleo. Viu que a antiga capela tinha sido caiada, 
as paredes acrescentadas em altura para exibir altas janelas interiores e tinha liberalmente pendurados quadros de todos os tipos e tamanhos.

Logo depois da porta da entrada estava uma senhora de chapu de feltro com os joelhos cobertos por uma manta. De um lado, tinha uma mesa de madeira com catlogos 
e uma tigela de dinheiro, do outro o aquecedor a petrleo, ao calor do qual tentava aquecer um par de mos de ns de dedos vermelhos.

Ah, feche a porta, feche a porta implorou quando Robert entrou trazido por uma rajada de vento. Ele encostou-se  porta, fechando-a e procurando no bolso das calas 
duas meias-coroas. Que dia mais frio continuou ela, e  isto o Vero. O senhor  o meu primeiro visitante esta tarde.  um visitante, no ? No  uma cara que eu 
tenha visto por a.

No, nunca aqui estive antes.

Temos uma coleco bastante interessante. Vai querer um catlogo, claro. Mais meia-coroa, por favor. Mas penso que concordar comigo que vale a pena.

Obrigado disse Robert, mal se ouvindo. Agarrou no catlogo, decorado com o mesmo motivo

prpura do olho e da mo que o cartaz l fora, e abriu-o ao acaso, percorrendo com os olhos a lista de artistas  procura do nome que procurava.

Hum... algum artista em particular? A mulher que estava  secretria parecia hesitante, mas tinha um brilho indiscreto nos olhos.

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No... nenhum em particular.

Apenas interessado em geral, suponho. Est instalado em Porthkerris?

Estou... Ele comeou a afastar-se dela. De momento estou.

Robert comeou a percorrer devagar a longa sala, fingindo interesse por todos os quadros. Tinha encontrado o nome, Pat Faraaby. Nmero 24. A Viagem, de Pat Farnaby. 
Parou bastante tempo no nmero 23, depois continuou.

A cor saltou-lhe  vista. Havia uma sensao de grande altura, uma sensao estonteante, como a vertigem. E, no entanto, ao mesmo tempo uma sensao de elao, como 
se se estivesse por cima das nuvens, preso, suspenso, entre o azul e o branco.

"Tens de l ir", tinha dito Marcus. "Quero que formes uma opinio tua. No podes continuar o homem que guarda os livros o resto da tua vida. Alm disso, gostava 
de ver a tua reaco."

E fora assim. Aquela nota alta e pura de cor simples.

Algum tempo depois, voltou ao p da senhora insistente. Tinha a conscincia de que ela o tinha estado a observar o tempo todo. "Agora", pensou, "estava de olho a 
brilhar como um pisco ansioso  espera de uma migalha."

Aquele  o nico quadro de Pat Farnaby?

Receio bem que sim. Foi tudo o que conseguimos persuadi-lo a trazer-nos.

Ele vive por aqui, no vive?

Vive. Na Gollan.

Gollan?

Fica a uns dez quilmetros, na estrada do pntano.  uma quinta.

Quer dizer que ele  agricultor?

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No, no. Ela riu-se. "Felizmente", pensou Robert, como se ela estivesse a seguir as indicaes tcnicas de uma pea antiga. Ele mora no palheiro por cima do celeiro. 
Aqui. Ela puxou para si um pedao de papel e escreveu uma morada. Se quer visit-lo, tenho a certeza de que o encontrar aqui.

Ele agarrou no papel.

Muito obrigado.

Comeou a encaminhar-se para a porta.

Mas no quer ver o resto da exposio?

Talvez noutra altura.

 to interessante. Parecia que o seu corao se partiria se ele no visse mais alguns quadros.

Tenho a certeza que sim. Mas fica para outra vez. Foi nesse momento que pensou em Emma Litton. Com a mo na maaneta, virou-se para trs. J agora, se eu quisesse 
encontrar a casa de Ben Litton...  perto daqui? A casa, no  o estdio.

Sim, claro,  mesmo ao virar da esquina. A cerca de uns duzentos metros estrada abaixo. Tem um porto azul. V-se logo. Mas sabe que o senhor Litton no est, no 
sabe?

Sim, eu sei.

Est na Amrica.

Sim, tambm sei disso.

Continuava a chover a cntaros. Ele voltou a entrar no carro, ps o motor a trabalhar e conduziu-o por uma rua abaixo to estreita quanto inclinada. Ao p do porto 
azul deixou-o estacionado, ocupando a rua toda, entrou pelo porto, desceu um lano de escadas, que conduziam a um ptio de laje onde havia vasos de plantas que 
pareciam afogadas e um banco de madeira pintado, lentamente desintegrado pela humidade. A casa em si era longa e baixa, de rs-do-cho.

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mas os telhados desnivelados e os tubos de chamin desiguais indicavam que tinham sido em tempos duas pequenas casas, ou mesmo trs. Aporta da frente estava pintada 
de azul, a condizer com o porto, e tinha um golfinho de cobre como aldraba.
Robert bateu. Um jorro de gua escorreu de cima de uma goteira defeituosa, molhando-o. Ele recuou, olhou para cima, para ver de onde vinha a gua, e ao faz-lo a
porta abriu-se.

Ele disse:

Boa-tarde. A goteira tem um buraco.

De onde diabo surgiste tu?

De Londres. Devias mand-la arranjar, seno enferruja.

Vieste de Londres para me dizer isso?

No, claro que no. Posso entrar?

Claro... Ela afastou-se para trs segurando a porta aberta, para ele entrar. Tu s do mais desconcertante que pode haver. Ests sempre a aparecer sem mais nem menos, 
sem avisar.

Como  que algum te pode avisar se no tens telefone? E no havia tempo para cartas.

 sobre o Ben?

Robert entrou, baixando a cabea sob o lintel da porta, enquanto desabotoava a gabardina molhada.

No. Deveria ser?

Pensei que ele talvez tivesse chegado.

Pelo que sabemos, ainda se est a bronzear ao balsmico sol da Virgnia.

Bom, ento?

Ele virou-se para olhar de frente para ela. Ocorreu-lhe ento que, de uma forma estranha, ela era to imprevisvel como o prprio tempo. Cada vez que a via, ela 
parecia uma

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pessoa diferente. Naquele dia usava um vestido de riscas vermelhas e laranja e meias pretas. Tinha o cabelo apanhado atrs, na nuca, com um travesso de tartaruga, 
e a franja crescera. Estava demasiado comprida, ia meter-se-lhe nos olhos, conferia-lhe um olhar vesgo. Enquanto a olhava, ela puxou a franja para trs, tirando-a 
da cara com a palma da mo. Era um gesto simultaneamente defensivo e desarmante que a fazia parecer muito jovem.

Ele tirou o pedao de papel do bolso e estendeu-lho. Ela leu-o em voz alta.

Pat Farnaby, quinta Gollan Home. Olhou para ele. Onde  que arranjaste isto?

Deu-me a mulher da galeria de arte.

Pat Farnaby?

O Marcus est interessado.

Porque  que no veio ele?

Queria uma segunda opinio. A minha.

J formaste alguma?

 difcil de dizer depois de ver s um quadro. Pensei que talvez conseguisse ver mais alguns.

Emma advertiu:

Ele  um jovem muito estranho.

Eu j estava  espera disso. Sabes onde fica a quinta Gollan?

Claro. Pertence ao senhor e  senhora Stevens. Costumvamos ir fazer piqueniques de Vero nos rochedos. Mas desde que cheguei ainda no os fui visitar.

Podes vir comigo agora? Para me indicar o caminho?

Como  que vamos?

O carro est l fora. Eu vim de carro de Londres a noite passada.

Deves estar exausto.

No, dormi um bocado.

105


Onde  que ests instalado?

No hotel. Podes vir? Agora?

Claro.

Vais precisar de um casaco. Emma sorriu-lhe.

Se puderes esperar trinta segundos, eu vou buscar um.

Depois de ela sair, o barulho dos seus passos ouviu-se num corredor sem passadeira. Robert acendeu um cigarro e ficou a olhar em volta, intrigado no s pela forma 
estranha da casa mas tambm porque esta representava o lado menos familiar, o lado domstico da personalidade tempestuosa de Ben Litton.

A porta da frente azul tinha-o conduzido directamente para a sala de jantar, de tecto baixo e com pouca luz. Havia uma grande janela, com vista para o mar, o seu 
parapeito profundo apinhado de plantas de interior gernios, hera e um pote vitoriano cheio de rosas cor-de-rosa. O cho era de laje, semeado de tapetes de cores 
vivas, havia livros e revistas por todo o lado e muita cermica espanhola azul e branca. Numa lareira de granito, ao nvel do cho, um tronco ardia lentamente, flanqueado 
por cestos de lenha molhada; por cima dela estava pendurado o nico quadro da sala.

O seu olho profissional tinha reparado nele assim que entrara, mas agora aproximou-se para o inspeccionar mais de perto. Era um grande leo de uma criana em cima 
de um burro. A menina usava um vestido vermelho, segurava um ramo de margaridas brancas e tinha uma coroa delas nos seus cabelos negros. O burro estava enterrado 
at aos joelhos na luxuriante erva de Vero e l muito atrs o mar e o cu inundados por uma nvoa de bom tempo. Os ps pendentes da menina estavam descalos e os 
olhos pareciam claros no brilho moreno do seu rosto.

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Emma Litton, pelo pai. Robert perguntava-se quando  que teria sido pintado.

O vento elevou-se, com um sbito guincho de bruxa, e atirou uma torrente de chuva contra a janela. Era um som arrepiante e ele capacitou-se de que aquele podia ser 
um stio solitrio para se viver; perguntou-se o que  que Emma encontraria para fazer num dia assim. Quando ela voltou, trazendo o casaco e um par de botas de borracha, 
que comeou a calar, ele perguntou-lhe isso mesmo.

Oh, limpo a casa, cozinho e vou s compras. Tudo isso leva bastante tempo.

E esta tarde? O que  que estavas a fazer esta tarde quando eu bati  porta?

Emma puxou com fora a bota que estava a calar.

Estava a passar a ferro.

E  noite? O que  que fazes  noite?

Normalmente saio. Dou passeios e coisas assim. Vou ver as gaivotas e os corvos-marinhos. Vejo o pr do Sol, apanho lenha para a lareira...

Sozinha? No tens amigos?

Tenho, mas os midos que viviam aqui quando eu era pequena cresceram todos e foram-se embora.

Parecia uma resposta triste. Num impulso, Robert disse:

Podias voltar comigo para Londres. A Helen ia adorar que fosses.

Sim, eu sei, mas no vale a pena, pois no? Afinal de contas, o Ben vai voltar de um momento para o outro.  s uma questo de dias.

Ela comeou a vestir o casaco. Era azul-marinho e juntamente com as meias pretas e as botas de borracha parecia uma menina de escola.

Tiveste notcias do Ben? perguntou Robert.

Do Ben? Deves estar a brincar.

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Comeo a desejar que nunca tivssemos sugerido que ele voltasse  Amrica.

Porqu?

Porque no parece justo em relao a ti.

Oh, pelo amor de Deus, eu estou bem. Ela sorriu.

Vamos?

A quinta dos Stevens ficava numa extenso cinzenta de pntano que se estendia at aos rochedos. Coberta de lquenes cinzentos, embutida como uma pedra perfurando 
a terra, poderia ser simplesmente mais um afloramento maior de granito. O caminho que descia a partir da estrada causava uma ferida profunda entre as altas vedaes 
de pedra, coroadas de espinheiros e silvas. O carro avanou aos solavancos pelo caminho abaixo, atravessou uma pequena ponte, um bando de gansos brancos e, por fim, 
o terreiro estridente da quinta, devido ao cantar de um galo pequeno.

Robert parou o carro e desligou o motor. O vento estava a amainar, a chuva parecia ter congelado num nevoeiro vindo do mar, denso como fumo. Havia vrios sons de 
quinta

vacas a mugir, galinhas a cacarejar, a trepidao distante de um tractor.

Agora como  que eu encontro o homem? perguntou Robert.

Ele vive no palheiro do celeiro... sobe os degraus at  porta dele.

Os degraus de pedra j estavam ocupados por uma srie de galinhas molhadas, bicando gros de cereais, e por um gato malhado com ar aborrecido. Por baixo deles, na 
lama do terreiro, uma enorme porca chapinhava para trs e para diante. Havia um forte cheiro a estrume. Robert suspirou.

As coisas que eu tenho de fazer em nome da Arte. Abriu a porta do carro e comeou a sair. Queres vir?

Penso que serei mais til se no for atrapalhar.

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Vou tentar no me demorar muito.

Ela observou-o enquanto ele atravessava, com cuidado, o ptio alagado da quinta, afastava a porca com o p e subia cautelosamente os degraus. Ele bateu  porta e 
depois, quando no houve resposta, abriu-a e entrou. A porta fechou-se atrs dele. Quase ao mesmo tempo abriu-se outra porta, na casa da quinta desta vez, e a senhora 
Stevens surgiu, de botas, impermevel at aos tornozelos e chapu de oleado preto. Trazia um grande pau e descia o caminho do jardim, espreitando por entre a chuva 
para ver quem  que estava dentro do grande carro verde.

Emma abriu a janela.

Ol, senhora Stevens. Sou eu.

Quem?

Emma Litton.

A senhora Stevens desfez-se numa exclamao de espanto deliciado e levou a mo ao peito.

Emma! Mas que surpresa! No te vejo sabe Deus h quanto tempo. O que  que ests aqui a fazer?

Vim com um senhor que queria falar com o Pat Farnaby. Est l em cima com ele.

O teu pai j voltou?

No, ainda est na Amrica.

Ests sozinha, ento.

 isso mesmo. Como est o Ernie? O Ernie era o senhor Stevens.

Est ptimo, mas hoje teve de ir  cidade, ao dentista, por causa da placa. D-lhe vmitos, mal consegue mante-la na boca. Por isso sou eu quem tem de recolher as 
vacas...

Num impulso, Emma disse:

Eu vou consigo...

Est tudo molhado.

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Eu tenho botas... alm disso, vou gostar do passeio. Na verdade, ela gostava da senhora Stevens, uma mulher que se mantinha inesgotavelmente alegre em todas as circunstncias. 
Atravessaram a vedao e comearam a andar no campo alagado.

Tens estado no estrangeiro, no tens? perguntou a senhora Stevens. No sabia que tinhas voltado. Foi uma pena o teu pai ter de partir assim. Mas suponho que no
se pode evitar, sendo ele o tipo de homem que ...
A entrevista com Pat Farnaby foi difcil, no mnimo. Ele era um jovem impetuoso, muito plido e subalimentado, com uma guedelha ruiva e barba a condizer. Os seus
olhos eram verdes e desconfiados como os de um gato faminto e parecia estar muito sujo. Os seus aposentos tambm transpiravam sujidade, mas isto Robert j esperava, 
e, por conseguinte, ignorou-o.

O que ele no esperava, contudo, era tanta agressividade. Pat Farnaby no gostava que estranhos entrassem sem serem convidados nem anunciados quando estava a trabalhar. 
Robert desculpou-se e explicou que estava ali para tratar de negcios, perante o que o jovem lhe perguntou simplesmente o que  que ele estava a tentar vender.

Vencendo a irritao, Robert tentou outra tctica. Com alguma cerimnia apresentou o carto de Marcus Bernstein.

O senhor Bernstein pediu-me que viesse visit-lo, talvez ver o seu trabalho, descobrir quais so os seus planos...

No tenho planos nenhuns respondeu o artista. Eu nunca fao planos. Tratou o carto como se estivesse contaminado e no devesse ser tocado, de forma que Robert foi 
obrigado a p-lo no canto de uma mesa cheia de tralha desarrumada.

Vi o seu quadro na galeria em Porthkerris, mas  s um quadro.

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O OUTRO LADO DO AMOR

E ento?

Robert limpou a garganta. O Marcus era infinitamente melhor a tratar daquele tipo de coisas, nunca perdia a calma. Aquela pacincia levava tempo a cultivar, Robert 
sabia-o. A sua estava a escorregar-lhe como uma corda gordurosa por entre os dedos. Agarrou-a com mo firme.

Gostava de ver mais alguns dos seus trabalhos. Os olhos plidos de Pat Farnaby semicerraram-se.

Como  que me encontrou? perguntou, suando como um criminoso encurralado.

Deram-me a sua morada na galeria. Emma Litton veio comigo para me indicar o caminho. Talvez conhea a Emma.

Tenho-a visto por a.

Pareciam no estar a chegar a lado nenhum. No silncio que se seguiu, Robert deixou os seus olhos percorrerem o estdio malcheiroso. Havia apenas os sinais mais 
srdidos de habitao humana uma cama como um ninho a desintegrar-se, uma frigideira suja, umas meias nojentas de molho dentro de um balde, uma lata de feijes aberta, 
o rebordo denteado da tampa levantado. Mas tambm havia muitas telas, amontoadas, espalhadas, em cima de cadeiras, encostadas s paredes. Um potencial tesouro desconhecido. 
Ansioso por inspeccion-las, arrastou os olhos para voltar a encarar o olhar fixo e frio do artista.

Disse por fim, com brandura:

Senhor Farnaby, eu no tenho todo o tempo do mundo.

Posta  prova, a resistncia de Pat Farnaby quebrou-se. Pareceu ficar de imediato inseguro. A arrogncia e a rudeza eram as suas defesas contra os caprichos de um 
mundo mais sofisticado. Coou a cabea, franziu o sobrolho, fez uma cara de resignao e por fim foi buscar umas quantas telas que virou para a luz.




 o que h informou, com voz pouco firme, e recuou para ficar ao p de Robert. Enquanto o fazia, Robert tirou um mao de cigarros novo do bolso e estendeu-o ao jovem. 
No silncio que se seguiu, Pat Farnaby desembrulhou com cuidado o plstico envolvente, tirou um cigarro, acendeu-o e depois, com os movimentos furtivos de um homem 
que no deseja ser observado, enfiou o mao dentro do seu bolso das calas.

Uma hora depois, Robert voltou para o carro. Emma,  espera dele, viu-o descer os degraus do celeiro e atravessar com prudncia o terreiro da quinta. Ela inclinou-se 
para lhe abrir a porta e quando ele se sentou ao seu lado, perguntou-lhe:

Como  que te saste?

Penso que bem. Ele parecia cauteloso, mas excitado.

Ele mostrou-te o trabalho dele?

A maior parte.

E  bom?

Acho que sim. Podemos estar  beira de uma coisa extremamente importante, mas est tudo numa confuso to grande que  difcil ter a certeza. No est nada emoldurado, 
no h nenhuma sequncia nem ordem...

Eu tinha razo, no tinha? Ele  um tipo um bocado estranho, no ?

Completamente passado concordou Robert. Sorriu-lhe. Mas um gnio.

Ele fez inverso de marcha no ptio e voltou para o caminho em direco  estrada. Ia a assobiar desafmadamente por entre dentes e Emma sentiu, por trs da excitao 
dele, a satisfao de um trabalho bem feito.

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Ela observou:

Agora vais querer falar com o Marcus.

Eu disse que lhe telefonava imediatamente. Afastou a manga para descobrir o relgio e viu as horas. Seis e um quarto. Ele disse que esperava na galeria at s sete 
e depois ia para casa.

Se quiseres podes deixar-me no cruzamento e eu vou a p para casa.

Ora, porque  que havia de fazer isso?

Eu no tenho telefone e tens de voltar depressa para o hotel.

Ele sorriu.

No  assim to urgente. Se no fosses tu  provvel que eu ainda andasse  procura do Pat Farnaby. O mnimo que posso fazer  levar-te a casa.

Estavam agora no pntano, muito acima do mar. O vento tinha amainado bastante, mudando para oeste, e em frente o cu parecia estar a abrir e a desintegrar-se, havia 
inesperadas extenses de azul, que aumentavam a cada momento, e raios diludos de sol. Emma disse:

Vai estar uma noite magnfica e enquanto falava teve a conscincia de que no queria que Robert voltasse para o hotel e a deixasse a pass-la sozinha. Ele tinha 
surgido de forma inesperada, naquele dia sombrio, tinha-lhe dado forma e objectivo, enchera-o do companheirismo de uma aventura partilhada e agora ela no queria 
que o dia acabasse.

Indagou:

Quando  que voltas para Londres?

Amanh de manh. Domingo. Tenho de estar na galeria segunda de manh. Tem sido um fim-de-semana cheio.

Ento s havia aquela noite. Ela imaginava-o a telefonar a Marcus do telefone ao p da cama. Depois tomaria um banho, talvez uma bebida, e desceria para jantar. 
Aos sbados,

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 noite, o Hotel Castelo dava pequenos bailes havia uma banda de casacos brancos e parte da sala era disponibilizada para danar. Muito influenciada por Ben, Emma 
fora levada a encarar tais divertimentos como coisas insuportavelmente finas e aborrecidas, mas naquela noite sentia que seria divertido mandar as opinies rgidas 
de Ben para o diabo. Ansiava pelas toalhas brancas engomadas, pelos sucessos musicais dos ltimos anos, pelo ritual da lista dos vinhos, pelo brilho aumentado das 
luzes em tons rosados.

A seu lado, Robert falou inesperadamente, interrompendo o fio dos seus pensamentos.

Quando  que o teu pai pintou o quadro em que ests em cima do burro?

Porque  que perguntaste isso de repente?

Estava a pensar nisso.  encantador. Pareces to solene e importante.

Foi assim que me senti, solene e importante. Eu tinha seis anos e foi a nica pintura que ele fez de mini. O burro chamava-se Mokey. Costumava carregar-nos para 
cima e para baixo para a praia, juntamente com os cestos de piquenique e coisas assim.

Viveste sempre naquela casa?

Sempre no. S desde que o Ben casou com a Hester. Antes disso ficvamos em qualquer lado: em penses ou em casa de amigos. s vezes acampvamos simplesmente no 
estdio. Era bastante divertido, mas a Hester dizia que no tinha a menor inteno de viver como uma cigana, por isso comprou as casas e arranjou-as.

Ela fez um bom trabalho.

Pois fez, ela era esperta. Mas o Ben nunca pensou naquela casa como lar. O seu lar  o estdio e quando est em Porthkerris passa o menos tempo possvel em casa. 
Penso que as associaes da casa  Hester o deprimem um pouco.

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Est sempre  espera que ela entre e lhe diga que ele est atrasado para qualquer coisa, ou que est a sujar o cho de lama, ou que est a largar tinta nas almofadas 
do sof...

O esprito criativo parece florescer na desordem. Emma riu-se.

Achas que quando tu e o Marcus tornarem o Pat Farnaby rico e famoso ele vai continuar a querer viver com as galinhas da senhora Stevens?

Isso  o que vamos ver. Mas se sempre vier para Londres, no h dvida de que algum vai ter de lhe dar uma boa esfrega e limpar-lhe o p imemorial daquela barba 
escrofulosa. Mesmo assim... Ele espreguiou-se luxuriosamente, curvando as costas contra o banco de couro. Vai valer a pena.

Tinham subido a colina e estavam agora a descer a longa estrada que conduzia a Porthkerris. O mar,  luz calma do fim da tarde, modificara o azul translcido de 
asas de borboleta; a mar estava vazia e a enorme baa era um arco de areia recm-lavada. A chuva deixara tudo a luzir e fresco e  medida que deixavam os pntanos 
e os campos para trs, e desciam atravs das ruas estreitas, Emma via janelas abertas de par em par para deixar entrar o ar fresco do fim da tarde e apanhar os cheiros 
fortes de rosas e lilases provenientes de pequenos jardins.

Tambm havia outros cheiros. Cheiros de sbado  noite, de peixe a fritar e perfumes baratos. E havia pessoas percorrendo os passeios com as suas melhores roupas, 
uns quantos precoces visitantes de Vero e rapazes e raparigas, de mos dadas, que se encaminhavam para o cinema e para os pequenos cafs que orlavam a estrada do 
porto.

Enquanto estavam parados no cruzamento ao p do polcia de servio, Robert observou-os.

O que  que os jovens apaixonados fazem em Porthkerris ao sbado  noite, Emma?

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Depende do tempo.

O polcia fez-lhes sinal para avanarem.

O que  que ns vamos fazer? perguntou Robert.

Ns?

Sim. Tu e eu. Queres ir jantar fora?

Por um momento Emma perguntou-se se tinha estado a suspirar em voz alta.

Bem... eu... no tens de te sentir obrigado a...

Eu no me sinto obrigado a nada. Gostava. Onde vamos? Ao meu hotel? Ou detestavas?

No... claro que... que no detestava.

Talvez haja algum stio italiano interessante de que gostes mais.

No h stios italianos interessantes em Porthkerris.

Pois, j calculava que no houvesse. Ento vai ter de ser com palmeiras e aquecimento central.

Tambm h uma banda informou Emma, sentindo que devia avis-lo. Aos sbados  noite. E as pessoas danam.

Dito assim parece uma coisa indecente.

Pensei que no gostasses desse tipo de coisas. O Ben no gosta.

No me desagrada absolutamente nada. Como a maior parte das coisas, pode ser bastante divertido se for feito com a pessoa certa.

Nunca tinha pensado nisso dessa forma. Robert riu-se e voltou a olhar para o relgio.

Seis e meia. Vou levar-te a casa, vou voltar ao hotel, mudo de roupa, ligo para o Marcus e depois volto para te buscar. Sete e meia  tempo suficiente?

Ofereo-te uma bebida convidou Emma. H uma garrafa de usque Uncle Remus' Genuine Ole Rye que deram ao Ben h dez anos e ainda no foi aberto. Sempre desejei saber 
o que  que tem dentro

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Mas Robert no ficou entusiasmado.

Talvez seja melhor tomar apenas um martini.

No hotel foi buscar a chave e com ela trs recados.

A que horas foram deixados os recados?

As horas esto anotadas. Trs e quarenta e cinco, cinco horas e cinco e meia. Um senhor Bernstein, a telefonar de Londres. Disse para lhe ligar assim que chegasse.

Eu ia faz-lo, de qualquer forma, mas obrigado. Franzindo um pouco o sobrolho, pois uma impacincia

assim no era caracterstica de Marcus, Robert subiu para o seu quarto. Os telefonemas copiosos eram perturbadores. Perguntava-se se Marcus teria ouvido rumores 
de que outra galeria qualquer andasse atrs do jovem artista. Ou talvez tivesse repensado a questo da obra de Farnaby e quisesse cancelar tudo.

No seu quarto, as cortinas tinham sido corridas, a cama feita, o aquecimento ligado. Sentou-se na cama, agarrou no auscultador e deu o nmero da galeria. Retirou 
os trs recados do bolso e disp-los ao lado uns dos outros em cima da mesa-de-cabeceira. "O senhor Bernstein gostava que lhe ligasse. O senhor Bernstein ligou, 
telefona mais tarde. O senhor Bernstein..."

Kent 3778. Galerias Bernstein.

Marcus...

Robert, graas a Deus que finalmente te consegui apanhar. Recebeste os meus recados?

Trs. Mas eu disse que te ligava por causa do Farnaby.

Isto no  sobre o Farnaby. Isto  sobre o Ben Litton.

Havia um vestido que ela vira em Paris, tremendamente
Caro, de cavas, muito simples.

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Mas quando  que vais usar um vestido assim? perguntara a senhora Duprs, e Emma, gozando o luxo da compra, respondera:

Oh, um dia. Numa altura qualquer especial. Nunca tinha havido uma altura assim at quela noite.

Agora, com o cabelo enrolado ao alto e prolas nas orelhas, Emma enfiou cuidadosamente o vestido preto pela cabea, correu o fecho, apertou o cinto minsculo e o 
seu reflexo no espelho deu-lhe a certeza de que aqueles milhares de francos tinham sido bem gastos.

Quando Robert chegou, ela estava na cozinha, debatendo-se com o saco de cubos de gelo para os martinis que ele prometera preparar. Ela ouviu o carro dele, o bater 
da porta, o porto a abrir e a fechar, os seus passos enquanto descia os degraus a correr e, em pnico, atirou o gelo para um prato de vidro, foi abrir-lhe a porta 
e viu que o dia sombrio se tinha transformado numa noite limpa e perfeita, azul-rubi e povoada de estrelas.

Surpreendida, exclamou:

Que noite to bonita.

Espantosa, no est? Depois de todo aquele vento e chuva Porthkerris parece Positano. Ele entrou e Emma fechou a porta. At h uma Lua a subir do mar para completar 
a iluso. Agora s precisamos de uma guitarra e de um tenor a cantar Santa Lcia.

Talvez encontremos algum.

Ele tinha mudado para um fato cinzento-escuro, camisa engomada com um colarinho impecvel e um brilho de botes de punho brancos, ligados a ouro, aparecia-lhe no 
pulso. O seu cabelo castanho-alourado estava outra vez liso e muito bem penteado e trazia consigo o cheiro fresco de limo do aftershave.

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Ainda queres preparar um martini? Tenho tudo pronto, estava s a tentar arranjar o gelo... Ela voltou  cozinha, levantando a voz para falar atravs da porta aberta. 
O gim e o martini esto em cima da mesa, juntamente com um limo. Ah, e vais precisar de uma faca para cortar o limo.

Ela abriu uma gaveta, encontrou uma faca pontiaguda e muito afiada, e levou-a, com o balde do gelo, para a sala.

Que pena o Ben no estar aqui. Ele adora martinis, s que nunca se lembra das propores certas e enche-os de limo...

Robert no retorquiu. Ocorreu ento a Emma que ele no fizera qualquer esforo para se pr  vontade. No tinha feito nada em relao  preparao das bebidas, nem 
sequer acendido um cigarro, e isto s por si era estranho, pois ele era normalmente do mais descontrado e calmo. Mas agora havia nele um ntido constrangimento 
e, com o corao apertado, Emma perguntou-se se ele j estaria a arrepender-se da noite que iam passar juntos.

Ela foi pr o limo ao p dos copos vazios, disse para si mesma que estava a imaginar coisas e voltou-se para sorrir rapidamente para ele.

Ora ento, de que precisas mais?

De mais nada respondeu Robert, e meteu as mos nos bolsos das calas. "No  o gesto de um homem que vai beber um martini." Na lareira, um tronco a arder descaiu 
partindo-se e espalhando um mar de falhas.

Talvez fosse o telefonema que o tivesse perturbado.

Falaste com o Marcus?

Falei. Na verdade, ele tinha estado a tentar apanhar-me durante quase toda a tarde.

E claro que no estavas. Ficou satisfeito quando lhe contaste sobre o Pat tarnaby?

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Ele no tinha estado a ligar por causa do Pat Farnaby.

Ah no? De repente, ela teve medo. So ms notcias?

No, claro que no, mas podem no te agradar.  sobre o teu pai. Sabes, ele telefonou ao Marcus esta manh, dos Estados Unidos. Queria que o Marcus te dissesse que 
ele e a Melissa se casaram ontem, em Queenstown.

Emma capacitou-se de que ainda tinha a faca na mo, que esta era muito afiada e que podia cortar-se, por isso pousou-a, muito cuidadosamente, ao lado do limo.

Casaram. A palavra evocou no seu pensamento uma imagem histrica de um casamento: de Ben com uma flor branca numa casa de boto do seu casaco bambo de bombazina; 
de Melissa Ryan no seu fato de fazenda cor-de-rosa, coberta por um vu branco e por papelinhos; de sinos de igreja dementes repicando a sua mensagem pelos campos 
verdejantes da Virgnia que Emma nunca tinha visto. Era como um pesadelo.

Ela percebeu que Robert Morrow ainda estava a falar, a sua voz num tom monocrdico e calmo.

O Marcus acha que de uma forma obscura a culpa  dele. Porque ele pensou que a pr-inaugurao era uma boa ideia e porque esteve com eles em Queenstown, viu-os juntos 
o tempo todo e no percebeu o menor indcio de que isto ia acontecer.

Emma lembrou-se da descrio de Marcus da casa bonita, viu Ben enjaulado pelo dinheiro de Melissa, um tigre a andar para trs e para diante com todos os seus impulsos 
criativos castrados pelo luxo e percebeu que subestimar Melissa Ryan ao imaginar que Ben seria desencorajado pelo facto de ter de lutar pelo que queria. Ela no 
tinha considerado at que ponto ele o quereria.

Subitamente, ficou zangada.

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Ele nunca devia ter ido  Amrica. No havia necessidade. Ele queria simplesmente ser deixado em paz para continuar a pintar.

Emma, ningum o obrigou a ir.

No  que o casamento v durar. O Ben nunca foi fiel a uma mulher mais de seis meses e no estou a ver a Melissa Ryan disposta a isso.

Robert disse com brandura:

Talvez desta vez resulte e dure.

Mas tu viste-os juntos no dia em que se conheceram. No conseguiam tirar os olhos um do outro. Se ela fosse velha e feia, nada o teria arrastado de Porthkerris.

Mas ela no era velha nem feia. Ela  muito bonita, extremamente inteligente e muito rica. E se no tivesse sido a Melissa Ryan, em breve teria sido outra qualquer, 
e, o que  mais... ele continuou, rapidamente, antes que Emma pudesse interromper sabes to bem como eu que isso  verdade.

Ela disse com amargura:

Mas, pelo menos, estaramos juntos mais de um ms. Robert abanou a cabea, irremediavelmente.

Oh, Emma, deixa-o. O tom dele enfureceu-a.

Ele  meu pai. O que  que h de errado em querer estar com ele?

Ele no  nem um pai nem um marido ou um amante ou um amigo. Ele  um artista. Como aquele manaco obcecado que fomos visitar esta tarde, tambm  um artista. No 
tm tempo para os nossos valores ou padres. Tudo e toda a gente tm de estar em segundo lugar.

Segundo lugar? Eu no me importava de estar em segundo lugar, ou terceiro, ou quarto. Mas eu vim sempre no fim de uma longa lista de prioridades. A pintura dele, 
os
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romances dele, o seu perptuo deambular pelo mundo inteiro; at depois do Marcus e de ti. So todos mais importantes para o Ben do que eu alguma vez fui.

Ento deixa-o em paz. Pensa outra coisa qualquer para variar. Deixa este stio, abandona essa ideia. Arranja um emprego.

J fiz tudo isso. Andei a faz-lo durante os ltimos dois anos.

Ento volta comigo para Londres e fica com o Marcus e com a Helen. Sais de Porthkerris, vai dar-te tempo para te habituares  ideia de o Ben estar casado outra vez, 
para decidires o que queres fazer a seguir.

Talvez eu j tenha decidido.

J l estava, no mais recendido da sua mente. Como se estivesse a observar o palco da plateia s escuras de um teatro.  medida que um cenrio desaparece, o novo 
cenrio entra lentamente no palco. Um cenrio diferente. Outra sala, talvez. Outra vista de outra janela.

Mas no quero ir para Londres.

E esta noite?

Emma franziu o sobrolho. Tinha-se esquecido.

Esta noite?

Vamos jantar juntos.

Ela sentiu que no conseguia.

Acho melhor no...

Vai fazer-te bem...

No vai nada. E estou com uma dor de cabea horrvel...

Era uma desculpa inventada  pressa e ficou espantada quando percebeu que era realmente verdade. Uma dor penetrante como o princpio de uma enxaqueca, sentia os 
olhos arrastados por arames para a parte de trs da cabea. Pensar em comida, galinha com molho, gelado, causava-lhe nuseas.

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Eu no conseguiria ir. No conseguiria. Robert disse suavemente:

No  o fim do mundo.

E o velho e reconfortante clich foi de mais para Emma. Para seu horror, comeou a chorar. Cobriu a cara com as mos, enterrando as pontas dos dedos no cabelo, tentando 
parar, sabendo que chorar s ia piorar as coisas, que cegaria de dor, que ia ficar agoniada...

Ouviu-se dizer o nome dela e em duas passadas ele tinha atravessado o espao que os separava. Abraou-a, embalando-a e deixando-a chorar sobre as imaculadas lapelas 
cinzentas do seu fato caro. Emma no tentou afastar-se, ficou quieta, firmemente esmagada contra o seu prprio desgosto, hirta e insensvel, e odiando-o pelo que 
ele lhe tinha feito.

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Jane Marshall, de copo meio de usque com gelo, na mo, perguntou:

E o que  que aconteceu depois?

No aconteceu nada. Ela no quis vir jantar e parecia que ia ter um ataque de nervos, por isso meti-a na cama, dei-lhe uma bebida quente e uma aspirina, a seguir 
voltei para o hotel e jantei sozinho. Depois, na manh seguinte, no domingo, fui l a casa para me despedir antes de voltar para Londres. Ela estava levantada, muito 
plida, mas parecia estar bem.

Tentaste outra vez que ela viesse contigo?

Tentei, mas ela foi inflexvel. Por isso despedimo-nos e vim-me embora. E desde ento no h notcias.

Mas com certeza que consegues descobrir onde ela est.

No h maneira de descobrir. No h telefone, nunca houve. O Marcus escreveu, claro, mas a Emma parece ter herdado a averso caracterstica do Ben a responder a 
cartas. No houve mais notcias.

Mas isso  de doidos. Hoje, em pleno sculo xx... deve haver algum que vos possa dizer...

No h ningum. A Emma no falava com ningum. No havia mulher-a-dias que fosse limpar a casa, era ela que fazia tudo. Foi essa a grande razo inicial, porque ela 
voltou

125


para Porthkerris, para tratar da casa do Ben. Claro que ao fm de duas semanas de silncio absoluto o Marcus no aguentou mais e fez uma chamada para o proprietrio 
do Sliding Tackle, que  o pub que o Ben costumava frequentar. Mas o Ben estava fora h seis semanas e Emma nunca se aproximava do stio.

Ento tm de ir a Porthkerris e perguntar.

O Marcus no est disposto a isso.

Porque no?

Por muitas razes. Emma j no  nenhuma criana. Ela foi magoada e o Marcus respeita o facto de que se ela quer que a deixem em paz ele no tem o direito de interferir. 
Ele convidou-a para vir para Londres e ficar com ele e com a Helen... Pelo menos at ela assentar os ps na terra outra vez. Mais do que isso no pode fazer. E h 
ainda outra razo.

Eu sei afirmou Jane.  a Helen, no ?

 concordou Robert, detestando admiti-lo. A Helen ressentiu-se desde sempre com o ascendente que o Ben tem sobre o Marcus. Houve vezes em que ela de boa vontade 
teria visto o Ben afogar-se. Mas aceitou tudo porque tinha de aceitar, porque orientar a carreira do Ben faz parte do trabalho do Marcus, e sem o Marcus para o manter 
mais ou menos na linha s Deus sabe o que teria sido do Ben Litton.

E ela, agora, no quer que ele comece a matar-se por causa da Emma.

Precisamente.

Jane agitou o copo, deixando o gelo bater no vidro. Inquiriu:

E tu?

Ele olhou para cima. Eu o qu?

126


 
Sentes-te envolvido?

Porque  que perguntas?

Pareces envolvido.

Mal conheo a rapariga.

Mas ests preocupado com ela. Ele pensou nisso.

Pois estou concordou, por fim. Sim, suponho que estou preocupado. S Deus sabe porqu.

O copo dele estava vazio. Jane pousou a sua bebida e levantou-se para levar o copo dele e servir-lhe outro usque. De trs dele, enquanto servia o gelo, perguntou:

Porque no vais tu a Porthkerris tentar descobrir?

Porque ela no est l.

No est?... Sabes que ela no est l? Mas no me tinhas dito isso.

Depois do telefonema intil para o Sliding Tackle, o Marcus comeou a ficar muito ansioso. Ligou para a polcia local, eles descobriram alguns factos e ligaram para 
ns. Casa fechada, estdio fechado, correios com ordem de guardar toda a correspondncia at novo aviso. Ele estendeu o brao para aceitar a nova bebida que Jane 
lhe estendia por cima das costas do sof. Obrigado.

E o pai dela?... Ele sabe?

Sabe. O Marcus escreveu a contar-lhe. Mas no se pode esperar que o Ben fique perturbado por a alm. Afinal de contas, ele ainda est a meio do que pode ser considerado 
uma lua-de-mel e Emma anda a vaguear pela Europa sozinha desde os catorze anos. No te esqueas de que isto no  uma relao normal entre pai e filha.

Jane suspirou.

Ah, pois no.

Robert sorriu-lhe. Ela era uma pessoa reconfortantemente com os ps na terra e fora por essa razo que, num
127


impulso, ele tinha aparecido nessa noite para tomar uma bebida a caminho de casa quando vinha do trabalho. Normalmente, a vida dupla que ele levava com Marcus Bernstein, 
trabalhando com ele na galeria e vivendo na mesma casa, no apresentava nenhuma tenso. Mas naquele momento as coisas estavam difceis. Robert voltara de uma viagem 
de negcios a Paris e encontrara Marcus muito inquieto e incapaz de se concentrar durante muito tempo no que quer que fosse, a no ser no problema de Emma Litton. 
Depois de ter discutido o assunto com ele, Robert capacitou-se de que Marcus se culpava do que tinha acontecido e se recusava a discutir com profundidade a sua culpa. 
Helen, por outro lado, era completamente insensvel  questo e tinha a opinio determinada de que ele no se devia envolver mais naquela questo lamentvel. Naquele 
momento, a tenso por que ambos andavam a passar estava no auge e tinha arruinado por completo o ambiente domstico de Milton Gardens.

O tempo no ajudava nada  situao. Depois de uma Primavera fria, Londres fora invadida por uma verdadeira onda de calor. As manhs irrompiam por entre neblinas 
cujas gotculas se dissolviam gradualmente em dias aps dias de sol escaldante. As mulheres iam trabalhar de vestidos de cavas, os homens desembaraavam-se dos casacos 
e sentavam-se s secretrias em mangas de camisa. Os parques,  hora do almoo, enchiam-se de gente espojada a fazer piqueniques. As lojas e os restaurantes abriam 
toldos s riscas e escancaravam janelas em busca da mais pequena brisa. Nas ruas, os carros estacionados escaldavam, os passeios ofuscavam e o alcatro derretido 
agarrava-se s solas dos sapatos.

O calor, como uma epidemia monstruosa, invadira at os calmos recessos verde-secos da Galeria Berstein. Tinha havido durante todo o dia uma torrente interminvel 
de
128
 
visitantes e possveis clientes, pois a estao turstica transatlntica j comeara e aquela ia ser, provavelmente, a altura de mais trabalho para eles. E no fim 
daquilo tudo, Robert, enquanto ia no carro para casa, deu por si a desejar uma cara nova, uma bebida fresca e uma conversa que no tivesse nada a ver com artistas, 
fossem renascentistas, impressionistas ou pop.

Jane Marshall veio-lhe imediatamente  ideia.

A casa dela ficava num ptio estreito, entre Sloane Square e Pimlico Road. Quando virou para entrar na rua, parou  beira do passeio, tocou a buzina duas vezes e 
ela apareceu  janela aberta do andar de cima, de mos no parapeito, o cabelo louro caindo-lhe para a cara enquanto se debruava para fora para ver quem era.

Robert! Pensei que ainda estavas em Paris.

Ainda estava h dois dias. Tens por a qualquer coisa como uma bebida alcolica demorada e fresca para um trabalhador exausto?

Claro que tenho. Espera um pouco. Vou descer para te abrir a porta.

Ele sempre achara a casa dela encantadora. Em tempos fora a casa de um cocheiro. Tinha umas escadas estreitas e inclinadas que conduziam directamente ao 1. andar. 
A havia uma salinha de entrada, uma sala de estar e uma cozinha e, subindo mais um lano de escadas, no sto de telhado inclinado, o quarto dela e a casa de banho. 
No comeo era uma casa bastante sem graa, mas desde que Jane tinha iniciado o seu negcio de decorao que a tornara num mimo. Transformou a sala de estar numa 
sala de trabalho, mas mesmo assim as peas de tecido, as franjas, as almofadas e os pequenos pedaos de bricabraque que ela to habilidosamente escolhia estavam 
espalhados por todos os cantos possveis, tornando a sala to alegre e colorida como uma manta de retalhos

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Jane ficou encantada por v-lo. Tinha passado a manh com uma mulher maadora que queria a casa, em St. John's Wood, toda decorada de creme, o que ela chamava "Redecorao 
em magnolia". Depois fora uma sesso com uma jovem actriz em ascenso que procurava qualquer coisa de sensacional para o seu apartamento novo.

Esteve aqui sentada durante horas a mostrar-me fotografias do tipo de coisa que tinha em mente. Eu tentei dizer-lhe que ela devia era chamar um bulldozer e no uma 
decoradora de interiores, mas ela no me deu ouvidos. Esta gente nunca me d ouvidos. Usque?

Isso  a coisa mais simptica que me disseram em todo o dia disse Robert, sucumbindo no sof em frente da janela aberta.

Ela serviu duas bebidas, assegurou-se de que ele estava fornecido de cigarros e cinzeiro e depois instalou-se calmamente de frente para ele. Era uma mulher muito 
bonita. O seu cabelo louro era escorrido e forte, cortado em redondo at ao queixo. Os seus olhos eram verdes e o nariz arrebitado, a boca doce, mas implacvel. 
O seu casamento desfeito tinha deixado certas cicatrizes no seu carcter e nem sempre era das pessoas mais tolerantes, mas havia nela uma franqueza que ele achava 
to refrescante como um copo de gua fria, e parecia sempre deliciosa.

Vim aqui com o objectivo propositado de no falar de trabalho. Como  que acabmos a falar do Ben Litton?

Fui eu que puxei o assunto. Andava intrigada. Cada vez que estava com a Helen ela fartava-se de fazer aluses veladas, mas depois recusava-se a dizer mais coisas. 
Ela anda muito transtornada por isto, no anda?

S porque, em tempos, o Ben Litton fez com que o Marcus andasse destroado.

Ela conhece a Emma?

130
 
No a v desde que ela foi para a Sua h seis anos.

 difcil julgar as pessoas com justeza quando no as conhecemos bem afirmou Jane.

s vezes  difcil ser-se justo at quando as conhecemos. E agora... ele inclinou-se para a frente para apagar o cigarro vamos deixar cair o assunto e fazer um acordo 
tcito para no voltarmos a mencion-lo. Vais fazer alguma coisa esta noite?

Absolutamente nada.

Ento porque  que no vamos  procura de um terrao, com ou sem jardim, para jantarmos?

Eu gostava concordou Jane.

Vou ligar  Helen a dizer que no vou para casa...

Nesse caso... ela levantou-se vou tomar um duche e mudar de roupa. No me demoro.

No h pressa nenhuma.

Fica  vontade... arranja outra bebida. Tens aqui cigarros e um jornal da tarde, algures, se te deres ao trabalho de procurar...

Ela subiu as escadas. Ele ouviu-a andar de um lado para o outro, saltos altos no cho de laje. Cantava baixinho, um pouco para o desafinado. Ele pousou o copo, foi 
at  sala, descobriu finalmente o telefone por baixo de um monte de chitas s flores e ligou para Helen a dizer que no ia jantar a casa. Depois voltou para servir 
a sua terceira bebida da noite, alargou o n da gravata e deixou-se cair mais uma vez no sof.

O usque tinha-o reanimado ligeiramente e sob a influncia da sua frescura lmpida o cansao passava de fadiga de fim de dia a uma lassido agradvel. O jornal tinha 
uma ponta de fora debaixo de uma almofada, ele puxou-o e depois viu que no era o Evening Standard, mas o Stage.

- Jane.

131


Sim!

No sabia que lias o Stage.

No leio.

Mas est aqui.

Est? Ela no pareceu particularmente interessada. A Dinah Burnett deve ter-se esquecido dele.  a tal actriz que precisa do bulldozer.
parei aqui
Ele folheou-o ao acaso.

"Precisa-se. Bailarina para vrios tipos de dana."

Virou para a pgina do teatro de repertrio. Estavam a representar Shakespeare em Birmingham, uma reposio em Manchester e em Brookford, estreia de uma nova pea...

Brookford.

O nome disparou da pgina e atingiu-o como uma bala. Ele endireitou-se no sof, dobrou o jornal ajeito e leu o artigo todo.

A temporada de Vero do Teatro de Repertrio de Brookford abriu esta semana com a primeira representao de Daisies on the Glass, uma comdia em trs actos do escritor 
local Phyllis Jason. Esta pea, leve mas bem estruturada, apresenta a actriz Charmian Vaughan no papel principal de Stella. Os outros papis so secundrios, mas 
John Rigger, Sophie Lambart e Christopher Ferris todos ajudam a levar a divertida intriga ao seu clmax, a Sara Rutheford  encantadoramente natural no papel de 
noiva. Tommy Childers consegue uma encenao viva e o cenrio, pelo artista cnico Brian Dare, provocou um aplauso espontneo do entusistico pblico da primeira 
noite.

Christopher Ferris.

Pousou cuidadosamente o jornal, pegou num cigarro

132
 
e acendeu-o. Christopher Ferris. Ele tinha-se esquecido de Christopher.

Mas agora, de um emaranhado de recordaes, ouvia de novo a voz de Emma, naquele primeiro dia, quando ele lhe dera de almoo no restaurante do Marcello.

"Ouviu falar do Christopher? Por puro acaso, eu e o Christopher voltmos a encontrar-nos em Paris. E ele veio trazer-me esta manh ao L Bourget."

E lembrou-se, na frente dela do outro lado da mesa, percebendo subitamente a razo do sorriso dela, do brilho da sua pele e do fulgor dos seus olhos.

E mais tarde, no estdio gelado em Porthkerris, o assunto Christopher tinha vindo  baila outra vez, entre outros assuntos de discusso mais importantes. "Deve estar 
em Brookford por esta altura", tinha dito Emma. "No auge dos ensaios."

Ele levantou-se e foi at  base das escadas.

Jane.

Sim.

Ests quase pronta?

Estou s a maquilhar-me.

Onde  que fica Brookford?

Em Surrey.

Quanto tempo  que levamos at l?

Brookford? Oh, cerca de quarenta e cinco, cinquenta minutos.

Ele olhou para o relgio.

Se sarmos j, ou assim que pudermos... no devemos chegar demasiado tarde.

Jane apareceu no topo das escadas, com um espelho numa mo e uma escova de rimel na outra.

Demasiado tarde para qu?

Vamos ao teatro.

133


Pensei que amos jantar fora.

Mais tarde, talvez. Mas primeiro vamos a Brookford, ver uma comdia bem estruturada chamada Daisies on the Grass...

Endoideceste?

Do escritor local Phylis Jason.

Endoideceste mesmo.

Eu explico no caminho. S querida e despacha-te. Enquanto desciam a M. 4, Jane perguntou:

Queres dizer que ningum sabe deste jovem a no ser tu?

A Emma no disse ao Ben porque ele nunca gostou do Christopher. A Helen diz que ele tinha cimes do mido.

E tambm no disse ao Marcus Bernstein.

Penso que no.

Mas disse-te a ti.

Sim, disse. Disse-me logo no primeiro dia. E no percebo porque  que no pensei nele antes.

Ela est apaixonada por ele?

No sei. De certeza que gosta muito dele.

Achas que a encontramos em Brookfeld?

Se no encontrarmos, era capaz de apostar que o Christopher Ferris sabe onde ela est. Jane no retorquiu. Pouco depois ele acrescentou, com os olhos ainda fixos 
na estrada que corriam a grande velocidade: Desculpa l isto. Prometi que no voltvamos a falar do assunto, e aqui estou eu a levar-te para as regies selvagens 
de Surrey.

Porque  que ests to ansioso por encontrar a Emma? perguntou Jane.

Por causa do Marcus. Gostava de descans-lo.

Estou a ver.

Porque se o Marcus ficar descansado, a Helen vai acalmar e a vida ficar bastante mais confortvel para todos

n.

134
 
Bem, parece-me uma boa razo... Olha, acho que temos de virar aqui.

O Teatro de Repertrio de Brookford deu algum trabalho a encontrar. Andaram para baixo e para cima na High Street, depois pediram indicaes a um polcia com ar 
cansado e em mangas de camisa. Ele disse-lhes que andassem cerca de um quilmetro a partir do centro da cidade; depois de subirem uma rua secundria, chegaram a 
um beco sem sada, onde descobriram o enorme edifcio de tijolo, que mais parecia um salo paroquial do que outra coisa, mas a palavra "Teatro", escrita por cima 
da porta, em letras de non, morria  luz quente da noite.

C fora havia carros estacionados  beira do passeio e, ao lado destes, com os ps na valeta, estavam duas meninas sentadas a brincar com um carrinho de beb partido. 
Havia cartazes.

PRIMEIRA REPRESENTAO DAISIES ON THE GRASS

DE PHYLIS JASON Uma comdia em trs actos

Encenao de TOMMY CHILDERS

Jane ficou parada a observar aquela fachada nada auspiciosa.

Pobre teatro.

Robert ps-lhe a mo por baixo do cotovelo.

Vamos.

Subiram um lano de degraus de pedra que dava para uma pequena sala de estar, com um quiosque de cigarros de um lado e uma bilheteira do outro. Na bilheteira estava 
uma rapariga a fazer tric.

135

(


Lamento muito, mas o espectculo j comeou informou ela, quando Robert e Jane apareceram do outro lado do vidro.

Pois, foi o que ns pensmos. Mas queremos dois bilhetes  mesma.

Para onde?

Oh... Bem., plateias.

So quinze xelins, por favor. Mas vo ter de esperar at ao segundo acto.

H algum stio onde possamos beber qualquer coisa?

O bar  l em cima.

Muito obrigado. Ele pegou nos bilhetes e no troco. Suponho que conhece todos os que aqui trabalham.

Sim, conheo...

Conhece o Christopher Ferris...

Ah, so amigos dele?

Bem, amigos de uma amiga.  o seguinte, ser que ele tem c a irm... pelo menos, ela  meia-irm dele. Chama-se Emma Litton.

A Emma est a trabalhar aqui.

Est a trabalhar aqui? No teatro?

Exactamente. Como ajudante de contra-regra. A nossa ajudante adoeceu com uma apendicite e Emma disse que vinha ajudar. Claro que a voz dela tornou-se profissional 
o senhor Childers normalmente gosta de pessoas do meio que j tenham tido alguma experincia de palco, sabe, na RADA ou noutro stio qualquer, para que possam acumular 
pequenos papis. Mas j que ela aqui estava e no tinha nada que fazer, ele deixou-a ficar com o lugar. S at a nossa ajudante estar melhor.

Estou a ver. Acha que poderemos falar com ela?

Bem, depois do espectculo acho que sim. Mas o senhor Childers no quer ningum nos bastidores antes de O espectculo terminar.

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O OUTRO LADO DO AMOR

No faz mal. Ns esperamos. Muito obrigado.

No tem de qu. Foi um prazer.

Subiram para uma segunda sala de estar maior e sentaram-se a beber cerveja e a falar com o empregado do bar at que um sumido barulho de aplausos anunciou o fim 
do 1. acto. As luzes acenderam-se, as portas abriram-se e um pequeno rio de gente emergiu  procura de bebidas. Jane e Robert esperaram at ao primeiro sinal de 
chamada, depois tambm eles entraram no auditrio, tendo comprado dois programas pelo caminho e sido conduzidos aos seus lugares por uma jovem impaciente de macaco 
de nylon. A assistncia nessa noite era, de facto, escassa e Jane e Robert eram as nicas pessoas sentadas na terceira fila. Jane olhou em volta com um olho profissional.

Penso que em tempos foi um salo paroquial decidiu. Ningum teria construdo nada to feio para ser um teatro. Mas devo dizer que o decoraram com bastante imaginao 
e a iluminao e as cores esto bastante bem. Que pena no terem mais pblico...

O pano subiu por fim para dar incio ao 2. acto.

"O salo de casa da senhora Edbury, em Gloucestershire", dizia a nota do programa, e ali estava ela, completa, com janelas panormicas, escadas, sof, mesa com bebidas, 
mesa com telefone, mesa baixa com revistas (para a senhora pegar e folhear ociosamente em momentos em que no sabia o que fazer com as mos?) e trs portas.

Uma casa cheia de correntes de ar murmurou Jane.

Vai ficar melhor quando fecharem as janelas panormicas.

Mas a janela panormica tinha de ficar aberta, pois dava entrada  ingnua (Sara Rutheford 

 encantadoramente natural

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no papel de noiva), que se atirou para cima do sof e se desfez em lgrimas. O semblante de Jane mostrava uma expresso atenta e de incredulidade deliciada. Robert 
afundou-se mais no seu lugar.

Era uma pea horrvel. Mesmo que tivessem visto o 1. acto, e assim conseguido desemaranhar a meada enleada da intriga, teria sido  mesma uma pea horrvel. Enredava-se 
em clichs, personagens desnecessrias (havia mesmo uma mulher-a-dias cmica), entradas e sadas foradas e telefonemas oito s durante o 2. acto.

Quando o pano desceu, Robert sugeriu:

Vamos tomar mais qualquer coisa. Era capaz de beber um brande duplo depois disto.

No me vou mexer daqui respondeu Jane. No vou quebrar o encanto. No via uma pea assim desde os sete anos. E o cenrio faz-me ficar completamente nostlgica. Mas 
h uma coisa que salta  vista, Robert.

O que ?

O Christopher Ferris  muito, muito bom...

Era, de facto. Quando ele tinha entrado no palco, a arrastar os ps, no papel do inseguro estudante universitrio que acabaria por roubar a herona ao noivo corretor 
da bolsa, Daisies on the Grass mostrou a sua primeira tnue centelha de vida. O texto dele no era melhor do que o dos outros, mas o seu controlo do discurso da 
personagem era perfeito e ele conseguia torn-lo engraado ou triste, ou distorcidamente encantador. Para representar o papel vestia calas de bombazina, uma camisola 
de l larga e culos de armao de tartaruga, mas mesmo estes andrajos no conseguiam disfarar a sua elegncia, nem a sua beleza, nem a graa natural das suas pernas 
longas quando se movia.

E no  s muito bom,  tambm muito atraente continuou Jane. Comeo a ver porque  que a meia-irm

138
 
ficou to contente, por, acidentalmente, ter voltado a encontr-lo em Paris. Eu prpria no me importava nada de o encontrar por acaso.

O 3. acto tinha o mesmo cenrio, mas agora era de noite. A Lua azul brilhava atravs da janela aberta e a descer as escadas vinha a noiva, carregando uma mala, 
em bicos de ps, pronta a fugir, ou a ser raptada, ou a fazer o que quer que tinha passado a ltima hora a decidir. Robert no se conseguia lembrar. Estava  espera 
que Christopher voltasse ao palco. Quando isso aconteceu, observou-o o tempo todo, separadamente, absorto e cheio de admirao. Por aquela altura, Christopher j 
tinha a assistncia, pequena como era, na palma da mo. Como Robert observava, tambm eles observavam. Christopher coou a cabea e eles riram-se. Tirou os culos 
para beijar a rapariga e eles riram-se outra vez. Voltou a p-los para lhe dizer adeus para sempre, fez-se silncio e depois foi um assoar de narizes. E quando tudo 
terminou e o elenco se alinhou para a chamada ao palco, os aplausos foram longos, e todos para Christopher.

O que  que vamos fazer agora? perguntou Jane.

O bar s fecha daqui a mais dez minutos. Vamos tomar qualquer coisa.

Voltaram para o bar. O empregado do bar perguntou:

Ento, gostaram do espectculo?

Bem, no sei... eu... Jane foi mais corajosa.

Pensamos que foi horrvel disse ela, mas muito delicadamente. E eu apaixonei-me pelo Christopher Ferris.

O empregado do bar sorriu.

 um espanto, no ? Foi uma pena terem vindo esta noite, com to pouca assistncia. O senhor Childers esperava a

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que sendo a senhora Jason daqui, esta pea atrairia pblico. Mas no se consegue vencer uma onda de calor.

Normalmente fazem boas casas? quis Jane saber.

Umas vezes melhores, outras piores. Ora, o ltimo espectculo que fizemos foi Present Laughter... Essa encheu completamente a casa.

 uma boa pea opinou Robert.

Qual era o papel de Christopher Ferris? perguntou Jane.

Ora, deixe-me ver. Ah, j sei, era o jovem argumentista. Sabe, aquele que anda de volta das cadeiras e come biscoitos. Chama-se Ronald Maule na pea. Ah,  uma personagem 
muito engraada, Christopher Ferrus tinha esse papel. Levou a casa ao rubro. Enquanto limpava os copos, olhou para cima, para o relgio. Lamento muito, mas tenho 
de vos pedir para terminarem as vossas bebidas... est na hora de fechar...

Sim, claro. J agora, como  que se chega aos bastidores? Queremos falar com a Emma Litton.

Podem entrar pelo auditrio e depois pela porta  direita do palco. Mas cuidado com o senhor Collins, o contra-regra. Ele no  l grande apreciador de visitantes.

Obrigado agradeceu Robert. E boa-noite. Voltaram a entrar no teatro. O pano tinha sido levantado

outra vez e o palco era de novo revelado, mas sem a ribalta o cenrio parecia menos animador do que nunca. No palco, um jovem debatia-se com o seu sof, tentando 
desvi-lo para o lado, e algum, algures, tinha deixado uma porta aberta, de forma que todo o teatro era percorrido por uma corrente de ar abafada. A rapariga dos 
programas andava a fazer uma ronda, levantando os lugares vazios e recolhendo embalagens de chocolate e maos de cigarros vazios que atirava parr" uma lata de lixo.

140
 
No h nada mais deprimente do que um teatro vazio observou Jane.

Comearam a descer na direco do palco. Enquanto se aproximavam, Robert capacitou-se de que no era um rapaz quem se debatia sozinho com o pesado sof, mas uma 
rapariga com uma velha camisola de l azul e jeans.

Quando estava suficientemente perto, disse:

Desculpe, ser que pode ajudar-me?...

Ela voltou-se para olhar para ele, e Robert, no querendo acreditar, deu consigo cara a cara com Emma Litton.

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Aps um segundo de silncio e bocas abertas, Emma parou de tentar afastar o sof e endireitou-se. Ele pensou que ela parecia muito mais alta e magra, a luz fria 
do palco no era lisonjeadora, os seus pulsos pendurados como paus das mangas arregaadas. Mas o pior era o cabelo. Ela tinha cortado o cabelo e agora a sua cabea 
parecia pequena e vulnervel, como se forrada com a pele de um animal.

Havia nela tambm o instinto animal da vigilncia. Um olhar assustado como se esperasse que ele fizesse o primeiro movimento, dissesse a primeira palavra, antes 
de ela saber para que lado saltar. Robert enterrou as mos nos bolsos numa tentativa deliberada de parecer e sentir-se natural e saudou:

Ol, Emma!

Ela fez uma tentativa de sorriso e disse:

Este sof parece que foi enchido com chumbo e perdeu as rodas no processo.

No h ningum que te possa ajudar? Ele avanou na direco da beira do palco, do seu lado, de modo que ficou a olhar para ela de baixo para cima. Parece muito pesado.

H, j vem algum daqui a pouco.

Ela parecia no saber o que fazer com as mos. Esfregou-as na parte de trs dos jeans, como se estivessem sujas,

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e depois cruzou os braos Era um movimento curiosamente defensivo que lhe fazia sobressair os ossos dos ombros por baixo do algodo fino da camisa.

O que  que ests aqui a fazer?

Viemos ver Daisies on the Grass... chegmos h pouco de Londres. Esta  Jane Marshall. Jane, esta  Emma.

Elas sorriram, fizeram acenos de cabea e murmuraram "Como est". Emma tornou a virar-se para Robert.

Sabias... sabias que eu estava aqui?

No, mas sabia que o Christopher estava e pensei que tu talvez estivesses.

Estou a trabalhar h umas semanas. Arranjei qualquer coisa para fazer.

Robert no fez comentrios, e, talvez desconcertada pelo silncio dele, Emma sentou-se, de repente, no sof que deveria estar a mudar de stio. As mos dela pendiam-lhe 
com indiferena entre os joelhos. Momentos depois, ela perguntou:

Foi o Marcus que te mandou?

No. Viemos s fazer-te uma visita. Ter a certeza de que estavas bem...

Eu estou bem.

A que horas te despachas daqui?...

Daqui a uma meia hora. Tenho de vagar o palco para o ensaio de amanh de manh. Porqu?

Pensei que talvez pudssemos ir a um hotel qualquer comer uma sande e beber qualquer coisa. Eu e a Jane no jantmos...

Ah, isso  simptico! Ela no pareceu entusiasmada. Bem... o problema  que... eu normalmente deixo qualquer coisa no forno no apartamento... Uma caarola ou isso. 
Se no for assim, o Johnny e o Chris nunca comem nada. Temos de l voltar, seno queima-be.

144
 
O Johnny?

O Johnny Rigger. Era o noivo. Sabes, o outro homem. Ele mora com o Christo... e comigo.

Estou a ver.

Fez-se outro silncio. Emma, desconcertada, debatia-se com os seus instintos mais hospitaleiros.

Eu convidava-os para vir, se quisessem, mas s h umas quantas latas de cerveja...

Ns gostamos de cerveja disse Robert prontamente.

E o apartamento est numa balbrdia horrvel. Nunca parece haver tempo para o limpar como deve ser. Quero dizer, agora que eu estou a trabalhar.

Ns no nos importamos com isso. Como  que se vai para l?

Bem... tm carro?

Temos. Est l fora.

Sim... Bem. Se esperarem l fora, o Christo e eu vamos ter com vocs, mais tarde. Se estiverem de acordo. E depois mostramo-vos onde .

Esplndido. E o Johnny?

Oh, o Johnny vai mais tarde.

Ns vamos esperar por vocs.

Robert tirou as mos dos bolsos, virou-se e subiu com Jane a pequena rampa do auditrio. Quando chegaram  sada, e Robert segurava uma das portas aberta para Jane 
passar, o diabo pareceu soltar-se no palco.

Onde raio se meteu aquela Litton? Robert foi a tempo de ver Emma saltar do sof como se este tivesse comeado a arder para comear a tentar mais uma vez desviar 
o pesado apetrecho. Um homenzinho de barba preta irrompeu ao palco, parecendo um pirata dos mais mal-humorados.

145


Olha, queridinha, eu disse-te para tirares da a porcaria do sof e no te deitares nele. Santo Deus, nunca mais vejo a hora de a outra rapariga voltar e de te ver 
daqui para fora...

Ou se atirava a ele ou se retirava. Para bem de Emma, Robert retirou-se.

A porta fechou-se atrs dele, mas enquanto atravessavam a sala ainda se podia ouvir a voz:

Que ela  uma atrasadinha j todos sabemos, mas ningum consegue ser to monstruosamente estpido como tu...

Encantador comentou Jane, enquanto desciam as escadas. Robert no respondeu, porque at que a chama de fria que o tinha consumido de repente se apagasse, ele no 
seria capaz de dizer nada: Deve ser o senhor Collins, o contra-regra. No  um tipo nada simptico com quem se trabalhe.

Alcanaram a porta da rua, desceram os degraus, atravessaram o passeio e entraram no carro. Estava escuro agora, um crepsculo fresco e suave tinha descido sobre 
a cidade, mas o calor do dia ainda se detinha, mantido pelos estreitos limites da rua, pelas pedras da rua e dos passeios quentes do sol. Por cima deles a placa 
do teatro luzia, mas quando entraram no carro algum do lado de dentro do edifcio apagou-a. O divertimento da noite terminara. Robert tirou os cigarros, deu um 
a Jane, acendeu-o, e tirou outro para si. Momentos depois sentia-se um pouco mais calmo.

Disse:

Ela cortou o cabelo.

Ai sim? Como  que era antes?

Comprido, sedoso e escuro.

Ela no quer que l vamos esta noite. Sabes disso, no sabes?

Sim, sei disso. Mas temos de ir. No precisamos de ficar muito tempo.

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E eu detesto cerveja.

Desculpa. Talvez algum te faa um caf.

No  sequer um trabalho que exija miolos. A criatura mais idiota sada da RADA era capaz de o fazer com mais competncia do que tu.

Collins estava a desabafar, a descarregar as tenses e frustraes do dia numa mar de invectivas dirigida apenas a Emma. Ele odiava-a. O que tinha qualquer coisa 
a ver com Christopher; com o facto de o pai dela ter xito e ser famoso. A princpio, ela tentara defender-se, mas agora tinha mais que fazer do que ir contra aquela 
mar venenosa. Com Collins, no se podia ganhar. Ela limitava-se a ouvir, continuava com o seu trabalho, tentava no o deixar perceber o quanto ele conseguia perturb-la 
profundamente.

Conseguiste este trabalho porque eu preciso de algum para me ajudar... Deus me perdoe. No o conseguiste porque o Christo meteu a colher nem porque um idiota qualquer 
se disps a pagar vinte mil por um Ben Litton de manchas vermelhas num fundo azul. Eu sou mais esperto do que isso, como por esta altura, sem dvida, j descobriste. 
Por isso no comeces a pensar que podes andar para a feita indolente a receber os teus amiguinhos de narizes empertigados... e da prxima vez que eles condescenderem 
em visitar o nosso modesto espectculo, tem o cuidado de lhes dizeres para esperarem at termos acabado. Agora v se tiras esse sof da porcaria do caminho...

Eram quase onze quando ele, finalmente, a deixou ir, depois ela encontrou Christo  sua espera no gabinete de Tommy Childers. A porta estava aberta, ela ouviu-os 
a conversar, bateu, meteu a cabea dentro e disse:

J estou pronta. Desculpa ter demorado tanto.

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Christo levantou-se.

No faz mal. Apagou o cigarro. At amanh, Tommy.

At amanh, Christo.

Obrigado por tudo.

Tudo bem, companheiro...

Desceram em direco  porta do palco. Ele ps-lhe um brao em volta da cintura enquanto caminhavam. Os seus corpos quentes tocaram-se, estava calor de mais para 
tal contacto, mas ela achou-o reconfortante. L fora, no pequeno beco que dava para a rua, ele parou, ao p dos contentores, para acender outro cigarro. Observou:

Demoraste-te imenso. O Collins esteve a chatear-te?

Ele ficou furioso porque o Robert Morrow esteve c.

O Robert Morrow?

O que trabalha na galeria com o Marcus.  cunhado do Marcus. Eu contei-te. Veio ver o espectculo... Trouxe uma rapariga com ele.

Christo ficou parado a olhar para ela.

Veio ver o espectculo ou ver-te a ti?

Acho que nos veio ver aos dois.

Ele no pode tentar levar-te de volta, pois no? Dizer que tu s menor ou coisa assim?

Claro que no.

Ento tudo bem.

Sim, suponho que sim. Mas, sabes, portei-me como uma idiota, convidei-os para irem ao apartamento. Eu no tencionava convid-los, mas acabei por faz-lo sem saber 
como, e eles vm. Esto  nossa espera dentro do carro. Oh, Christo, desculpa.

Ele riu-se.

- - Eu c no me importo.

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Eles no vo ficar muito tempo.

No me importo que fiquem a noite toda. No fiques com um ar to trgico.

Abraou-a e beijou-a na cara. Ela pensou como desejava que a noite, o dia, aquele dia interminvel, pudesse acabar ali e agora. Era a nica coisa que lhe daria verdadeira 
satisfao. Tinha medo de Robert. Estava demasiado cansada para lhe fazer frente, para responder a perguntas, para tentar fugir queles olhos cinzentos observadores. 
Estava demasiado cansada para competir com a amiga dele, que era loura, bonita e com um ar quase indecentemente fresco no seu vestido de cavas azul-marinho. Estava 
demasiado cansada para limpar o apartamento para eles, para esconder roupas, desviar guies e levantar copos vazios, para abrir latas de cerveja, fazer caf e tirar 
o jantar de Christo do forno.

Christo esfregou o queixo na face dela.

O que  que se passa? perguntou meigamente.

Nada.

Ele no gostava que ela dissesse que estava cansada. Ele nunca estava cansado. Ele no sabia o que a palavra significava.

Ele disse ao ouvido dela:

Foi um bom dia, no foi?

Foi, claro. Ela afastou-se dele. Um bom dia. Com os braos enlaados, desceram o beco na direco

da rua. Robert ouviu as suas vozes e saiu do carro para ir ao encontro deles. Eles vinham na direco dele, dentro e fora das manchas de luz formadas pelos candeeiros 
da rua. Caminhavam como amantes, Emma arrastando uma camisola de l, Christo com um guio volumoso debaixo de um brao e um cigarro entre os dedos.

Quando chegaram ao p do carro, pararam.

Ol cumprimentou Christopher, sorrindo.

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Christo, este  Robert Morrow e a menina Marshall...

Senhora Marshall corrigiu Jane docemente, reclinando-se no banco.

Ol, Christopher.

Desculpem termos demorado tanto tempo afirmou Christo. A Emma s agora me disse que estavam aqui. E ela esteve a ter a sua discusso nocturna habitual com o Collins, 
por isso estivemos todos bastante ocupados. Creio que vm connosco tomar uma cerveja ou coisa assim. Lamento muito, mas no temos nada mais forte.

Tudo bem disse Robert. Se nos indicarem o caminho...

Claro.

O apartamento ficava na cave de uma vivenda que fazia parte de uma correnteza de medonhas casas vitorianas que em tempos tinham visto melhores dias. Exibiam frontes 
impressionantes e uma decorao constituda por efeitos ornamentais dos tijolos e por janelas com vitrais, mas a rua em si era sombria e os cortinados das janelas 
salientes das salas da frente oscilavam tristemente e nem todos muito limpos. Degraus de pedra gastos conduziam a uma zona onde havia contentores e um ou dois vasos 
de gernios mortos. Enquanto desciam, ouviu-se um miado furioso de um gato frustrado e uma coisa preta em forma de rato disparou pelas escadas acima entre as pernas 
deles. Jane deixou escapar um gritinho de susto.

No faz mal tranquilizou Emma.  s um gato. Christo abriu a porta e entrou  frente, acendendo as

frias luzes do tecto, pois o apartamento era mobilado e no possua candeeiros. Johnny tinha comeado a fazer alguns de garrafas de Chianti, mas no fora alm da 
compra de fichas e de um par de abat-jonrs coloridos. As salas do
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apartamento haviam sido meio transformadas e ainda era tristemente bvio que as suas intenes originrias tinham sido cozinhas, despensas e marquises. Um antigo 
fogo fora arrancado da parede e o vazio da resultante preenchido com prateleiras, que ningum se tinha dado ao trabalho de pintar 
e que serviam de ba para livros, sapatos, guies, cigarros,
cartas e uma pilha de revistas velhas. Havia um div que fora tapado com uma cortina cor de laranja e por almofadas mal cheias, mas que continuava, teimosamente, 
a ser uma cama. Havia uma ou duas cadeiras de cozinha desengonadas, uma mesa desdobrvel e o cho de laje estava coberto por uma escassa carpete velha que h muito 
perdera a cor e a maior parte do plo. As paredes tinham sido caiadas, mas havia manchas bolorentas de humidade que pareciam mapas

e os cantos de um cartaz de uma tourada, colado aos tijolos, 
estavam a comear a enrolar-se. Cheirava a ratos e a caruncho e, mesmo naquela quente noite de Vero, o prprio ar
abafado era hmido, como o interior de uma gruta.

Christo atirou o guio para cima de uma mesa e foi abrir, 
a janela, que era protegida por uma grade de ferro, comouma priso. Vamos apanhar ar fresco. Temos de ter tudo fechado por causa dos gatos, entram por qualquer buraco. 
O que  que querem beber?... H cerveja, se o Johnny no a bebeu
toda... ou talvez queiram caf. Temos caf, Emma?... jtm

H caf instantneo. No compro do outro porque no h onde faz-lo. Sentem-se... sentem-se em cima da cama. Sentem-se em qualquer lado. H cigarros...

Ela encontrou-os, uma caixa de cinquenta, ofereceu-os a todos e procurou um cinzeiro enquanto Robert os acendia. No havia cinzeiro, por isso ela desceu o corredor 
de laje at  cozinha para ir buscar uns quantos pires. O lava-loua estava cheio de pratos sujos e, por um momento, ela no
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conseguiu saber quando  que os tinham usado, quando  que ali estivera pela ltima vez, de que perodo da histria das coisas atrasadas datavam. Numa tentativa 
de se lembrar com clareza, a manh pareceu-lhe ter sido h trs semanas. Nunca nenhum dia durara tanto tempo. Passava das onze da noite e ainda no acabara. E ainda 
tinha de dar de jantar aos rapazes, de ferver gua para fazer caf, de encontrar o abre-
- latas.

Encontrou dois pires limpos e levou-os aos outros. Christo tinha posto um disco. Ele no era capaz de fazer nada, nem sequer falar, sem uma perptua msica de fundo. 
Era Ella Fitzgerald e Cole Porter.

Every time we say good-bye I die a little.

Estavam a falar sobre Daisies on the Grass.

Se consegues dar vida a um guio daqueles dizia Jane a Christopher, de certeza que vais longe. Ela estava a rir-se. Emma pousou o cinzeiro e Jane olhou para cima. 
Obrigada... h alguma coisa que eu possa fazer?

No, nada. Vou s buscar uns copos. Quer cerveja ou prefere caf.

Caf seria incomodar muito?

No, de maneira nenhuma... Eu tambm vou beber caf...

De volta  cozinha, fechou a porta, para que eles no ouvissem o barulho dos pratos, ps um avental e colocou uma cafeteira ao lume. Quando abria o gs, o lume aparecia 
sempre numa enorme chama repentina, a qual lhe pregava sempre sustos de morte. Encontrou um tabuleiro, chvenas e pires, a lata do caf, o acar e as latas de cerveja 
numa caixa por baixo do lava-loua. Havia escaravelhos no cho

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e o Johnny no tinha despejado o balde do lixo. Ela agarrou nele para o ir despejar no contentor, mas enquanto o fazia a porta abriu-se atrs de si e ela virou-se 
para dar de caras com Robert Morrow.

Ele olhou para o balde.

Para onde  que vais levar isso?

Para lado nenhum respondeu Emma, furiosa por ter sido apanhada. Virou-se para voltar a p-lo debaixo do lava-loua, mas ele agarrou-lhe no brao e tirou-lho, olhando 
com repugnncia para a mistura de ervas de ch, latas abertas e sacos de papel molhados.

Para onde  que isto vai? Derrotada, Emma disse-lhe:

Para o contentor. Ao p da porta. Por onde entrmos. Ele levou-o, desceu o corredor, com ar ridculo, e Emma

voltou para o lava-loua e desejou que ele no tivesse vindo. Ele no se enquadrava em Brookford; no teatro; ali, no apartamento. Ela no queria que ele tivesse 
pena dela. Porque, afinal de contas, no havia nada de que ter pena. Ela estava feliz, no estava? Estava com Christo, e isso era a nica coisa que importava, no 
tinha nada a ver com a forma como Morrow e Robert tratavam dos assuntos deles.

Rezava para que ele e a sua amiga imaculada j se tivessem ido embora quando Johnny Rigger voltasse.

Quando ele regressou, com o balde vazio, ela estava a lavar pratos, tentando dar a impresso de que estava muito ocupada. Voltou a cabea por cima do ombro e disse 
firmemente:

Obrigada. Eu no me demoro nada esperando que ele percebesse a insinuao e a deixasse em paz.

Mas no adiantou. Ele fechou a porta, ps o balde no cho e agarrando Emma pelos ombros virou-a, obrigando-a a encar-lo Ele vestia um fato impecvel que parecia 
ser

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fresco, uma camisa azul e uma gravata escura. Emma, com o esfrego numa das mos e um prato na outra, foi obrigada a olhar para cima e a encarar aqueles olhos cinzentos 
penetrantes.

Ela disse:

No devias ter vindo. Porque  que vieste?

O Marcus tem andado preocupado contigo. Ele tirou-lhe o esfrego e o prato e debruou-se para voltar a coloc-los dentro do lava-loua apinhado. Talvez lhe devesses 
ter dito onde estavas.

Bom, agora j lhe podes dizer, no podes? Olha, Robert, tenho muito que fazer e no h espao para duas pessoas nesta cozinha...

Ai no? Ele estava a sorrir. Encostou-se a um lado da mesa e tinha agora o rosto ao mesmo nvel do dela. Sabes, esta noite, quando te vi no teatro, no te reconheci. 
Porque  que cortaste o cabelo?

Ele conseguia ser to desarmante. Emma levou uma das mos  nuca.

Quando eu comecei a trabalhar no teatro era uma maada. Atrapalhava-me, estava muito calor e sujava-se sempre de tinta quando andava a trabalhar nos cenrios. Aqui 
no h onde o lavar, e mesmo que o lavasse ia levar horas a secar. Ela detestava falar do cabelo. Tinha saudades dele; sentia a falta do seu peso e familiaridade 
e da terapia calmante de o escovar todas as noites. Ento uma das raparigas do teatro cortou-mo. Tinha ficado cado no tapete verde, como uma meada de seda castanha, 
e Emma sentira-se uma assassina.

Gostas de trabalhar no teatro? Ela pensou em Collins.

No muito.

Tens de o fazer?...

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No, claro que no. Mas o Christo est aqui o dia todo, sabes, e no h grande coisa para eu fazer. Brookford  terrivelmente montono. Eu nem sequer sabia que existiam 
stios to montonos. Por isso, quando aquela rapariga ficou doente por causa do apndice o Christo arranjou maneira de eu ir dar uma ajuda.

O que  que vais fazer quando ela voltar?

No sei. Ainda no pensei nisso.

Por detrs dela, a cafeteira comeou a ferver. Emma virou-se rapidamente para apagar o gs e colocou a cafeteira em cima do tabuleiro, mas Robert objectou:

Ainda no.

Ela franziu o sobrolho.

Eu ia fazer caf.

O caf pode esperar. Primeiro vais deitar tudo c para fora.

O rosto de Emma fechou-se.

No h nada para deitar c para fora.

Claro que h. Eu quero poder dizer ao Marcus o que  que aconteceu. Por exemplo, como  que vieste parar a casa do Christopher?

Telefonei-lhe, de manh cedo, nesse domingo. Fui  cabina e telefonei-lhe. Estavam a fazer um ensaio geral, por isso ele estava no teatro. Sabes, ele j me tinha 
pedido para vir para Brookford e ficar com ele, mas eu no podia por causa do Ben.

J tinhas falado com ele nessa manh, quando eu me fui despedir de ti?

J.

E no me disseste?

No, no te disse. Queria comear uma coisa nova, uma vida completamente nova, sem que ningum soubesse.

Estou a ver. Por isso telefonaste ao Christopher...

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Foi. E nessa noite ele pediu o carro emprestado ao Johnny Rigger, foi-me buscar a Porthkerris e trouxe-me para aqui. Fechmos a casa juntos e deixmos a chave do 
estdio no Sliding Tackle.

O proprietrio do Sliding Tackle no sabia onde tu estavas.

Eu no lhe disse para onde ia.

O Marcus telefonou-lhe.

O Marcus no devia ter feito isso. O Marcus j no  responsvel por mim. Eu j no sou nenhuma criana.

O que o Marcus sente no  simplesmente responsabilidade, Emma, mas uma verdadeira afeio, e tu devias perceber isso. Tiveste notcias do Ben?

Tive. Recebi uma carta na segunda-feira, de manh, antes de sair de Porthkerris. E uma de Melissa, tambm... convidando-me para ir visit-los.

E respondeste? Emma abanou a cabea.

No.

Estava envergonhada por isso e baixou rapidamente os olhos para mexer numa unha falhada de um polegar.

Porqu?

Ela encolheu os ombros.

No sei. Suponho que pensei que s ia atrapalhar.

Eu teria pensado que at atrapalhar era prefervel a isto... O gesto dele abarcou a cozinha em desordem, todo o apartamento bolorento.

No foi uma observao muito feliz.

O que  que h de errado com isto?

No  s este stio,  tambm aquele teatro a cair de podre, o luntico de barba que te estava a gritar para tirares o sof...

Bom, disseste-me para arranjar um emprego.

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No um emprego destes. Tens miolos, falas trs lnguas e pareces ser minimamente inteligente. Que tipo de emprego  esse de andar a empurrar moblia num teatro de
(((3.a cias...?

O meu verdadeiro trabalho  estar com o Christo! Depois daquela exploso, houve um silncio terrvel.

Um carro passou na rua l fora. A voz de Christopher ouviu-se atravs do corredor, emolvida pela suave msica de fundo. Um gato comeou a miar. Robert disse, por 
fim:

Queres que diga isso ao teu pai? Emma passou outra vez ao ataque.

Bem me parecia que foi por isso que vieste. Espiar para contar ao Ben.

Eu vim simplesmente para descobrir onde estavas e como estavas.

No te esqueas de lhe dar os pormenores macabros todos. No nos importa, e, de qualquer modo, ele est-se nas tintas.

Emma...

No te esqueas de que ele no  um pai vulgar, normalzinho, como tu gostas tanto de me dizer.

Emma, queres fazer o favor de me ouvir!...

Mal tinha pronunciado a ltima palavra, quando a porta atrs dele se abriu de par em par e uma voz entaramelada e alegre o interrompeu.

Olha que conversa to agradvel que vocs esto a ter!

Robert voltou-se.  entrada estava o jovem que tinha representado o papel do corretor da bolsa enfadonho, em Daisies on the Grass. S que agora j no era enfadonho, 
estava simplesmente muito bbedo, e, para se aguentar de p, agarrava-se  parte de cima da ombreirada porta, como um
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macaco a balanar num trapzio. As suas pernas vacilantes no faziam nada para afastar tal impresso.

Ol, querida disse para Emma. Largou a ombreira e entrou na minscula cozinha, tornando-a insuportavelmente apinhada. Com as palmas das mos assentes em cima da 
mesa, inclinou-se para a frente para beijar Emma. O beijo foi sonoro, mas no chegou a mais de dez centmetros da cara dela.

Temos visitas observou ele e um grande carro estacionado l fora. D um grande estilo ao bairro. As pernas dele tornaram a vacilar e por um segundo o peso do seu 
corpo foi suportado apenas pelos braos. Sorriu expansivamente para Robert. Como te chamas?

Chama-se Robert Morrow ripostou Emma com secura. Vou fazer-te caf.

Eu no quero caf. Eu no quero caf. Levantou o punho para acompanhar as palavras e de novo as pernas atraioaram-no. Desta vez Robert apanhou-o e segurou-o direito.

Obrigado, amigo. Foi muito civil da sua parte. Emma, e que tal qualquer coisa para aquecer o estmago? Para saciar o apetite? Sabes qual  a rotina. Espero que tenhas 
convidado este tipo simptico para ficar para jantar. Tambm h uma loura apetitosa na outra sala, a ter uma conversa e pras com o Christopher. Sabes alguma coisa 
dela?

Ningum se deu ao trabalho de lhe responder. Emma virou-se para o fogo, tirou a tampa da cafeteira e voltou a coloc-la. Johnny Rigger olhou para as costas dela 
e depois para Robert, aparentemente  espera de que a vida, com todas as suas confuses, lhe fosse explicada.

Robert no se atrevia a falar. Ansiava por agarrar aquele bbedo aos tombos pelo cachao e atir-lo para um lado qualquer; de preferncia para o contentor, onde 
ele tinha

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acabado de deitar o contedo malcheiroso do balde do lixo. Depois voltaria para tratar de Emma da mesma maneira, atirava-a para o banco de trs do carro e levava-a 
para Londres, para Porthkerris, para Paris para qualquer lado, longe daquela cave horrvel, do teatro, da cidade suburbana deprimente.

Ele olhava para o virar de costas teimoso dela, desejando que ela se voltasse e olhasse de frente para ele. Mas ela no se mexeu e o seu pescoo delgado, a sua cabea 
rapada e os ombros cados, que noutras circunstncias teriam apelado  simpatia dele, no fizeram mais do que enfurec-lo.

Ele disse, por fim, em tom formal:

Isto , pura e simplesmente, uma perda de tempo para toda a gente. Penso que  melhor eu e Jane irmos embora.

Emma aceitou-o em silncio, mas o Johnny fartou-se de protestar:

Oh, tens de ficar, amigo. Fica e come qualquer coisa...

Mas Robert j tinha passado por ele com um empurro e ia a meio do corredor. Encontrou os outros dois numa grande conversa e completamente a leste de qualquer tipo 
de drama. Christopher estava a comentar:

Sim,  uma pea maravilhosa. E que papel! Pode ser-se criativo nele; no entanto, sem nunca o sobrecarregar nem interferir na encenao...

E recordou-se, com amargura, da velha anedota sobre os actores.

"Ora, vamos l falar de ti, meu amigo. O que  que tu pensaste da minha actuao?"

Suponho que no esto a discutir Daisies on the Grass.

Christopher olhou em volta.

Santo Deus, no! Present Laughter. O que  que a Emma est a fazer?

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O teu amigo acaba de chegar.

O Johnny? Sim, vimo-lo entrar aos tombos.

Ele est bbedo.

Est muitas vezes. Ns enchemo-lo de caf e metemo-lo na cama. De manh acorda como novo.  uma pena.

H alguma razo particular por que ele tenha de estar aqui contigo e com a Emma?

Christopher ergueu as sobrancelhas.

Todas as razes. A sua voz era fria. O apartamento  dele. Ele chegou aqui primeiro. Eu fui o segundo. A Emma fez uma terceira entrada muito confortvel.

Houve uma pausa na conversa. Jane, antevendo o pior, interviu habilidosamente.

Robert, est a fazer-se tarde... Agarrou na mala e nas luvas e levantou-se do div. Talvez seja melhor irmos andando.

Mas no tomaste o teu caf. Ou a cerveja, ou qualquer coisa. O que  que a Emma est a fazer?

O melhor que pode para manter o senhor Rigger de p informou-o Robert. Sugiro que a vs ajudar. As pernas dele no parecem estar a aguentar-se l muito bem.

Christopher, encolhendo os ombros, reconheceu o facto. Esticou as pernas, que estavam enroladas na cadeira baixa onde tinha estado sentado, e levantou-se.

Bem, se tm mesmo de ir...

Penso que sim. Obrigado por...

As palavras esvaram-se. No havia nada de que lhe agradecer. Christopher parecia divertido e Jane mais uma vez veio em socorro de Robert.

Obrigada pela tua maravilhosa actuao desta noite. No a esqueceremos. Ela estendeu-lhe a mo. Adeus.

Adeus. Adeus. Robert.

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Adeus, Christopher. E nessa altura ele teve de se obrigar a diz-lo. Cuida da Emma.

Voltaram para Londres, transgredindo o limite de velocidade. Na auto-estrada, a agulha do velocmetro no parava de subir. Oitenta, noventa, cem...

Jane disse:

Vais meter-te em sarilhos.

J estou ripostou Robert secamente.

Discutiste com a Emma?

Discuti.

Pareceu-me que estavas um pouco tenso. Foi porqu?

Meter o nariz onde no sou chamado. Dar sermes. Intrometer-me na vida dos outros. E tentar fazer uma rapariga extremamente inteligente ser minimamente sensata. 
Alm do mais, estava com um aspecto horrvel. Com cara de doente.

Isso passa-lhe.

A ltima vez que a vi estava morena como uma cigana, com o cabelo at  cintura e toda ela irradiava frescura, como um fruto maduro delicioso. Recordou-se do prazer 
de um beijo de despedida. Porque  que as pessoas tm de fazer coisas to horrveis a si prprias?

No sei respondeu Jane. Talvez por causa do Christopher.

Como  que te entendeste com ele? Quero dizer, para alm de te teres apaixonado.

Ela ignorou isso.

 esperto. Decidido. E ambicioso. Penso que vai longe. Mas sozinho.

Queres dizer sem Emma?

Eu diria que sim.

Mesmo  uma da manh Londres era uma cidade viva, cheia de luzes e de trfego Voltaram para Sloane Squrr

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e apanharam a rua estreita que conduzia ao ptio onde ficava a casa de Jane. Ao p de casa dela ele desligou o motor do Alvis e podia ouvir-se o silncio. Os candeeiros 
da rua faziam brilhar o empedrado da rua, luzir o capot do carro e o cabelo louro e brilhante de Jane. Ele comeou a procurar um cigarro, mas Jane f-lo primeiro. 
Meteu-lhe o cigarro na boca e acendeu-lho. Nesse instante, os olhos dela ficaram maiores e misteriosamente sombreados; havia tambm uma pequena sombra sedutora, 
como um borro, por baixo da curva do seu lbio inferior.

Ela apagou o isqueiro. Ele comentou:

Foi uma noite horrvel. Desculpa.

Foi uma coisa diferente. Foi interessante.

Ele tirou o bon e atirou-o para o banco de trs.

Achas que eles esto a viver juntos? perguntou ele.

Meu querido, no sei.

Mas ela est apaixonada por ele.

Eu diria que sim.

Durante um momento ficaram em silncio. Depois Robert espreguiou-se, dobrando-se para trs, aps a longa viagem. Ele disse:

No chegmos a jantar, pois no? Tu, no sei, mas eu tenho fome.

Se quiseres fao-te uns ovos mexidos. E sirvo-te um grande usque com gelo.

Ests a fazer-me crescer gua na boca... Riram-se, baixinho. "Riso da noite", pensou ele. "Riso

de almofada." Levou-lhe uma das mos  nuca, penetrou-lhe os cabelos com os dedos e debruou-se para a beijar nos lbios. Ela sabia a doce e a fresco. Os lbios 
dela abriram-se, ele atirou o cigarro fora e abraou-a com fora.

Um momento depois ele afastou os lbios doa dela.


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De que estamos  espera, Jane?

De uma coisa. Ele sorriu.

De qu?

De mim. No quero comear uma coisa que nunca vai ser acabada. No quero ser magoada outra vez. Nem por ti, Robert, e s Deus sabe o quanto eu gosto de ti.

Ele disse:

Eu no te vou magoar. Estava a falar a srio e beijou a sombra por baixo dos lbios dela.

E, por favor pediu ela, mais Littons, no. Largou-a ento, saram do carro e fecharam as portas to

silenciosamente como tinham rido juntos. Jane encontrou a chave, Robert tirou-lha da mo e abriu a porta, entraram, Jane acendeu a luz, comeou a subir as escadas 
estreitas e Robert fechou a porta, devagar, atrs deles.

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Uma das delcias da grande casa antiga de Milton Gardens era viver nela no Vero. Ao fim de um dia quente e abafado de Junho, e depois das frustraes de uma viagem 
a passo de caracol e a cheirar a combustvel por Kensington High Street, era, de facto, um prazer entrar pela porta da frente e fech-la atrs de si com um fim feliz. 
A casa estava sempre fresca. Cheirava a flores e a cera. Em Junho, as nogueiras rebentavam e ficavam to carregadas de folhas e de flores cor-de-rosa e brancas que 
as casas circundantes desapareciam de vista, os sons do trfego eram abafados e apenas um ou outro avio ocasional quebravam a calma da noite.

Aquele dia era um exemplo clssico desse alvio particular. Previa-se trovoada e desde manh que a temperatura se elevava firmemente  medida que as nuvens da tempestade 
se juntavam. Sob uma atmosfera to carregada, a cidade sufocava de calor. Por essa altura, os parques estavam empoeirados, a relva pisada a ficar castanha e o ar 
em volta to refrescante como uma golada rpida de gua morna. Mas ali, em casa, Helen tinha os dispositivos de rega a funcionar no relvado, uma lufada de ar fresco 
e hmido entrava pela porta aberta no outro extremo do vestbulo, dando as boas-vindas a Robert quando este entrou em casa.

Atirou o chapu para cima da cadeira do vestbulo, agarrou nas suas cartas e chamou:

Helen?

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Ela no estava na cozinha. Atravessou o vestbulo, saiu, desceu os degraus para o jardim e encontrou-a, juntamente com um tabuleiro de ch, um livro no lido e um 
cesto de costura. Estava com um vestido de algodo de cavas, um par de alpergatas velhas e o sol descobrira-lhe sardas, grandes como manchas de tinta, no nariz.

Ele atravessou a relva na direco dela, despindo o casaco do fato.

Ela disse:

Apanhaste-me sem fazer nada.

E muito bonita. Atirou o casaco para cima das costas de uma cadeira de ferro forjado pintada e sucumbiu ao lado dela. Que dia! Ainda h alguma coisa nesse bule?

No, mas posso fazer mais.

Porque  que no posso ser eu a fazer? respondeu Robert automaticamente, mas sem entusiasmo notvel.

Ela no respondeu  pergunta hipottica, levantou-se e levou o bule para dentro. Havia um prato de biscoitos, ele tirou um e comeou a com-lo, alargando o n da 
gravata com a outra mo. Sob os dispositivos de rega a relva crescia espessa e verde. Estava a precisar de ser cortada outra vez. Ele inclinou-se para trs e fechou 
os olhos.

Fazia agora seis semanas que estivera em Brookford  procura de Emma Litton e durante todo aquele tempo no tinha sabido notcias dela. Depois de discutir o assunto 
com Marcus e Helen escrevera a Ben, dizendo-lhe que Emma estava com Christopher Ferris, que havia reencontrado em Paris. Que ela estava a trabalhar no teatro de 
repertrio em Brookford. Que ela estava bem. No podia, na verdade, dizer mais nada. Para surpresa sua, Ben confirmara a recepo da carta, no escrevendo directamente 
para Robert, mas
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numa nota de rodap, escrita  mo, numa carta para Marcus. O objectivo da carta em si era puramente profissional, escrita  mquina no impressionante papel timbrado 
do Museu de Belas-Artes. A exposio retrospectiva de Litton estava agora terminada. Tinha sido um xito retumbante em todos os sentidos. Ora, a nova exposio, 
uma coleco pstuma de desenhos de um gnio porto-riquenho, que tinha morrido recentemente em circunstncias obscuras num sto de Greenwich Village, estava bem 
encaminhada e ele e Melissa estavam a aproveitar a oportunidade para uma viagem ao Mxico. Tencionava comear a pintar outra vez. No sabia quando voltaria a Londres. 
Mandava cumprimentos. E depois, por baixo da assinatura, nos gatafunhos indecifrveis de Ben:

Recebi uma carta de R. Morrow. Por favor, agradece-lhe. A Emma sempre gostou muito do Christopher. S espero que as maneiras dele tenham melhorado.

Marcus mostrara-o a Robert.

No sei o que  que esperavas dissera-lhe secamente, mas foi isto que obtiveste.

E fora assim que tudo terminara. Pela primeira vez, Robert deu consigo inteiramente de acordo com a sua irm Helen. Os Litton eram brilhantes, imprevisveis e encantadores. 
Mas recusavam submeter-se a qualquer padro de comportamento preestabelecido e no se ajudariam a si mesmos. Por isso eram impossveis.

Para sua surpresa, descobriu que Emma era fcil de esquecer. Conseguia tir-la da cabea to implacavelmente como um ba cheio de coisas velhas relegado para o recanto 
mais esconso de um sto distante e poeirento. A sua vida ficara de imediato to cheia que o vazio deixado pela 
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ausncia dela fora, quase de um momento para o outro, preenchido por ocupaes mais vlidas.

Na galeria andavam muito ocupados. Os dias dele eram uma roda-viva de possveis clientes, visitantes estrangeiros e jovens artistas ansiosos de pastas a abarrotar 
com as suas pinturas insalubres. A Galeria Bernstein faria uma exposio dos seus trabalhos? A Galeria Bernstein apoiaria aquela chama de novo talento? A resposta 
era normalmente no, a Galeria Bernstein no o faria, mas Marcus era um homem bondoso e era regra da casa que nenhum jovem fosse recambiado para Glasgow, Bristol 
ou Newcastle, ou para onde quer que vivesse, sem uma boa refeio no estmago e a importncia da viagem de regresso no bolso dos jeans genuinamente manchados de 
tinta.

Robert descobriu que a sua vitalidade ia ao encontro daquelas exigncias e que, correndo a toda a velocidade, a sua energia no podia abrandar ou no abrandaria. 
No suportava dar consigo sem fazer nada e preenchia deliberadamente os seus tempos livres com distraces diferentes, um surpreendente nmero das quais estavam 
relacionadas com Jane Marshall.

O facto de as horas de trabalho dos dois nem sempre coincidirem no o desencorajava de forma alguma. Por vezes ele aparecia para uma bebida em casa dela, de caminho 
para casa vindo da galeria, e encontrava-a ainda de bata, a coser fita em metros e metros de cortinado, ou a resolver as dificuldades de uma sanefa recortada em 
papel milimtrico. Outras vezes ela estava fora da cidade e ele ocupava a noite com trabalho fsico desgastante, cavando o jardim ou cortando a relva.

Um fim-de-semana ele e Jane foram a Bosham, onde o irmo de Jane tinha uma pequena casa de praia e mantinha um catamar ancorado nas guas agitadas do Hard.
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Velejaram durante todo o domingo. Havia uma brisa estvel, um sol brilhante e bronzeante, e, no final do dia, sonolentos de tanto ar fresco, sentaram-se no pub da 
aldeia a beber canecas de cerveja e a jogar s moedas. Voltaram para Londres muito tarde, com a capota do Alvis para trs e o vento a soprar pedaos de nuvem para 
a cara das estrelas. Helen tinha comeado outra vez a dizer:

Acho que devias casar com ela.

Robert ignorava a suspeita incomodativa de que ele se andava a portar mal e respondia apenas:

Talvez case.

Mas quando? De que  que ests  espera?

Ele no respondia, porque no sabia. S sabia que aquela no era a altura certa para fazer planos; nem balanos; nem para comear a analisar os sentimentos que nutria 
por Jane.

Fora perturbado por Helen, que voltava com o seu tabuleiro de ch. Ela pousou-o e a mesa de ferro rangeu no empedrado quando o empurrou na direco dele. Ela informou:

O Marcus ligou  hora do almoo.

Marcus tivera de voltar  Esccia. O baronete escocs amante de usque, que tinha estado to ansioso por despachar os seus tesouros artsticos, estava a ser contrariado 
pelo filho, que, presumivelmente, herdaria os tesouros da famlia e no queria que fossem vendidos j. Ou, se a ideia era vend-los, ele queria trs vezes mais do 
que o seu sedento pai estava preparado para pedir. Depois de muitos telefonemas dispendiosos, Marcus decidira com relutncia que tinha de ser feita outra visita 
ao Norte da fronteira. Os negcios tinham de vir sempre antes dos confortos e preferncias pessoais, e se, para pr as mos naqueles quadros, tinha de dormir em 
camas hmidas e quartos glidos e comer refeies

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terrivelmente mal cozinhadas, ento ele estava pronto a faz-lo.

Como  que lhe esto a correr as coisas''

Ele foi reservado. Estava, sem dvida, a falar de uma sala de qualquer baro, com o proprietrio velho a ouvir de um canto da sala e o proprietrio novo do outro.

Ele conseguiu os quadros?

No, mas vai conseguir. Se no todos, pelo menos alguns... Ela afastou-se um pouco, atravessando a relva, para mudar o dispositivo de rega. Ele est determinado 
em relao ao Raeburn disse ela, por cima do ombro. Compra-o por qualquer preo.

Robert deitou o ch e comeou a ler o jornal da tarde. Quando Helen voltou, ele estendeu-lho, aberto, numa pgina central.

O que  isto? perguntou ela.

Essa rapariga. A Dinah Burnett...

Quem ?

J lhe devias conhecer a cara.  uma jovem actriz com um agente publicitrio eficiente. Cada vez que se abre um jornal ou uma revista h uma fotografia dela debruada 
sobre um piano, a abraar um gatinho ou a fazer qualquer coisa igualmente trivial.

Helen fez uma cara cmica perante a fotografia sexy e ousada e leu a legenda em voz alta.

Dinah Burnett, a ruiva que teve tanto impacto na srie televisiva Detective, anda agora em ensaios para a nova pea de Amos Monihan, The Glass Door, a sua primeira 
aposta sria no teatro. "Estou assustada", disse ela ao nosso reprter especial, "mas muito orgulhosa por ter sido escolhida para esta pea maravilhosa." A senhora 
Burnett tem vinte e dois anos e  de BarnsIcy.

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No sabia que havia uma nova pea do Amos Monihan a estrear. Quem  o encenador?

Mayo Thomas.

Ento ela deve ser boa actriz. Extraordinrio, o talento que pode haver por trs de caras realmente muito estpidas. Mas porque  que me mostraste isto de repente?

Por nenhuma razo especial, na realidade.  que a Jane anda-lhe a decorar um apartamento. A princpio ia ser uma coisa muito modesta, mas assim que ela conseguiu 
este papel achou que tinha passado a pertencer  classe dos grandes gastadores; sabes, casas de banho espelhadas e colchas de pele de marta branca.

Muito bem comentou Helen. Voltou a atirar o jornal para o colo dele, mas ele estava com demasiado calor e preguia para o apanhar, por isso escorregou-lhe do joelho 
para o cho. Pouco depois, Helen comeou de uma forma desordenada a reunir as coisas do ch. Agarrou no tabuleiro e comeou a andar para casa.

E o jantar? perguntou. Vais a casa da Jane ou ficas por c?

Vou a casa da Jane.

ptimo. Eu como uma fatia de queijo. Est demasiado calor para cozinhar, de qualquer modo.

Quando ela se foi, ele acendeu um cigarro e ficou sentado a ouvir os pombos e a ver as sombras crescerem na relva. Quando acabou o cigarro, voltou para dentro de 
casa, subiu ao seu apartamento, onde tomou um duche, fez a barba e mudou para jeans e uma camisa fresca. Enquanto estava a servir a primeira bebida da noite, o telefone 
tocou. Ele encheu o copo at meio de soda e foi  sua secretria atender. Era Jane.

- - Robert?

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Sim.

Sou eu, querido. Olha, era s para te avisar para no chegares antes de por volta das oito...

Porqu, ests a receber algum amante?

Antes fosse. No,  a Dinah Burnett, teve uma ideia nova para a casa de banho, diabos a levem, e quer vir c depois dos ensaios para falar sobre isso.

Para uma rapariga que est to orgulhosa por entrar naquela maldita pea pensa muito em coisas materiais, no achas?

Ento estiveste a ler o jornal da tarde. Aquele anncio d-me a volta ao estmago.

No percebo porque  que no se deu ao trabalho de mencionar que estava a decorar um apartamento, que tinha escolhido uma decoradora de interiores muito conhecida, 
a Jane Marshall, de vinte e sete anos, 34, 26, 36, para a ajudar. Querias ir jantar fora?  que no estou vestido para isso.

No, claro que no, est demasiado calor. Tenho galinha fria e estava a pensar em fazer uma salada.

Eu vou numa garrafa de vinho fresco.

Delicioso.

Ento at s oito.

Sim, s oito. Ele estava prestes a pousar o auscultador quando ela voltou a insistir.

No venhas antes e desligou.

Perplexo, ele pousou o auscultador e depois decidiu que devia ter imaginado uma certa ansiedade na voz dela. Foi buscar gelo para a bebida.

Deliberadamente, Robert chegou um pouco atrasado, mas mesmo assim, quando parou ao p da casa de Jane, ainda havia um Fiat azul estacionado  porta. Ele buzinou 
duas vezes, como era habitual, e saiu do carro, levando a garrafa do vinho. Quase de imediato, a porta da frente abriu-se e
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Jane apareceu com umas calas coadas de algodo cor-de-rosa e uma blusa cavada. O cabelo caa-lhe para a cara e parecia, para a Jane, extremamente perturbada, fazendo 
gestos agitados com a mo e apontando para o andar de cima. Ele estava divertido. Foi beija-la.

O que  que se passa?

Ela aceitou a garrafa de vinho.

Ela ainda c est. Nunca mais se vai embora. No pra de falar. E agora que tu chegaste, nada a far arrancar.

Dizemos que vamos sair e que j estamos atrasados.

Suponho que vale a pena tentar. Tinham estado a falar em sussurro. Depois ela disse em voz alta:

No tinha a certeza se eras tu. Anda, sobe. Ele seguiu-a pela estreita escada inclinada.

Dinah, apresento-te o Robert Morrow... Apresentou-os com naturalidade, antes de ir  cozinha pr o vinho. Ele ouviu a grande porta do frigorfico a abrir e fechar 
enquanto ela guardava a garrafa.

Dinah Burnett estava sentada no grande sof de Jane, ao p da janela aberta, com as pernas enroladas por baixo do corpo, parecendo que estava  espera de um fotgrafo, 
de um entrevistador ou de um possvel amante. Era uma rapariga bonita e vistosa e Robert pensou que nenhuma fotografia lhe podia fazer justia. Tinha cabelo arruivado 
e olhos verde-claros, pele de pssego e uma constituio com propores que so normalmente descritas como "generosas". Usava um vestido simples, curto, de um verde 
a condizer com os olhos e que talvez tivesse sido concebido para mostrar o mais possvel dos seus braos macios e bem torneados e das suas pernas interminveis. 
Calava sandlias grosseiras, os seus pulsos chocalhavam com pulseiras de ouro e nas orelhas, brilhando atravs da exuberncia do cabelo, enormes argolas de ouro. 
Os seus dentes eram brancos e certos ^

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pestanas longas e pretas como fuligem e era difcil de acreditar que tivesse nascido em Barnsley.

Muito prazer cumprimentou Robert. Apertaram as mos. Acabei de ler tudo sobre si no jornal da tarde.

A fotografia  medonha, no ? Ela ainda tinha um indcio simptico de um sotaque de Yorkshire. Pareo uma empregada de bar desgostosa. Mas, mesmo assim, suponho 
que  melhor do que nada.

Ela sorriu-lhe, todo o seu encanto feminino emergindo ao engodo de mais um homem atraente e Robert, lisonjeado e estimulado pela simpatia dela, instalou-se na outra 
ponta do sof. Ela continuou:

Eu no devia de forma nenhuma estar aqui, mas a Jane est a decorar o meu novo apartamento e eu hoje encontrei uma revista americana com uma casa de banho fabulosa 
e tinha de a trazer, depois dos ensaios, para lhe mostrar.

Como  que est a correr a pea?

Oh,  muito excitante.

 sobre qu?

Bem, ...

Nesta altura, Jane reapareceu vinda da cozinha e interrompeu bruscamente.

Que tal uma bebida? Dinah, o Robert e eu, na verdade, vamos sair, mas temos tempo  conta para uma bebida antes de ires.

Oh, isso  muito simptico. Se tm a certeza. Gostava de um copo de cerveja.

E tu, Robert?

Parece-me uma ideia simptica, eu vou buscar...

No, deixa estar. Eu vou. Ela tirou a tampa de uma garrafa de cerveja e encheu um copo habilmente, sem espuma. Dinah, o Robert  negociante de arte, trabalha na 
Galeria Bernstein, em Kent Street.

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Ah, , a srio? exclamou a senhora Burnett, de olhos arregalados e interessada, mas sem perceber muito bem. Vende quadros e coisas assim?...

Bem, sim...

Jane levou a cerveja de Dinah, puxou uma pequena mesa e pousou o copo.

O Robert  um homem com muitas potencialidades informou ela. Est sempre a viajar para Paris ou Roma, para fazer grandes negcios, no , Robert? Ela voltou para 
o tabuleiro das bebidas. Dinah, devias pedir-lhe para procurar um quadro para o novo apartamento. Precisas de uma coisa moderna por cima da lareira e, nunca se sabe, 
pode ser um investimento. Uma coisa para vender quando os bons papis se acabarem.

No me fales em acabar. Ainda agora comecei. Alm disso, no seria muito caro?

No to caro como essa casa de banho americana. Dinah sorriu cativante.

Mas eu acho sempre que uma casa de banho  terrivelmente importante.

Jane tinha servido mais duas bebidas que levou e deu uma a Robert. Depois instalou-se numa cadeira do lado oposto ao sof e olhou para ambos do outro lado da mesa 
baixa.

Bem, o apartamento  teu, gatinha condescendeu ela.

O seu tom de voz estava um pouco cido. Robert atalhou rapidamente:

Ainda no me falou da nova pea... The Glass Door. Quando  que estreia?

Quarta-feira. Esta quarta-feira, pelos vistos. No Regent Theatre.

- Temos de tentar arranjar bilhetes, Jane.

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Sim, claro concordou Jane.

S de pensar na primeira noite fico doente dos nervos. Sabe,  o meu primeiro papel a srio no teatro, e se o Mayo no fosse um encenador to fabuloso, eu tinha 
desistido h semanas...

Ainda no nos disse sobre o que .

Bem, ... Ah, sei l.  sobre um jovem, oriundo de uma famlia normal da classe operria. Escreve um livro, que vem a ser um best seller, e ele torna-se numa espcie 
de celebridade... sabem como , comea a aparecer na televiso e assim. Depois anda metido com gente do cinema, vai sempre enriquecendo cada vez mais e comea a 
ficar cada vez mais nojento. Bebe, tem muitas aventuras amorosas, na prtica quer  andar na boa vida. E depois, claro, no fim, o telhado cai-lhe em cima, tudo se 
desmorona como um castelo de cartas e ele acaba exactamente no ponto em que comeou: na casa da me, na cozinha, com a sua velha mquina de escrever e uma folha 
de papel em branco. Parece corriqueiro, eu sei, mas  comovente e real e o dilogo  do outro mundo.

Acha que vai ter xito?

No vejo como  que pode no ter. Mas claro que eu sou suspeita.

Que papel  que faz?

Oh, sou s uma das muitas raparigas. Mas sou diferente, porque engravido.

Encantador murmurou Jane.

Mas no  nada srdido, absolutamente nada Dinah garantiu-lhe. Quando li o guio pela primeira vez, no sabia se havia de chorar ou de rir.  a vida real, suponho.

Claro. Jane acabou a sua bebida, pousou o copo vazio e olhou para o relgio. Disse, cortante Robert, vou

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subir para mudar de roupa. No podemos chegar atrasados, seno vo ficar todos  nossa espera. Ela levantou-se. Vais desculpar-me, no vais, Dinah?

Claro, e obrigada por teres sido to simptica em relao  casa de banho. Eu telefono-te para te dizer o que decidi.

Sim, faz isso.

Depois de ela subir, Dinah sorriu mais uma vez, confiadamente, para Robert.

Espero no estar a demorar-vos. Vou-me embora quando acabar a minha bebida, mas, neste momento, vivo num stio to atafulhado que  deprimente. E est tanto calor, 
no est? Quem me dera que trovejasse. Se ao menos trovejasse, ficava muito mais fresco.

Esta noite vai trovejar, tenho a certeza. Conte-me, como  que conseguiu esse papel?

Bem, o Amos Monihan, sabe, o que escreveu a pea, tinha-me visto na televiso, na srie Detective, ligou para o Mayo Thomas e disse que pensava que eu era a pessoa 
certa para o papel. Por isso fui a uma audio. Na realidade,  tudo.

E quem  que faz o papel principal? O jovem! O escritor?

A  que est o desafio. Os produtores queriam um grande nome, algum famoso. Mas o Mayo tinha descoberto um rapaz novo, tinha-o visto numa companhia qualquer da 
provncia e, no sei como, convenceu o homem do dinheiro a dar-lhe uma oportunidade.

Ento tm um desconhecido no papel principal?

 isso mesmo confirmou Dinah. Mas, acredite -me, ele  muito bom.

Ela terminou a sua bebida. L em cima, Jane andava de um lado para o outro no quarto, abrindo e fechando gavetas. Robert levantou-se para voltar a encher o copo 
vazio.

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Quer a outra metade?

No, a srio, obrigada.  melhor no os demorar mais tempo... Ela levantou-se, puxando o vestido para baixo e afastando o seu comprido cabelo do pescoo. Gritou 
para as escadas:

Vou sair. Adeus, Jane!

Oh, adeus. O tom de Jane parecia mais amigvel, agora que a sua visita estava, na realidade, de sada.

Dinah comeou a descer as escadas e Robert seguiu-a, tencionando, num gesto simptico, acompanh-la ao carro. Por cima do cabelo exuberante dela, ele debruou-se 
para abrir o trinco da porta da frente de Jane. L fora, o ptio dormia ao calor abafado do fim da tarde.

Ele disse:

Vou fazer figas por quarta-feira.

Bem haja.

Saram para a rua. Ele abriu a porta do Fiat para ela entrar. Perguntou:

Como  que se chama o tal jovem actor?

Dinah deslizou para o lugar do condutor, revelando mais a perna do que era bom para a tenso de qualquer um. Respondeu:

Christopher Ferris.

Ele pensou: "Ento era por isso que a Jane no queria que eu me encontrasse contigo."

Christopher Ferris? Eu conheo-o.

Conhece? Que engraado.

Pelo menos... conheo a irm dele.

Eu no sei nada sobre a famlia dele.

Ele nunca falou dela? Nunca mencionou a Emma?

Nunca disse uma palavra. Mas tambm os homens, normalmente, no falam sobre as irms, pois no?

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Ela riu-se, fechou a porta do carro, mas a janela estava aberta e Robert encostou nela o cotovelo, como um marinheiro com um p entre a porta.

Ele disse:

Gostava de lhe desejar boa sorte.

Eu amanh dou-lhe o seu recado.

Eu no podia telefonar-lhe?

Bem, suponho que sim, mas as chamadas no so propriamente bem-vindas quando estamos a trabalhar. Depois ela teve uma ideia brilhante. J sei, tenho o nmero de 
casa dele, algures. Tive de lhe telefonar uma vez para lhe dar um recado do Mayo.

Ela agarrou na mala, que estava no banco do lado, e comeou a vasculhar. Tirou um guio, uma bolsa, um leno, um frasco de bronzeador, uma agenda. Folheou a agenda.

C est, Flaxman 8881. Quer que lho escreva?

No, eu no me esqueo.

Talvez ele l esteja... No sei o que  que ele faz nos tempos livres. Ela voltou a sorrir. Imagine, pensar que o senhor o conhece. O mundo  pequeno, no ?

. O mundo  pequeno. Ela ps o motor a trabalhar.

Bom, foi um prazer conhec-lo. Adeus. Ele afastou-se.

Adeus.

O pequeno carro roncou rua abaixo e ele observou-o a afastar-se. No cruzamento, no final da rua estreita, parou por um momento, depois arrancou, virou  esquerda 
e desapareceu, o som do seu motor engolido pelo rugido annimo que era o trfego de Londres.

Ele voltou para dentro de casa, fechou a porta e subiu as escadas. No havia qualquer som vindo do quarto.

Jane.

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Ela comeou imediatamente a andar de um lado para o outro, como se estivesse ocupada.

Jane.

O que ?

Anda c.

Mas no estou...

Anda c abaixo.

Momentos depois, ela apareceu no topo das escadas, embrulhada num roupo fino. O que ?

 o Christopher Ferris retorquiu Robert.

Ela olhou fixamente para baixo, para ele, a sua expresso fechada e de sbito implacvel.

O qu sobre Christopher Ferris?

Sabias que ele entrava nesta pea. Que ele est em Londres h este tempo todo.

Ela desceu as escadas na direco dele. Quando tinha o rosto  sua altura, disse com frieza:

Pois sabia.

Mas no me disseste. Porqu?

Talvez porque no acredito em remexer em guas passadas. Alm disso, prometeste. Mais Littons, no.

Isto no tem nada a ver com essa promessa.

Ento porque  que ests to exaltado e perturbado? Olha, Robert, eu acho que em relao a este assunto penso da mesma forma que a tua irm Helen. A actuao da 
Galeria Bernstein, num campo profissional, relativamente ao Ben Litton, est muito bem, mas os compromissos relacionados com essa famlia no devem ir para alm 
disso. Sei da situao da Emma, do tipo de vida que ela tem levado e tenho pena dela. Fui a Brookford contigo e vi aquele teatrinho arrepiante e aquele apartamento 
horrvel. Mas ela  adulta e, como tu prprio disseste, altamente inteligente... O que

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 que tem que o Christopher esteja em Londres? Isso no quer dizer que a Emma tenha sido abandonada. Faz parte do trabalho dele e ela aceit-lo- como tal, tenho 
a certeza.

Isso continua a no explicar porque  que no me disseste.

Talvez porque soubesse desde o princpio que tu comearias a andar s voltas como um co demente. Imaginando o pior, censurei a minha responsabilidade, simplesmente 
porque a pobre rapariga  filha do Ben Litton. Robert, tu viste-a. Ela no quer ser ajudada. E, se tentares, estars apenas a interferir...

Ele disse devagar:

No sei se ests a convencer-me ou a ti prpria.

Grande parvo, estou a tentar fazer com que vejas a verdade.

A verdade  que, pelo que sabemos, Emma Litton est sozinha, a viver numa cave bolorenta com um bbedo paraltico.

No foi isso que ela escolheu fazer?

Ela atirou-lhe a pergunta e depois, antes de ele poder responder, passou por ele de raspo, a caminho do carro das bebidas, e comeou a andar de um lado para o outro 
com copos vazios e tampas de garrafas de cerveja numa fraca encenao de estar a fazer arrumaes. Ele olhava, com uma grande tristeza, as costas dela, a mancha 
dourada de cabelo, a cintura fina, as mos habilidosas e pequenas. Ela era implacvel.

Ele disse com brandura:

A Dinah Burnett deu-me o nmero do Christopher. Talvez fosse melhor eu ligar-lhe daqui.

Faz como quiseres. Ela levou os copos para a cozinha. Robert agarrou no telefone dela e digitou o nmero de que se lembrava. Jane voltou para levar as garrafas vazias,.

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Est. Era Christopher.

Christopher, fala Robert Morrow. No sei se se recorda, eu fui a Brookford...

Para ver a Emma. Sim, claro. Esplndido! Como  que soube onde me encontrar?

A Dinah Burnett deu-me o seu nmero. Tambm me contou sobre The Glass Door. Parabns.

Guarde-os at vermos o que os crticos tm a dizer.

Mesmo assim,  um grande esforo. Olhe, queria saber de Emma.

A voz de Christopher tornou-se cautelosa.

Sim?

Jane tinha voltado da cozinha e estava agora ao p da janela, de braos cruzados, a olhar l para baixo, para a rua.

Onde  que ela est?

Em Brookford.

No apartamento? Com o seu amigo?

O meu amigo? Ah, o Johnny Rigger? No, ele foi-se embora. Uma manh chegou aos ensaios bbedo e o encenador p-lo fora. A Emma est sozinha.

Cuidadosamente, controlando a sua clera, Robert disse:

No pensou uma nica vez em ligar ao Marcus Bernstein, ou para mim, para nos dizer isso?

Bem, eu teria pensado nisso, mas, antes de me vir embora de Brookford, Emma obrigou-me a prometer que no o faria. Por isso, como v, no podia faz-lo. Enquanto 
Robert, num silncio agitado, tentava aceitar aquela desculpa, Christopher continuou, parecendo de repente muito mais novo e no to seguro de si mesmo. Mas vou-lhe 
dizer o que fiz, no entanto. Senti-me um pouco culpado por a deixar assim... por isso escrevi ao Ben.

Escreveu a queml Ao pai dela.

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Mas que diabo podia ele fazer? Ele est na Amrica... est no Mxico.

Eu no sabia que ele estava no Mxico, mas escrevi-lhe, ao cuidado da Galeria Bernstein, e anotei "por favor enviar" no envelope. Sabe, achei que algum devia saber 
o que tinha acontecido.

E a Emma? Ela ainda est a trabalhar no teatro?

Estava quando eu me vim embora. Sabe, no fazia sentido ela vir para Londres comigo. Eu ensaio de manh  noite e nunca teramos tempo para nos vermos. Alm disso, 
se The Glass Door sair de cena ao fim de uma semana, vou precisar outra vez do meu antigo emprego, em Brookford. O Tommy Chilers est muito gentilmente a guardar-me 
o lugar. Por isso, decidimos que seria melhor que a Emma l ficasse.

E se The Glass Door ficar em cena dois anos?

Nesse caso no sei o que aconteceria. Mas, neste momento, vou ser franco consigo. As coisas so um pouco complicadas. Esta casa onde eu estou a morar  da minha 
me. Estou a morar com a minha me. Est a ver, com as coisas no ponto em que esto,  um pouco complicado.

Pois disse Robert. Pois, estou a ver... como voc diz,  complicado.

Ele pousou o auscultador. Jane, no se virando da janela, perguntou:

O que  assim to complicado?

Ele est a morar com a Hester, a me. E ela est, obviamente, a recusar que um Litton ponha os ps em casa dela. Cabra idiota. E o companheiro de apartamento bbedo 
foi despedido, por isso Emma est sozinha. E, para aliviar a conscincia, Christopher escreveu ao Ben Litton a contar o que aconteceu. E o que me apetecia era at-los

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a todos a um grande pedregulho e atir-los para um lago sem fundo.

Eu sabia que isto ia acontecer afirmou Jane. Ela virou-se ento para o encarar, com os braos ainda rigidamente cruzados, e ele viu no s que ela estava zangada, 
mas tambm muito perturbada.

Isto entre ns podia ser bom... sabes disso, no sabes, to bem como eu? E foi por isso que no te disse nada sobre Christopher, porque eu calculava, que se tu soubesses, 
seria o fim de tudo.

Ele desejou conseguir dizer "No tem de ser o fim", mas era impossvel.

De certa forma, Robert, cumpriste, de facto, a tua promessa. Nunca mencionaste Emma. Mas ela esteve o tempo todo no mais recndito da tua mente.

Agora que tinha sido dito, assim com tanta clareza, ele via que aquilo era verdade. Depois disse, inutilmente:

S porque, de uma forma extraordinria qualquer, eu estou envolvido com ela.

Se ests envolvido com ela  porque queres estar. E isso no chega, Robert. Isso para mim no chega. Eu no me contento com segundos lugares. Prefiro passar sem. 
Pensei que isso tinha ficado claro. Comigo tem de ser tudo ou nada. No posso passar pelo mesmo outra vez.

Ele compreendeu. Mas a nica coisa que podia fazer era pedir desculpa.

Acho que... talvez seja melhor ires-te embora.

Ela continuava de braos cruzados, uma barreira contra ele. No havia nenhuma forma de dizer adeus. Ele no conseguia beija-la. No conseguia dizer com frivolidade: 
"Foi bom", como era hbito nas comdias amorosas mais vulgares. E nunca conseguiria perdoar-lhe o facto de ter tentado afast-lo de Emma.

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- Eu vou. 
Ele disse:


 melhor. Mas quando ele comeou a descer as escadas, ela lembrou-se de uma coisa. Esqueceste-te do vinho.

Esquece o vinho retorquiu Robert.

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A cano terminou. As luzes diminuram de intensidade. Charmian, no papel de Oberon, avanou para o seu discurso final. A msica de Mendelssohn, gravada em cassete, 
pois as reduzidas dimenses do Teatro de Repertrio de Brookford no permitiam espao para uma orquestra, penetrava a cave escura do auditrio e evocava para Emma, 
sentada  secretria do ponto, toda a magia essencial de uma noite de Vero.

Agora, at ao raiar do dia.

Fadas, errai  vontade pelo palcio...

Era o fim da primeira semana de Sonho de Uma Noite de Vero. O fiasco financeiro de Daisies on the Grass tinha levado a direco  encenao de Shakespeare, o que, 
embora implicasse o dobro do trabalho para toda a gente, assegurava um subsdio da Secretaria de Estado da Cultura e casas cheias, compostas, na sua maior parte, 
por populao escolar.

Agora Emma j no estava a trabalhar para Collins, o contra-regra. Havia uma nova assistente de contra-regra, uma jovem acabada de sair da escola de drama, dedicada, 
forte e aparentemente imune  lngua afiada de Collins. Ela estava no palco agora, com a lngua de veludo cinzento e as

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asas prateadas de Cobweb, a fada, pois o enorme elenco de Sonho de Uma Noite de Vero exigia que cada elemento dacompanhia fosse chamado a representar um papel.
Devido a isso, Tommy Childers tinha pedido a Emma para voltar e dar uma mozinha nas actividades de bastidores. Durante as duas semanas anteriores, ela tinha realizado 
uma srie de tarefas ajudara no guarda-roupa, trabalhara nos cenrios, batera guies  mquina e passara o tempo todo a ir buscar sandes e cigarros e a fazer bules 
de ch interminveis.
Nessa noite, tinha-lhe sido dada a tarefa de ponto e passara todo o tempo com os olhos colados  cpia, aterrorizada com medo de se perder, de passar uma fala, de 
deixar algum ficar mal. Mas agora,  medida que a pea chegava ao 
fim, e sabendo o resto de cor, ela permitiu que a sua concentrao se descontrasse um pouco e se desse ao luxo de observar o palco.J
Charmian usava uma coroa de folhas cor de esmeralda,I
um tabardo prateado e calas tambm prateadas nas suas pernas longas e elegantes. O pblico, preso pela antiga magia das palavras, ficava sem flego, encantado. 

Vamos, depressa; Esperar-vos-ei ao raiar do dia.

Para aumentar o limitado espao lateral dos dois lados do palco, Tommy Childers tinha mandado construir uma rampa que partia do palco e penetrava na coxia do auditrio. 

Agora Oberon e Titnia, de mos dadas, e seguidos por um squito de fadas, faziam a sua sada do palco iluminado por esta rampa, a correr, com as roupas esvoaando 
como asas,
exuberantes, descendo para a escurido; rpidos e silenciosos, subiam a coxia e saam l atrs com uma subitaneidade " to airosa que desapariciam quase sem rudo, 
sem rasto.

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Depois o palco era deixado a Sara Rutherford, no papel de Puck, iluminada por um nico foco.

Se ns, sombras que somos, vos desagradamos Imaginai apenas (e tudo reparado ficar)

Ela tinha uma pequena flauta. Quando chegou  parte "E, posto isto, boa-noite a todos", tocou nela o trecho que era o tema da msica de Mendelssohn.

Depois, triunfante, "Dai-me as vossas mos, se somos amigos, e ficai certos que Robim vos compensar um dia." E escurido, e pano, aplausos.

Tudo acabado. Emma deixou escapar um suspiro de alvio por nada ter corrido mal, fechou a cpia do ponto e recostou-se na cadeira. O elenco estava a voltar ao palco 
para a primeira chamada. Quando passava por ela, o rapaz que fazia o papel de Nick Bottom baixou-se para lhe sussurrar:

O Tommy pediu-me para te dizer que est um tipo qualquer  tua espera. Estava sentado na Sala Verde h meia hora, mas o Tommy levou-o para o gabinete dele. Pensou 
que talvez fosse um pouco mais privado para vocs.  melhor ires ver do que se trata.

 minha espera? Mas quem ?

Bottom j estava no palco. O pano subiu, houve nova exploso de aplausos, e sorrisos, e vnias, e cortesias...

O primeiro pensamento de Emma foi que fosse Christo. Mas se fosse Christo, porque  que ele no tinha dito? Ela desceu os degraus de madeira e caminhou pelo corredor 
que dava para o patamar das escadas que subiam da porta do palco. Em frente, ao fundo de um pequeno corredor, a porta da Sala Verde estava entreaberta, mostrando 
um vislumbre do velho sof de veludo e os antigos cartazes emoldurados nas paredes. O gabinete de Tommy Childers partia desse corredor. A porta estava fechada.

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Atrs dela, os aplausos esvaram-se e depois elevaram-se para a segunda chamada ao palco.

Ela abriu a porta.

Era uma sala minscula, pouco maior do que um armrio; mal chegava para conter a secretria, duas cadeiras e um ficheiro. Ele estava sentado atrs da secretria, 
na cadeira do Tommy, por trs do caos pessoal e privado de guies, cartas, provas de programas e notas de encenao. A parede por trs dele estava forrada de fotografias 
pregadas com tachas. Algum lhe fizera uma chvena de ch, mas ele no se tinha dignado a beb-la, e estava na frente dele, horrivelmente fria, intacta. Vestia calas 
cinzento-prola, um bluso de bombazina castanho-avermelhada, uma camisa de algodo azul-escuro e uma gravata amarela cor de cromo, de n alargado, de forma que 
o boto de cima da camisa aparecia. Estava mais bronzeado do que nunca, parecia cerca de dez anos mais novo e quase indecentemente atraente.

Estava a fumar um cigarro americano e um cinzeiro cheio de beatas era indicativo do tempo que tinha estado  espera de Emma. Quando ela entrou, ele voltou a cabea 
para olhar para ela, descansando o cotovelo em cima da secretria, o queixo pousado no polegar. Os seus olhos, atravs do vu de fumo de cigarro, continuavam escuros, 
sombreados e ilegveis.

Ele disse, parecendo extremamente irritado:

O que  que tens estado a fazer?

E Emma ficou demasiado aturdida para fazer outra coisa se no dizer-lhe:

A fazer de ponto.

V l, entra de uma vez e fecha a porta.

Ela fez o que lhe mandaram. Os aplausos vindos do auditrio ficaram l fora. Ela descobriu que o seu corao estava a bater muito depressa, mas se era devido ao 
choque, ao

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prazer ou a certa apreenso, era impossvel de saber. Falou por fim, mal se ouvindo:

Pensei que estavas na Amrica.

E estava, esta manh. Vim hoje. E ontem... pelo menos suponho que foi ontem, estas datas e horas internacionais a mudarem complicam a vida a um nvel alarmante... 
Eu estava no Mxico. Sim. Ontem. Em Acapulco.

Emma procurou uma cadeira s apalpadelas, sentou-se nela com muito cuidado antes que as suas pernas fraquejassem.

Em Acapulco?

Sabias que os avies que vo para Acapulco esto todos pintados de cores diferentes? E  medida que se vai para sul, as hospedeiras do ar fazem uma espcie de striptease 
de uniforme. Fascinante. Ele continuou a observ-la. Emma, h qualquer coisa de diferente em ti.  isso, cortaste o cabelo. Que boa ideia! Vira-te e deixa-me ver 
atrs. Ela f-lo, virando a cabea cautelosamente e observando-o pelo canto do olho. Est muito melhor. No sabia que tinhas uma cabea com uma forma to boa. Toma 
um cigarro.

Ele empurrou o mao para o outro lado da secretria. Emma tirou um e ele acendeu-lho, protegendo a chama com as suas mos familiares e bonitas. Enquanto sacudia 
o fsforo, disse com naturalidade:

Muitas cartas tm atravessado o Atlntico. Nenhuma delas escrita por ti.

Era uma repreenso.

Pois no. Eu sei.

 difcil de compreender. No que eu me importasse particularmente, embora deva dizer que, j que deve ter sido a primeira carta que alguma vez te escrevi, teria 
sido agradvel receber uma resposta. Mas com Melissa foi diferente. Ela queria que viesses para os Estados Unidos e ficasses

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connosco, ainda que s por uma curta visita. Sempre foste uma pessoa muito cumpridora desse tipo de coisas. O que  que aconteceu?

No sei. Suponho que fiquei... desapontada por no teres voltado para casa. Levei algum tempo a habituar-me  ideia de estares casado. Depois, quando passei a aceit-la... 
j se tinha tornado demasiado tarde para responder s vossas cartas. E cada dia que passava piorava as coisas: tornava a tarefa mais impossvel. Eu no sabia que 
quando se fazia uma coisa de que no se estava particularmente orgulhoso... se tornava cada vez mais difcil desfaz-la. Ele no fez comentrios. Continuou simplesmente 
a fumar, a observ-la. Disseste muitas cartas. Quem  que te escreveu?

Bem, recebi uma carta do Marcus, claro. Essa era de negcios. E depois uma bastante formal, de Robert Morrow. Dizia que tinha estado aqui a ver uma pea qualquer 
e que tinha tomado uma bebida contigo e com o Christopher. No consegui perceber, contudo, se ele tinha vindo especificamente para ver a pea ou para te ver a ti.

Sim. Bem...

Assim que percebemos que ainda estavas viva, aparentemente ocupada e sem qualquer inteno de nos visitar, a Melissa e eu partimos no nosso avio colorido para o 
Mxico, onde ficmos em casa de uma velha estrela de cinema louca que vive numa casa cheia de periquitos. Depois, ontem, voltmos para Queenstown, e eis seno quando 
eu descubro mais uma carta  minha espera.

De Robert?

No. De Christopher.

Ela no conseguiu conter-se.

De Christopher!

Ele deve ser um jovem excepcionalmente talentoso. Com representao em Londres, to novo, com to pouca

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experincia. Claro que eu sempre soube que ele faria um

xito flagrante da sua vida. Ou isso ou acabava na priso...

Mas mesmo aquela provocao no conseguiu distra-la.

Queres dizer o Christopher! Escreveu-te a ti?

Dito nesse tom, parece insultuoso.

Mas porqu?

S consigo imaginar que ele se tenha sentido muito responsvel.

Mas... Estava a formar-se uma ideia na sua mente. Uma suspeita to maravilhosa que, se no fosse verdade, tinha de ser desfeita imediatamente. Mas tu no voltaste 
por causa dessa carta? Voltaste para pintar. Para ir para Porthkerris pintar outra vez?

Bem, claro, visto a longo prazo, sim. O Mxico foi inspirador. Tm um cor-de-rosa extraordinrio nos edifcios, nos quadros e nas prprias roupas...

Talvez te tenhas fartado de Queenstown e da Amrica insistiu ela. Nunca tiveste muito jeito para ficar mais de alguns meses no mesmo stio. E, claro, vais ter de 
visitar o Marcus. E de comear a pensar numa nova exposio.

Ele olhou-a fixamente sem expresso.

Para qu esse catlogo de motivos?

Bem, tem de haver alguma razo.

Acabei de te dizer. Vim para te ver.

Ela no queria o cigarro que ele lhe tinha dado. Inclinou-se para a frente e apagou-o, depois esmagou as mos no colo, as palmas apertadas uma contra a outra, os 
dedos entrelaados. Interpretando mal o silncio dela, Ben pareceu ficar ofendido.

Penso que ainda no percebeste bem qual  a situao. Eu vim literalmente do Mxico, li a carta de Christopher, despedi-me da Melissa e meti-me outra vez num avio. 
No tive tempo de mudar de camisa. Sujeitei-me a mais
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onze horas de voo, o tdio quebrado apenas por uma srie de refeies intragveis, que sabiam todas a plstico. Pensas que suporto torturas destas para vir falar 
com o Marcus Bernstein sobre mais uma exposio?

Mas, Ben...

Ele estava, contudo, embalado e pouco disposto a ser interrompido.

E, depois de chegar, vou para Claridges, onde a Melissa teve a amabilidade de me reservar antecipadamente um quarto por telegrama. Cedo a tomar um banho, ou uma 
bebida, ou uma refeio decente? No. Entro para o txi mais lento deste lado do Atlntico e viajo, debaixo de uma chuva indescritvel, para Brookford disse a palavra 
como se fosse uma coisa desagradvel, onde, aps interminveis indicaes incorrectas, acabo por encontrar o teatro de repertrio. O txi est neste momento l fora, 
a cobrar uma soma monumental. E se no me acreditas, podes ir l fora ver.

Eu acredito disse Emma rapidamente.

E depois, quando te dignas aparecer, da nica coisa que sabes falar  do Marcus Bernstein e de uma qualquer exposio hipottica. Sabes uma coisa? s uma fedelha 
ingrata. Um exemplo tpico da gerao moderna. No mereces ter um pai.

Ela replicou:

Mas eu j estive sozinha antes. Estive sozinha durante anos. Na Sua, em Florena, em Paris. Nunca me vieste ver nessas alturas.

No precisavas de mim nessas alturas ripostou Ben secamente. E eu sabia o que estavas a fazer e com quem estavas. Desta vez, quando li aquela carta de Christopher, 
conheci os primeiros vagos sinais de preocupao. Talvez porque o Christopher, sobretudo o Christopher, nunca teria escrito se ele prprio no estivesse preocupado. 
Porque  que no me disseste que o tinhas encontrado em Paris?

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Pensei que no te ia agradar.

Depende do tipo de pessoa em que ele se tornou. Ele mudou muito do rapazinho que vivia connosco em Porthkerris?

Parece o mesmo... Mas  alto... Est um homem agora. Determinado, ambicioso e, talvez, um pouco egocntrico. E com todo o encanto do mundo. Falar dele a Ben era 
como tirarem-lhe um peso dos ombros. Emma sorriu. Confessou: E eu adoro-o.

Ben, aceitando o facto, devolveu o sorriso.

Pareces a Melissa a falar do Ben Litton. Afinal, parece que esse jovem Christopher e eu temos muito em comum.  irnico que tenhamos perdido tantos anos a detestarmo-nos 
um ao outro. Talvez eu devesse travar conhecimento com ele de novo. Desta vez, talvez nos dssemos um pouco melhor.

Sim, penso que sim.

A Melissa vem ter comigo dentro de uma semana ou duas. Vem para Porthkerris.

Viver l em casa? perguntou Emma, incrdula. Ben estava divertido.

A Melissa? L em casa? Deves estar a brincar. J foi reservada uma suite no Hotel Castelo. Vou levar a vida de um peixe-dourado enfiado num aqurio, mas talvez, 
 medida que envelheo, a existncia sibarita estej a comear a revelar os seus encantos.

Mas ela no se importou? De ires a casa, assim? Beija-la e deix-la sem sequer teres tempo para mudar de camisa?

Emma, a Melissa  uma mulher esperta. Ela no tenta amarrar um homem ou possu-lo. Ela sabe que a melhor maneira de nos ligarmos a algum que se ama ... com muito 
jeito... dar-lhe liberdade. As mulheres levam muito tempo a aprender isso. A Hester nunca aprendeu. E tu?

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Eu estou a aprender respondeu Emma.

O mais extraordinrio  que eu acredito que ests mesmo.

Por aquela altura j estava escuro. O que tinha acontecido de forma despercebida, enquanto conversavam, a escurido aumentando imperceptivelmente at o rosto de 
Ben,  minscula distncia que os separava, ser simplesmente uma mancha, o seu cabelo uma coisa branca. Havia um candeeiro em cima da secretria, mas nenhum dos 
dois se mexeu para o acender. A penumbra cercava-os, a porta fechada mantinha o resto do mundo l fora. Eles eram os Litton; uma famlia; juntos.

Enquanto conversavam, podiam ouvir os sons rotineiros vindos dos bastidores do teatro. A ltima chamada ao palco. Vozes. Collins a insultar um infeliz electricista. 
Passos apressados, correndo escada acima para os camarins, ansiosos por sarem, por se libertarem dos fatos e da maquilhagem, por apanharem autocarros, por irem 
para casa, por cozinhar ceias e lavar meias e, talvez, por fazer amor. Passos de um lado para o outro, dentro e fora da Sala Verde. "Querida, tens um cigarro? Onde 
est a Delia? Algum viu a Delia? No houve nenhum telefonema para mim, pois no?"

Os sons diminuam  medida que a dois e dois ou trs e trs deixavam o teatro. Desciam as escadas, batiam com a porta e saam para a rua estreita. Um carro arrancava. 
Algures um homem comeou a assobiar.

Por trs de Emma, a porta foi abruptamente aberta e a suave escurido foi quebrada por um rectngulo de luz amarela.

Desculpem interromper-vos... Era Tommy Childers. No precisam de luz? Ele carregou no interruptor e Ben e Emma ficaram paralisados, a pestanejar, como um casal de 
corujas sonolentas. S queria uma coisa da minha secretria, antes de ir para casa.

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Emma levantou-se, desviando a cadeira do caminho.

Tommy, sabias que era o meu pai?

No tinha a certeza disse Tommy, sorrindo para Ben. Pensei que estava na Amrica.

Toda a gente pensava que eu estava na Amrica. At a minha mulher antes de eu me despedir dela. Espero que no lhe tenha causado nenhum inconveniente termos estado 
aqui tanto tempo no seu gabinete.

De maneira nenhuma. O nico problema  que o guarda-nocturno est a ficar um pouco impaciente em relao  porta do palco. Eu digo-lhe que tu a fechas, Emma.

Sim, claro.

Bem... Boa-noite, senhor Litton... Ben ps-se de p.

Tinha pensado em levar Emma comigo para Londres esta noite. No tem objeces a isso?

Absolutamente nenhuma afirmou Tommy. Ela tem andado a trabalhar como uma escrava durante as ltimas duas semanas. Faz-lhe bem tirar uns dias de descanso.

Emma objectou:

No sei porque  que ests a pedir ao Tommy quando nem sequer me perguntaste a mim.

Eu no te pergunto coisas cortou Ben. Digo-tas.

Tommy riu-se. Disse:

Nesse caso, espero que vo  estreia. Ben no percebeu.

Estreia?

Secamente, Emma esclareceu-o.

Ele quer dizer  antestreia do Christopher. Na quarta-feira.

J? Provavelmente nessa altura j estou em Porthkerns. Teremos de ver isso.

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Devia tentar sugeriu Tommy. Apertaram as mos. Foi um prazer conhec-lo. Emma... para ti, at um dia destes...

Talvez na prxima semana, se The Glass Door sair de cena...

No sai nada replicou Tommy. Se o que Christo fez  Daisies on the Grass servir de referncia, vai ficar em cena tanto tempo como A Ratoeira. No te esqueas de 
fechar a porta.

Ele afastou-se escada abaixo. Ouviram-lhe os passos a descer o beco, por baixo da janela, em direco  rua. Emma suspirou. Sugeriu:

Acho melhor irmos embora. O motorista do txi ou perde a esperana de te voltar a ver ou vai morrer de velho  espera.

Mas Ben tinha-se instalado outra vez na cadeira do Tommy.

J vamos sossegou ele. S mais uma coisa. Tirou outro cigarro do mao americano. Queria perguntar-te umas coisas sobre Robert Morrow.

Ele tinha uma voz do mais desconcertante e calmo. Nunca mudava ou variava as suas inflexes, de forma que se estava constantemente a ser apanhado de surpresa. Todos 
os nervos do corpo de Emma saltaram em alerta, mas ela apenas disse, com suficiente naturalidade:

O que  que tem o Robert Morrow?

Eu sempre tive um... pressentimento em relao quele jovem.

Ela tentou ser superficial.

Queres dizer, para alm de admirares a forma da cabea dele.

Ele ignorou a observao.

Perguntei-te uma vez se gostavas dele e tu disseste: "Suponho que sim. Mal o conheo."

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E ento?

Conhece-lo melhor, agora?

Bem, sim, suponho que sim.

Quando ele veio a Brookford, dessa vez, ele no estava simplesmente a visitar o teatro, pois no? Ele veio ver-te.

Veio  minha procura. No  bem a mesma coisa.

Mas deu-se ao trabalho de vir  tua procura. Pergunto-me porqu.

Talvez tenha sido levado pelo famoso sentido de responsabilidade dos Bernstein.

Pra de rodear a questo.

O que  que queres que te diga?

Quero que me digas a verdade. E que sejas honesta contigo mesma.

O que  que te faz pensar que no o fiz?

Porque houve uma luz que se apagou nos teus olhos. Porque te deixei em Porthkerris radiosa e morena como uma cigana. Por causa da forma como te sentas, da forma 
como andas, da tua aparncia. Ele acendeu ento o cigarro. Talvez te esqueas que ando a observar as pessoas, a dissecar as suas personalidades, a pint-las, h 
mais anos do que os que tu tens. E no foi o Christopher quem te fez ficar infeliz. Tu prpria j me disseste isso.

Talvez tenhas sido tu.

Tretas? Um pai? Zangada, talvez. Magoada e ressentida. Nunca de corao despedaado. Fala-me do Robert Morrow. O que  que correu mal?

A pequena sala ficou de sbito insuportavelmente abafada. Emma levantou-se e foi  janela, abriu-a de par em par, apoiando o cotovelo no parapeito e inspirando grandes 
golfadas de ar fresco e lavado pela chuva.

Ela disse:

Suponho que nunca me dei ao trabalho de compreender que tipo de pessoa ele realmente era.

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No percebo.

Bem... Encontr-lo pela primeira vez como eu o encontrei, fez com que comeasse tudo de uma forma errada. Eu nunca pensei nele como uma pessoa com uma vida particular 
e uma existncia privada, com gosto e averses... e amantes. Ele apenas fazia parte da Galeria Bernstein, tal como o Marcus faz parte da Galeria Bernstein. Esto 
l simplesmente para cuidar de ns. Para organizar exposies, trocar cheques, fazer reservas em hotis e assegurar que a vida, para os Litton, no mnimo corra sobre 
rodas. Ela voltou-se para franzir o sobrolho ao pai, perplexa pela sua prpria revelao. Como  que eu pude ser to idiota?

Talvez o tenhas herdado de mim. O que  que ps fim a essa iluso feliz?

Oh, no sei. Vrias coisas. Ele foi a Porthkerris para ver os quadros do Pat Farnaby e pediu-me para ir  Gollan com ele, porque no sabia o caminho. Estava a chover, 
um tempo muito tempestuoso, ele trazia uma camisola de l vestida e riu-se de muitas coisas. Sei l, mas foi agradvel. E amos jantar juntos, mas ele... bem... 
de qualquer modo, eu fiquei com dor de cabea, por isso acabei por no ir. Depois vim para Brookford para morar com o Christo e no pensei mais em Robert Morrow 
at quela noite em que ele veio ao teatro. Eu estava a vagar o palco, voltei-me, e ali estava ele. E trazia uma rapariga com ele. Ela chama-se Jane Marshall e  
uma decoradora de interiores, ou uma coisa assim muito talentosa.  bonita, bem-sucedida na vida e pareciam um casal. Sabes o que eu quero dizer? Um casal calmo, 
auto-sufciente e... unido. E eu senti como se algum me tivesse fechado uma porta na cara e me tivesse deixado do lado de fora, ao frio.

Ela voltou-se ento da janela, voltou para o p da secretria e sentou-se nela, de costas para o pai, agarrou numa

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borracha e comeou a brincar com ela, passando-a como uma catapulta por entre os dedos.

Eles foram ao apartamento tomar uma cerveja ou um caf, ou coisa assim, o Robert e eu tivemos uma discusso horrvel, ele saiu sem se despedir e levou Jane Marshall 
com ele. Voltaram para Londres de carro e, imagina-se... ela tentava desesperadamente manter a voz clara viveram felizes para sempre. De qualquer forma, no o vi 
desde ento.

Foi por isso que no deixavas o Christopher dizer-lhe que estavas sozinha?

Foi.

Ele est apaixonado por essa rapariga?

O Christo pensou que sim. Ele achou-a encantadora. Disse que se o Robert no casasse com ela, era porque estava a precisar de ir ao mdico.

E a discusso foi sobre o qu?

Emma mal se conseguia recordar. Tentando rever a situao, esta apresentava-se to dolorosamente como um disco de gramofone a andar para trs na rotao mxima. 
Uma troca de palavras gritadas, sem sentido, dolorosas, de que se arrependia.

Oh, sobre tudo. Tu. O facto de eu no ter respondido  tua carta. E Christo. Eu penso que ele imagina que Christo e eu estamos loucamente apaixonados um pelo outro, 
mas quando amos a chegar a eu estava to furiosa que no me dei ao trabalho de o desiludir.

Talvez isso tenha sido um erro.

Sim, talvez.

Queres ficar aqui, em Brookford?

No tenho mais stio nenhum para onde ir.

Tens Porthkerris.

Emma virou-se para ele a sorrir.

Comigo? Em casa?

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Porque no?

Por mil razes. Voltar para a casa do paizinho nunca resolveu nada. Alm disso, no se pode fugir do interior da prpria cabea.

Ele ia, finalmente, a caminho. O enganar-se a si prprio e a inquietao das ltimas seis semanas tinham terminado. O Alvis, como um caador que regressa a casa, 
virou para oeste, atravessou a ponte e entrou na M.4. Robert conduziu-o sempre na faixa da maior velocidade e manteve o velocmetro com prudncia e todo o cuidado 
nos cem, pois a frustrao de ser detido, naquela altura, por uma patrulha da polcia, seria de mais para ele.  medida que se aproximava do aeroporto de Londres, 
o primeiro trovo penetrou o ar pesado e parado, e ele parou no primeiro desvio para pr a capota. Foi mesmo a tempo. Quando voltou  estrada, a noite sombria entrou 
em erupo como um vulco. O vento, com uma brusquido incrvel, soprava de oeste e levava  frente nuvens negras. Quando veio, a chuva foi uma autntica exploso, 
rios dela, como uma carga de gua de mono, contra a qual o limpa-pra-brisas dificilmente conseguia competir. Em segundos, a superfcie da estrada ficou inundada, 
reflectindo os raios lvidos dos relmpagos bifurcados que rasgavam o cu.

Ocorreu-lhe que talvez fosse sensato parar e esperar at passar o pior da tempestade, mas naquele momento a sensao de alvio que sentia por estar a fazer o que 
tinha subconscientemente querido fazer durante semanas era mais forte do que quaisquer ideias de precauo. Por isso continuou, a enorme curva da auto-estrada aproximou-se 
dele, chiou por baixo das rodas e foi afastada numa onda; j uma coisa do passado; rejeitada e esquecida, juntamente com as suas prprias tnues
incertezas.

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Encontrou o teatro fechado. Atravs da luz do candeeiro da rua, conseguiu ler os cartazes: "SONHO DE UMA NOITE DE VERO." Apagado, deserto, o stio tinha um ar sombrio 
como o do salo paroquial que em tempos fora. A porta estava fechada a sete chaves; todas as janelas s escuras.

Ele saiu do carro. Estava mais fresco agora. Debruou-se para o banco de trs, tirou uma camisola de l que ali estava desde o fim-de-semana em Bosham e vestiu-a 
por cima da camisa. Fechou a porta e depois viu o txi solitrio,  espera, na beira do passeio, o motorista deitado em cima do volante. Podia estar morto.

Est algum ali dentro?

Tem de estar, amigo. Estou  espera que me paguem. Robert caminhou pelo passeio at  rua estreita, pela

qual, h tanto tempo, Emma e Christopher tinham caminhado como amantes, abraados. Daquele lado do edifcio sombrio havia uma janela com luz no 1. andar. Ele desceu 
o beco s escuras, tropeou num caixote de lixo e encontrou uma porta aberta. L dentro, um lano de escadas conduzia ao andar de cima, palidamente iluminado por 
uma luz acesa no patamar do 1. andar. Foi assaltado pelo cheiro sedio do teatro a tintas e veludo bafiento. De cima vinha o murmrio de vozes e ele subiu as escadas 
na sua direco, encontrou o pequeno corredor e a porta a dizer "GABINETE DO ENCENADOR" entreaberta e deixando escapar um fio de luz.

Ele abriu a porta, as vozes cessaram abruptamente e deu por si  entrada de um gabinete minsculo e apinhado, a olhar para as caras espantadas de Ben e Emma Litton.

Emma estava sentada em cima da secretria, de costas para o pai, de frente para Robert. Usava um vestido curto, de feitio simples como um fato-macaco, e as suas 
longas pernas estavam despidas e bronzeadas. A sala era to
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pequena que com ele na entrada estava apenas a um brao de distncia dela. Ele pensou que ela nunca estivera to bonita. O seu alvio e prazer ao ver Emma foram 
to grandes que o inesperado da presena de Ben Litton se tornou insignificante. O prprio Ben tambm no ficou surpreendido. Ergueu simplesmente as suas sobrancelhas 
pretas e exclamou:

Bem, vejam s quem apareceu agora.

Robert ps as mos nos bolsos e comeou a dizer:

Pensei...

Ben levantou uma mo.

J sei. Pensaste que eu estava na Amrica. Bem, no estou, estou em Brookford. E quanto mais cedo sair deste stio e voltar para Londres, melhor.

Mas quando  que?...

Mas Ben j estava a apagar o seu cigarro e a levantar-se, interrompendo-o implacavelmente.

Por acaso no viste um txi em frente do teatro?

Vi. O motorista parecia estar fossilizado ao volante.

Pobre tipo. Tenho de ir descans-lo.

Eu trouxe o meu carro informou Robert. Se quiseres, levo-te de volta para Londres.

Tanto melhor. Vou pagar ao homem e mand-lo embora.

Emma no se tinha mexido. Agora, Ben contornava a secretria e Robert desviou-se para o deixar sair.

A propsito, Robert, a Emma tambm vem. Tens espao para ela?

Mas claro.

Na entrada olharam um para o outro. Depois Ben fez um aceno de cabea satisfeito.

Esplndido disse. Espero l fora por vocs.

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Sabias que ele vinha? Emma abanou a cabea.

Tinha alguma coisa a ver com a carta que o Christopher lhe escreveu?

Emma fez que sim com a cabea.

Ele veio hoje dos Estados Unidos para ter a certeza que estavas bem?

Emma voltou a fazer que sim com a cabea, com os olhos a brilhar.

Ele tinha estado no Mxico com a Melissa. Mas veio directamente para aqui. Nem o Marcus sabe que ele est no pas. Nem sequer foi a Londres. Apanhou um txi do aeroporto 
para Brookford. E no estava zangado por causa do Christopher e diz que se eu quiser posso voltar para Porthkerris com ele.

E vais?

Oh, Robert, no posso passar a vida toda a fazer os mesmos erros. Esse tambm foi um erro da Hester. Queramos as duas que o Ben se encaixasse nas nossas ideias 
de marido simptico aplicado e de pai domstico bondoso. O que era to realista como tentar enjaular uma pantera. E quando penso como so tristes as panteras enjauladas! 
Alm disso, o Ben j no  problema meu.  um problema da Melissa.

Robert perguntou:

Ento qual  o preo, agora, tendo em vista vir no fim de uma longa lista de prioridades?

Emma fez-lhe uma careta.

Sabes, o Ben uma vez disse que tu tinhas uma cabea nobre, que devias deixar crescer a barba e que depois te pintava. Mas se eu tentasse pintar-te, seria com um 
grande balo a sair da boca com "EU BEM TE DISSE" escrito.

Eu nunca disse isso a ningum em toda a minha vida. E certamente que no fz esse caminho todo para isso.

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O que  que vieste dizer?

Que se eu soubesse que estavas sozinha tinha vindo h muitas semanas. Que se eu conseguir dois bilhetes para a estreia do Christo, quero que venhas comigo. Que peo 
desculpa por ter gritado contigo, da ltima vez que aqui estive.

Eu tambm gritei.

Detesto discutir contigo, mas, de uma forma qualquer extraordinria, estar longe de ti  mil vezes pior. No parava de dizer a mim prprio que era simplesmente uma 
coisa que tinha acabado e estava esquecida. Mas estiveste o tempo todo no mais recndito da minha mente. A Jane sabia. Ela disse-me isso esta noite, que soube desde 
sempre.

A Jane?...

Tenho vergonha de o dizer, mas tenho andado a fazer a Jane andar s voltas e ao mesmo tempo a tentar evitar enfrentar a horrvel verdade.

Mas foi por causa da Jane que eu obriguei o Christopher a prometer que no te ligava. Eu pensei...

E foi por causa do Christopher que eu no voltei a Brookford.

Pensaste que tnhamos uma relao amorosa, no pensaste?

No era isso que eu devia pensar?

s um grande idiota, o Christopher  meu irmo. Robert agarrou-lhe na cabea com as duas mos, ps-lhe

os polegares por baixo do queixo e aproximou a cara dela da dele. Antes de beija-la, disse:

E como  que eu podia saber?

Quando voltaram ao carro, no havia sinais de Ben, mas tinha-lhes deixado um recado, preso entre o limpa-vidros
No 
 vidro da frente.

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Como uma multa de estacionamento observou Emma.

Era uma carta nada convencional, escrita numa folha de papel forte rasgada do bloco de desenhos do Ben e no cimo da folha com dois retratos minsculos dois perfis 
de frente um para o outro. No havia a menor possibilidade de confundir o queixo protuberante dela e o nariz formidvel de Robert.

 para ns.  para ns os dois. L em voz alta. Robert f-lo.

"O motorista do txi pareceu ficar aborrecido por ter de voltar para Londres sozinho, por isso decidi acompanh-lo. Vou estar em Claridges, mas preferia no ser 
incomodado antes do meio-dia de amanh."

Mas se eu no for para Claridges antes do meio-dia, para onde  que vou?

Devias vir comigo. Para Milton Gardens.

Mas no tenho nada. Nem sequer tenho uma escova de dentes.

Eu compro-te uma escova de dentes disse Robert, beijou-a e depois continuou a ler a carta, "Por essa altura j devo ter tido tempo de recuperar o sono e de esfriar 
o champanhe e estarei pronto para comemorar o que quer que tenham para me dizer."

Que velho to manhoso! Soube desde o princpio. "Saudades, e que Deus vos abenoe. Ben."

Um momento depois, Emma perguntou:

 tudo?

No. Ele entregou-lhe a carta e Emma viu, por baixo da assinatura de Ben, um pequeno terceiro desenho. Uma madeixa de cabelo branco, uma cara bronzeada, um par de 
olhos escuros e cruelmente observadores.

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Auto-retrato classificou Robert. Ben Litton por Ben Litton. Deve ser nico. Um dia talvez o possamos vender por milhares de libras.

"Saudades, e que Deus vos abenoe aos dois."

Nunca hei-de querer vend-lo disse Emma.

Nem eu. Vamos, minha querida, est na hora de ir para casa.
